Blocos da saúde mental ocupam o carnaval carioca e ampliam inclusão nas ruas do Rio

Blocos da saúde mental ocupam o carnaval carioca e ampliam inclusão nas ruas do Rio
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O carnaval do Rio de Janeiro, tradicionalmente associado à música, à criatividade e ao turismo, ganha uma dimensão adicional quando os blocos da saúde mental atravessam os bairros da cidade. Essas agremiações reúnem usuários da Rede de Atenção Psicossocial, familiares, profissionais de saúde e moradores locais com o propósito de celebrar a cultura carnavalesca e, simultaneamente, derrubar barreiras que ainda cercam o sofrimento psíquico.

Índice

Blocos da saúde mental: quando e por que surgiram

As primeiras iniciativas que integram cuidado em liberdade e carnaval remontam ao início dos anos 2000, período que coincidiu com a consolidação da Lei 10.216/2001, marco da Reforma Psiquiátrica brasileira. Desde então, blocos idealizados dentro de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) passaram a se organizar como estratégias de inclusão social. O movimento ganhou força na capital fluminense, onde a Secretaria Municipal de Saúde do Rio (SMS-Rio) apoia desfiles que levantam bandeiras contra o estigma e em favor do direito à alegria para pessoas em sofrimento psíquico.

Direito à cultura e cidadania como eixo do cuidado

Para o superintendente municipal de Saúde Mental, Hugo Fernandes, o carnaval é palco de afirmação de direitos. Ele avalia que, ao desfilar, os usuários demonstram que a cultura é componente indissociável do cuidado. Os blocos funcionam ainda como extensão das oficinas de música, percussão, artesanato e fantasias realizadas durante todo o ano nos CAPS. Nessas atividades, o estímulo à expressão artística dialoga com a comunidade, tornando a inclusão social visível e concreta.

Zona Mental: bloco da Zona Oeste destaca nordestinos e Hermeto Pascoal

Fundado em 2015, o Zona Mental é o mais jovem entre os blocos da saúde mental em atividade. A agremiação nasceu da colaboração entre usuários, familiares e equipes que compõem a rede psicossocial da Zona Oeste. O primeiro desfile ocorreu em 2017, consolidando o propósito de reintegrar pacientes à vida cultural do território por meio da música e da arte.

No carnaval de 2026, o Zona Mental concentra a partir das 16h na Praça Guilherme da Silveira, em Bangu, de onde seguirá pelas ruas do bairro. A presidência é dividida pela musicoterapeuta Débora Rezende, integrante do CAPS Neusa Santos Souza, e pela artista Rogéria Barbosa, usuária do mesmo serviço. A edição deste ano presta tributo aos nordestinos residentes na região e destaca o multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal, morador de Bangu até seu falecimento, em 2025, aos 89 anos. O samba-enredo vencedor foi composto por Marco Antonio Amaral, usuário do CAPS, reforçando a participação direta dos pacientes na criação artística.

A composição da ala musical conta ainda com sambistas da Unidos de Bangu e da Mocidade Independente de Padre Miguel, duas escolas com forte vínculo com a Zona Oeste. Ao todo, catorze serviços de saúde locais integram o cortejo, ampliando a rede de apoio e dando visibilidade à periferia carioca, frequentemente distante do circuito carnavalesco do Centro e da Zona Sul.

Tá Pirando, Pirado, Pirou! celebra 25 anos da Lei Antimanicomial

O bloco Tá Pirando, Pirado, Pirou! nasceu em 2005 a partir de um coletivo de profissionais e usuários dos serviços de saúde mental e, em 2026, completa 21 anos de trajetória. Para esta edição, o grupo dedica o desfile aos 25 anos da Lei 10.216/2001, normativa que redefiniu o modelo de atenção psiquiátrica no Brasil ao privilegiar o cuidado em liberdade. A concentração está marcada para 15h, em 8 de fevereiro, na Avenida Pasteur, na Urca, em frente à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

O enredo homenageia ainda o psiquiatra italiano Franco Basaglia, referência mundial na luta antimanicomial. Basaglia visitou o Brasil em 1979, observou a realidade do Hospital-Colônia de Barbacena (MG) — onde mais de 60 mil pessoas morreram vítimas de maus-tratos — e influenciou profissionais brasileiros a redigirem o Manifesto de Bauru, documento que instituiu o Dia Nacional da Luta Antimanicomial (18 de maio). Ao relembrar essa trajetória, o bloco estabelece ponte histórica entre a psiquiatria democrática europeia e as transformações no sistema de saúde brasileiro.

Para conduzir o ritmo, a bateria da Portela empresta seu som, enquanto os blocos Céu da Terra e Vem Cá Minha Flor participam como convidados, ampliando o intercâmbio cultural entre diferentes grupos carnavalescos.

Império Colonial reverencia Arthur Bispo do Rosário

Criado em 2009 a partir de projetos do Museu Bispo do Rosário, localizado no Instituto Municipal de Assistência à Saúde Juliano Moreira (IMASJM), o Império Colonial propõe para 2026 um enredo dedicado a Arthur Bispo do Rosário. Diagnosticado com esquizofrenia, Bispo produziu obras reconhecidas internacionalmente durante seu longo período de internação na Colônia Juliano Moreira — antigo manicômio carioca transformado em polo de cultura.

O bloco reúne 20 componentes fixos entre bateria, profissionais de saúde e usuários, mas a expectativa é dobrar o público quando ele sair da Praça Nossa Senhora de Fátima, em Jacarepaguá, às 14h30 de 10 de fevereiro. A diretoria destaca que, pela primeira vez, a agremiação terá alas temáticas, evidenciando o amadurecimento do grupo. O enredo é assinado por Alex de Repix, usuário do CAPS Jovelina Pérola Negra, reforçando o protagonismo dos pacientes no processo criativo.

Blocos da saúde mental e a transformação do Engenho de Dentro

O Loucura Suburbana, fundado em 2001, é o mais antigo bloco ligado à saúde mental no Rio. Suas raízes estão no bairro do Engenho de Dentro, Zona Norte, onde o Instituto Municipal Nise da Silveira atua como referência em tratamento humanizado. Em 2026, a agremiação completa 26 anos e pretende levar novamente mais de 3 mil pessoas para as ruas no dia 12 de fevereiro.

Para escolher o samba-enredo deste ano, o bloco realizou concurso interno com 25 inscritos; a composição “Para o povo poder cantar” saiu vencedora. O tema geral combina três dimensões: “Baluartes”, em memória a músicos que marcaram a história do coletivo; “Território”, ressaltando o trabalho de revitalização do carnaval de rua no Engenho de Dentro; e “Loucura”, expressão que remete tanto ao estigma quanto à potência criativa dos usuários.

Com infraestrutura própria, o Loucura Suburbana mantém barracão aberto para empréstimo gratuito de fantasias e oferece maquiagem carnavalesca no dia do cortejo, garantindo que pessoas de diferentes condições socioeconômicas possam participar. A coordenadora-geral, psicóloga Ariadne Mendes, destaca que o bloco funciona como espaço de encontro e memória, fortalecendo vínculos entre comunidade, usuários e profissionais.

Oficinas, arte e cuidado contínuo ao longo do ano

Os blocos da saúde mental não se limitam ao período carnavalesco. CAPS e centros de convivência mantêm, durante todo o ano, oficinas de percussão, confecção de adereços, dança e expressão corporal. Tais atividades estimulam habilidades sociais, promovem autoestima e funcionam como estratégia terapêutica complementar aos atendimentos clínicos. Ao final do ciclo, o desfile se torna vitrine pública desse processo, permitindo que a sociedade reconheça competências e talentos dos participantes.

Impacto na comunidade e no combate ao estigma

Quando as baterias entram em cena e os foliões misturam fantasias com instrumentos, o preconceito dá lugar à curiosidade e à convivência. Relatos de moradores indicam que, a cada ano, cresce o número de espectadores que seguem os cortejos, aprendendo na prática sobre inclusão e respeito às diferenças. Para os familiares, ver o parente usuário desfilar ao lado de músicos consagrados, como os ritmistas da Portela ou da Mocidade, transforma a percepção de incapacidade historicamente associada ao sofrimento psíquico.

Próximos encontros no calendário carnavalesco

A agenda dos blocos segue ordenada: Zona Mental abre a série no dia 6 de fevereiro, Tá Pirando, Pirado, Pirou! toma a Avenida Pasteur em 8 de fevereiro, Império Colonial atravessa Jacarepaguá em 10 de fevereiro e Loucura Suburbana encerra o circuito no Engenho de Dentro em 12 de fevereiro. Cada cortejo reafirma o compromisso coletivo com a construção de uma sociedade sem manicômios e com espaço garantido para a diversidade humana.

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