Ataque dos EUA à Venezuela acende alerta sobre a ordem multilateral na América do Sul

O ataque dos EUA à Venezuela ocorrido na madrugada de sábado, 3 de janeiro de 2026, resultou na retirada forçada do presidente venezuelano Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, na morte de integrantes de sua segurança e em explosões na capital Caracas. O episódio, sem aval de organismos internacionais ou do Congresso norte-americano, levou Maduro a Nova York, onde ele passará a responder a acusações de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. Segundo especialistas em relações internacionais ouvidos por veículos públicos brasileiros, a operação militar expõe riscos à ordem multilateral construída desde 1945 e coloca em dúvida a segurança de outros países latino-americanos.
- Contexto do ataque dos EUA à Venezuela e remoção de Nicolás Maduro
- Justificativas apresentadas para o ataque dos EUA à Venezuela
- Reações de especialistas ao ataque dos EUA à Venezuela
- Potenciais impactos regionais do ataque dos EUA à Venezuela
- Consequências para o sistema multilateral após o ataque dos EUA à Venezuela
- Projeções e próximos desdobramentos após o ataque dos EUA à Venezuela
Contexto do ataque dos EUA à Venezuela e remoção de Nicolás Maduro
O fato central da madrugada de 3 de janeiro foi a incursão de militares norte-americanos em território venezuelano. De acordo com o governo dos Estados Unidos, a ação destinou-se a prender Maduro sob suspeita de ligações com cartéis narcoterroristas que abasteceriam o mercado interno norte-americano. Durante a operação, forças de segurança leais ao presidente venezuelano foram mortas, e detonações ocorreram em diferentes pontos de Caracas. Após a captura, o mandatário foi transportado em aeronave militar diretamente para Nova York, onde permanece detido.
Não houve anúncio prévio de autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas, tampouco aprovação legislativa em Washington. A falta desses endossos tornou a intervenção um ponto de inflexão no debate sobre soberania estatal, uso da força e respeito às normas do direito internacional.
Justificativas apresentadas para o ataque dos EUA à Venezuela
O Executivo norte-americano sustentou que Nicolás Maduro integra uma rede de narcotráfico transnacional responsável por enviar drogas aos Estados Unidos. Sob esse argumento, a Casa Branca classificou a operação como medida de segurança interna, ainda que executada fora das fronteiras do país. Analistas recordam que, nas últimas décadas, Washington recorreu a justificativas semelhantes em outras intervenções, alegando autoproteção contra ameaças externas.
No entanto, especialistas em direito internacional ressaltaram que inexistem mecanismos que confiram a qualquer nação o papel de “polícia global” sem mandato multilateral específico. Com efeito, a Carta da ONU proíbe o uso unilateral da força, exceto em legítima defesa imediata ou com autorização expressa do Conselho de Segurança. Como não foi apresentada evidência de ataque armado contra os EUA nem houve deliberação na ONU, a legalidade da operação permanece contestada.
Reações de especialistas ao ataque dos EUA à Venezuela
Bruno Lima Rocha, cientista político da Faculdade São Francisco de Assis, descreveu a incursão como violação frontal à soberania de um Estado. Segundo ele, mesmo que as denúncias de narcotráfico fossem procedentes, caberia ao sistema internacional deliberar sobre qualquer medida coercitiva. Rocha classificou a remoção de Maduro como sequestro e alertou para o interesse norte-americano nas reservas de petróleo venezuelanas, atualmente as maiores do planeta.
Gustavo Menon, professor da Universidade de São Paulo e da Universidade Católica de Brasília, avaliou que a ação norte-americana rompe a tradição de paz na América do Sul. Para o pesquisador, o episódio infringe princípios do direito internacional e também a legislação doméstica dos Estados Unidos, uma vez que não houve consulta nem aprovação do Congresso para o emprego das forças armadas no exterior.
Potenciais impactos regionais do ataque dos EUA à Venezuela
Os analistas concordam que o precedente criado amplia a sensação de vulnerabilidade entre países latino-americanos ricos em recursos estratégicos. No caso brasileiro, Rocha considera que o risco de pressões externas poderia crescer caso o Estado decidisse monopolizar a exploração de minerais críticos ou adotar moedas alternativas ao dólar em transações de commodities. Em contrapartida, a legislação nacional atualmente permite a participação de empresas estrangeiras sob regulamentação de agências federais, o que, na visão do pesquisador, reduz o grau de atrito potencial com Washington.
Menon sublinha que o Itamaraty encontra-se em posição delicada. Mantendo a tradição diplomática de não intervenção e defesa dos direitos humanos, o Brasil vem reconhecendo a vice-presidente venezuelana Delcy Rodrigues como presidenta interina. Esse posicionamento procura preservar os canais de diálogo e evitar alinhamento automático com a ação militar norte-americana.
Consequências para o sistema multilateral após o ataque dos EUA à Venezuela
Observadores veem no episódio um golpe contra a arquitetura multilateral erguida no pós-Segunda Guerra. Para Rocha, o governo Trump “colocou na lata do lixo” instituições como a ONU ao atuar sem qualquer forma de delegação coletiva. Menon usa o termo “colapso” para descrever o estágio atual do multilateralismo, argumentando que a ação demonstra a prevalência da lei do mais forte sobre normas pactuadas.
A legítima autoridade do Conselho de Segurança, já contestada em outros conflitos recentes, sofre novo desgaste. A intervenção sem mandato reforça a impressão de que potências com poder de veto podem ignorar o fórum quando seus objetivos divergem da maioria dos Estados-membros. O resultado prático pode ser a erosão da confiança em regras comuns, estimulando outros países a buscar soluções unilaterais.
Projeções e próximos desdobramentos após o ataque dos EUA à Venezuela
Menon recomenda atenção contínua aos passos seguintes de Washington. Na coletiva concedida logo após a operação, o presidente Donald Trump indicou que os Estados Unidos pretendem exercer tutela sobre os ativos petrolíferos venezuelanos durante o período de transição. Embora detalhes não tenham sido divulgados, a medida sinaliza interesse direto na gestão das maiores reservas de petróleo conhecidas.
Para vários analistas, a mensagem endereçada a Pequim e Moscou é clara: a América Latina permanece dentro da esfera de influência histórica dos EUA. A disputa por recursos naturais, intensificada pelas transições energética e digital, coloca a região no centro de uma corrida geopolítica e geoeconômica. Além do petróleo, minerais estratégicos e terras raras atraem capital e atenção militar, elevando a probabilidade de tensões futuras.
Os especialistas lembram ainda que formas de intervenção podem transcender a força armada. Financiamento de atores políticos, campanhas de desinformação e pressões econômicas são instrumentos mencionados por Rocha como alternativas para influenciar processos eleitorais, a exemplo do que teria ocorrido em Honduras e na Argentina.
A comunidade internacional acompanha agora a reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, marcada para a manhã desta segunda-feira, na qual delegações buscarão avaliar a legalidade da operação e discutir eventuais medidas diplomáticas.

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