Ataques a unidades de saúde: Israel e EUA já danificaram quase 400 centros médicos no Líbano e Irã
Ataques a unidades de saúde vêm se multiplicando no Líbano e no Irã desde o início da nova fase do conflito no Oriente Médio, atribuindo-se a responsabilidade a Israel e aos Estados Unidos. De acordo com os ministérios da Saúde dos dois países atingidos, 383 centros médicos, ambulâncias ou equipamentos hospitalares foram bombardeados, resultando em pelo menos 65 profissionais mortos e quase 140 feridos, além do fechamento forçado de hospitais e clínicas básicas.
- Escalada dos ataques a unidades de saúde no Líbano
- Impacto humano: profissionais mortos, feridos e hospitais fechados
- Alegações de uso militar e resposta internacional aos ataques a unidades de saúde
- Panorama dos ataques a unidades de saúde no Irã
- Sistema de saúde sob pressão e estratégias de guerra
- Ataques anteriores em Gaza ilustram o risco regional
- Próximos passos e monitoramento internacional
Escalada dos ataques a unidades de saúde no Líbano
O governo libanês contabiliza 70 instalações do setor atingidas entre 2 de março e 24 de abril. Há apenas duas semanas, o número oficial era 18, sinalizando uma elevação abrupta da intensidade do bombardeio. Os alvos incluem hospitais de referência regional, clínicas de atenção primária e postos avançados de atendimento a vítimas de guerra, espalhados por diversas províncias do país.
Segundo o Ministério da Saúde do Líbano, a expansão dos ataques coincide com o recrudescimento dos combates entre as Forças de Defesa de Israel (FDI) e o Hezbollah, organização armada libanesa. O contraste entre o crescimento rápido dos bombardeios e a capacidade limitada de reposição de equipamentos transformou a crise sanitária local em um elemento central da crise humanitária.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou as estatísticas apresentadas por Beirute e descreveu “danos graves e repetidos” à infraestrutura hospitalar. O órgão médico multilateral atua no país desde os conflitos de 2006 e informa que, agora, a rede já exibe sinais de colapso operacional, dado o volume de feridos — mais de 2,9 mil — que buscam tratamento simultâneo.
Impacto humano: profissionais mortos, feridos e hospitais fechados
Os dados oficiais indicam 42 profissionais de saúde mortos e 119 feridos no território libanês, entre médicos, enfermeiros e paramédicos. Entre as vítimas mais recentes estão dois socorristas que integravam um comboio de motocicletas na cidade de Nabatieh. A morte desses agentes de resgate ilustra a vulnerabilidade de quem atua na linha de frente, mesmo longe das trincheiras convencionais.
Além das perdas humanas, cinco hospitais encerraram totalmente as atividades após danos estruturais irreversíveis. Outros nove funcionam parcialmente, com setores interditados por risco de desabamento. Na atenção básica, pelo menos 54 postos ficaram inutilizados, comprometendo programas de vacinação, pré-natal e doenças crônicas. A Federação de Hospitais Libaneses — entidade que representa direções hospitalares — alerta que, sem reposição de geradores, insumos cirúrgicos e leitos, a oferta de cuidados críticos pode ser reduzida a menos da metade nas próximas semanas.
Alegações de uso militar e resposta internacional aos ataques a unidades de saúde
Em nota veiculada pelo jornal The Times of Israel, o porta-voz das FDI, Avichay Adraee, sustenta que ambulâncias e edifícios hospitalares estariam sendo empregados pelo Hezbollah para fins de combate, o que transformaria essas estruturas em alvos legítimos sob o direito de guerra. A Anistia Internacional contesta a justificativa. A organização de direitos humanos afirma que Israel não apresentou evidências concretas e recorda precedentes de 2024 em que alegações semelhantes resultaram em assassinato de profissionais de saúde sem comprovação posterior.
Segundo Kristine Beckerle, diretora regional adjunta da Anistia para Oriente Médio e Norte da África, a acusação isolada não autoriza a transformação de hospitais em “campos de batalha”. A entidade frisa que o direito humanitário internacional garante proteção especial a serviços médicos, inclusive quando surgem suspeitas de uso irregular, até que investigação independente comprove a violação.
No plano diplomático, organismos como a OMS e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha reforçam a posição de que as partes beligerantes devem preservar funcionários de saúde. Entretanto, até o momento, não há indicação de cessar-fogo direcionado à proteção de hospitais no sul do Líbano, região onde se concentra a maioria dos ataques.
Panorama dos ataques a unidades de saúde no Irã
O Ministério da Saúde iraniano relata danos a 313 instituições, distribuídas entre hospitais, ambulâncias e postos de emergência, com 23 profissionais mortos. Os números aproximam-se do levantamento da Crescente Vermelha Iraniana, que aponta 281 estruturas afetadas, incluindo farmácias e sucursais da própria organização. O presidente da entidade humanitária, Pir-Hossein Kolivand, especifica que 17 bases de resposta a desastres foram atingidas diretamente, além de 94 veículos de socorro destruídos por mísseis.
A OMS reconheceu, até 18 de março, 20 ataques confirmados em território iraniano. A disparidade entre o dado internacional e o total produzido por Teerã decorre, segundo o governo, da dificuldade de acesso de observadores externos às zonas atingidas logo após os bombardeios, o que retardaria a verificação independente.
Autoridades norte-americanas negam ter como alvo instalações civis. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que “efeitos colaterais são possíveis” durante operações militares, sem mencionar medidas de reparação. Para as autoridades de Teerã, a repetição dos danos indica não mera consequência incidental, mas estratégia deliberada de pressão sobre a população.
Sistema de saúde sob pressão e estratégias de guerra
Especialistas consultados pelos meios locais, entre eles o jornalista de geopolítica Anwar Assi, consideram que o padrão observado — grande número de unidades atingidas em curto intervalo — aponta para um método de guerra destinado a enfraquecer a retaguarda civil. Na avaliação apresentada, o dano proposital à infraestrutura médica visaria minar a moral popular e forçar reações internas contra grupos como Hezbollah ou contra o governo iraniano.
Assi acrescenta que, além de alvos diretos, prédios adjacentes a grandes hospitais vêm sendo bombardeados, causando estilhaços, quebra de vidros e necessidade de evacuar pacientes críticos. O resultado prático é a interrupção de cirurgias, sessões de diálise, partos e terapias intensivas, mesmo quando o edifício principal não desaba integralmente.
Relatórios da OMS observados no Líbano descrevem um efeito em cascata: cada hospital fechado sobrecarrega unidades vizinhas, que passam a operar acima de 150 % da capacidade. Nas emergências que permanecem abertas, faltam leitos, analgésicos, antibióticos e combustível para geradores. O estoque da reserva estratégica, mantido por agências da ONU no norte do país, já foi distribuído quase integralmente, sem perspectiva de reabastecimento rápido.
Ataques anteriores em Gaza ilustram o risco regional
Embora o foco atual esteja em Líbano e Irã, o histórico recente da Faixa de Gaza ilustra como a destruição sistemática de hospitais pode escalar. Dados da OMS registraram 931 ataques a centros médicos em Gaza desde 7 de outubro de 2023, além de 940 incidentes contra a rede de saúde na Cisjordânia. Quase mil profissionais foram mortos e mais de dois mil ficaram feridos nesse período. O governo de Israel sustentou, em todas essas ocasiões, que o Hamas utilizava as instalações como escudo, argumento rejeitado pelo grupo palestino.
Analistas humanitários observam paralelos entre a retórica aplicada em Gaza, no sul do Líbano e agora no Irã: a acusação de militarização de hospitais, seguida de bombardeios a estruturas civis. A repetição desse ciclo preocupa agências internacionais, pois sugere a normalização de violações a convenções de Genebra que garantem proteção especial a serviços de saúde em zonas de conflito.
Próximos passos e monitoramento internacional
Enquanto não há cessar-fogo formalizado, o Ministério da Saúde libanês alerta que a contagem de ataques a unidades de saúde pode seguir crescendo nas próximas semanas. A OMS planeja atualizar seu balanço no Líbano e no Irã ao longo de maio, à medida que equipes de verificação consigam acesso físico às áreas bombardeadas. Já a Crescente Vermelha Iraniana pretende divulgar novo relatório operacional sobre perdas de ambulâncias e bases de primeiros socorros até o início de junho.

Conteúdo Relacionado