Blue Origin suspende turismo espacial por dois anos para acelerar módulo lunar do programa Artemis

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A Blue Origin decidiu interromper por, no mínimo, dois anos as operações comerciais do foguete New Shepard. A medida redistribui engenheiros, orçamento e infraestrutura ao desenvolvimento de sistemas de pouso lunar humano que integrarão o programa Artemis, esforço da NASA voltado ao retorno de astronautas à superfície da Lua.
- Por que a Blue Origin interrompeu o New Shepard agora
- Como a Blue Origin pretende contribuir para o programa Artemis
- Histórico operacional do New Shepard até a pausa
- Perfil dos passageiros que voaram com a Blue Origin
- Impactos financeiros da decisão na Blue Origin e na NASA
- Próximos passos do cronograma lunar
Por que a Blue Origin interrompeu o New Shepard agora
O anúncio da pausa ocorreu após o voo mais recente do New Shepard, realizado na semana anterior com seis passageiros a bordo. Segundo a companhia fundada em 2000 por Jeff Bezos, manter o cronograma de turismo suborbital consome recursos humanos e financeiros que, no momento, se tornaram estratégicos para cumprir obrigações contratuais junto à agência espacial norte-americana. O contrato vigente, no valor de US$ 3,4 bilhões, prevê a entrega de um módulo de pouso destinado inicialmente à missão Artemis V, planejada para a década de 2030.
Embora o objetivo original fosse participar apenas dessa etapa mais adiante, atrasos verificados em projetos paralelos — principalmente os sistemas de pouso das missões Artemis III e IV, sob responsabilidade da SpaceX — levaram a NASA a solicitar que ambas as empresas analisem formas de acelerar seus cronogramas. Ao concentrar sua força de trabalho no módulo lunar, a Blue Origin busca responder a esse pedido e garantir que a infraestrutura de pouso esteja pronta caso seja necessário antecipar seu uso.
Como a Blue Origin pretende contribuir para o programa Artemis
A participação da Blue Origin no Artemis é vista pela NASA como um elemento de redundância e resiliência. O sistema de pouso projetado pela empresa deverá transportar astronautas da órbita lunar até a superfície e realizar a etapa de retorno ao módulo de comando. Para cumprir essas tarefas, o desenvolvimento envolve integração de propulsores, controles de descida autônoma, sistemas de suporte à vida e certificações de segurança humana — todos processos que exigem verba e mão-de-obra altamente especializada.
O foco exclusivo no módulo lunar nos próximos 24 meses significa redirecionar laboratórios que antes preparavam motores e cápsulas para voos suborbitais. Ao mesmo tempo, a empresa mantém a cooperação com equipes da NASA, que supervisionam cronogramas, marcos de testes e auditorias técnicas. De acordo com declarações do administrador da agência, Jared Isaacman, os “projetos de aceleração seguem em paralelo” e serão continuamente avaliados para verificar se atendem à meta governamental de lançar a missão Artemis III até o fim de 2028 — objetivo estabelecido pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Histórico operacional do New Shepard até a pausa
Lançado pela primeira vez em 2015 em voos de teste não tripulados, o New Shepard entrou em operação comercial em 2021, ano em que levou Jeff Bezos e outros três passageiros ao limite do espaço. Desde então, foram 38 lançamentos conduzidos a partir da base da companhia no oeste do Texas. O sistema, totalmente reutilizável, compõe-se de um propulsor de pequeno porte e uma cápsula para seis ocupantes. A cada missão, a cápsula ultrapassa a linha de Kármán, situada a 62 milhas — ou 100 quilômetros — de altitude, antes de retornar ao solo sustentada por paraquedas, enquanto o foguete executa pouso vertical controlado.
Segundo dados divulgados pela empresa, 98 passageiros já cruzaram a marca internacional que delimita o início do espaço, alguns deles em mais de uma ocasião. Além da movimentação turística, o veículo transportou mais de 200 cargas científicas e experimentos de pesquisa provenientes de estudantes, universidades, organizações parceiras e da própria NASA.
Perfil dos passageiros que voaram com a Blue Origin
O turismo espacial do New Shepard ganhou visibilidade ao levar personalidades de diferentes áreas. William Shatner, Michael Strahan e Katy Perry compõem a lista de nomes que vivenciaram alguns minutos de microgravidade com a empresa. O sistema também acolheu figuras ligadas à história da exploração espacial, entre elas Wally Funk, pioneira da aviação, e Edward Dwight, associado ao grupo de pilotos afro-americanos da década de 1960.
Esses voos contribuíram para popularizar a ideia de viagens suborbitais particulares, apesar de a Blue Origin nunca ter tornado público o valor cobrado por assento. A companhia confirma, entretanto, que existe uma fila de clientes com reservas pagas ou pré-pagas para voos programados nos próximos anos. Essas reservas permanecem válidas, mas não serão atendidas antes do fim da janela de 24 meses dedicada ao projeto lunar.
Impactos financeiros da decisão na Blue Origin e na NASA
A receita oriunda dos bilhetes suborbitais é mencionada internamente como “relativamente pequena” quando comparada ao montante de US$ 3,4 bilhões garantido pelo contrato do Artemis. Esse diferencial torna financeiramente justificável interromper a atividade de turismo sem comprometer a saúde de caixa da companhia. Ao mesmo tempo, a NASA assegura que pagamentos estão vinculados a marcos de entrega, fato que incentiva a empresa a priorizar o módulo de pouso e atingir cada etapa no prazo.
Outra variável financeira relevante é o intercâmbio tecnológico. Muitos sistemas aperfeiçoados no New Shepard — especialmente o motor reutilizável e os algoritmos de pouso preciso — servem de base para o New Glenn, foguete orbital de grande porte da companhia. Em 2023, o propulsor desse veículo foi recuperado com sucesso em uma balsa flutuante após lançar uma missão científica da NASA com destino a Marte. Ao pausar o turismo, a empresa realoca engenheiros que atuavam na frota suborbital para acelerar tanto o New Glenn quanto o módulo lunar, otimizando custos de desenvolvimento.
Próximos passos do cronograma lunar
Durante os dois anos de pausa do New Shepard, a Blue Origin concentrará esforços em revisões de projeto, construção de modelos de teste e campanhas de ensaio em solo para validar o módulo de pouso humano. Parte desse trabalho envolverá simulações de descida controlada, avaliações de sistemas de propulsão e testes de integração com a cápsula Orion, que transportará as tripulações Artemis da Terra até a órbita lunar.
A agência espacial norte-americana acompanha de perto cada entrega, uma vez que atrasos adicionais podem repercutir em toda a arquitetura do programa Artemis. Caso o plano de aceleração produza resultados concretos, a NASA poderá decidir incorporar o módulo da Blue Origin antes da missão Artemis V, ainda que essa decisão dependa de análises de risco, disponibilidade orçamentária e cronograma de lançamentos do Sistema de Lançamento Espacial (SLS).
Enquanto o cenário avança, o próximo evento a ser monitorado é a conclusão da fase de Revisão Crítica de Design, prevista para ocorrer dentro desse período de 24 meses. Esse marco validará a configuração final de hardware e software do módulo lunar, determinando se a empresa estará apta a construir as unidades de voo que poderão, no futuro, levar astronautas de volta à superfície da Lua.

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