Alimentos ultraprocessados prejudicam fertilidade e desenvolvimento embrionário, revela pesquisa europeia
Alimentos ultraprocessados foram novamente associados a danos reprodutivos: pesquisa da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, publicada na revista Human Reproduction, identificou que o consumo frequente desses produtos não só eleva o risco de subfertilidade masculina como também interfere no desenvolvimento inicial do embrião.
- O que são alimentos ultraprocessados e por que preocupam especialistas
- Metodologia do estudo sobre ultraprocessados e fertilidade
- Efeitos dos alimentos ultraprocessados sobre o desenvolvimento embrionário
- Impacto dos ultraprocessados na fertilidade masculina
- Limitações da pesquisa e próximos passos
- Relevância para casais que planejam engravidar
O que são alimentos ultraprocessados e por que preocupam especialistas
O Guia Alimentar para a População Brasileira define alimentos ultraprocessados como formulações industriais elaboradas a partir de componentes extraídos de alimentos (óleos, açúcares, amidos modificados) ou sintetizados em laboratório, como corantes, aromatizantes e realçadores de sabor. Bolachas recheadas, salgadinhos de pacote e refrigerantes figuram entre os exemplos mais comuns. Ao contrário de preparações culinárias simples, esses produtos costumam apresentar alto teor de gordura, açúcar, sódio e aditivos, fatores frequentemente ligados a ganho de peso, maior risco de doenças crônicas não transmissíveis e determinados tipos de câncer.
A nova investigação amplia a lista de possíveis repercussões negativas. Até então, a literatura já sugeria que dietas ricas em ultraprocessados poderiam afetar a qualidade do esperma – evidência relatada por outro estudo em 2025. Agora, os achados sinalizam que os impactos vão além da fertilidade masculina, alcançando também o crescimento embrionário.
Metodologia do estudo sobre ultraprocessados e fertilidade
Para chegar às conclusões, os pesquisadores analisaram dados de 831 mulheres grávidas e 651 parceiros masculinos, integrantes de um estudo populacional que acompanha famílias desde a fase pré-concepção até a infância das crianças. Logo no primeiro trimestre de gestação, em torno da 12ª semana, o grupo aplicou um questionário alimentar detalhado, conceituado para estimar a proporção de ultraprocessados na dieta cotidiana.
O resultado mostrou que, em média, 22 % da ingestão calórica feminina e 25 % da masculina provinham de ultraprocessados. Informações complementares sobre tempo até a gravidez, fecundabilidade e ocorrência de subfertilidade foram colhidas por meio de outro instrumento padronizado.
Além das respostas dos pais, o desenvolvimento fetal foi monitorado com ultrassonografias transvaginais regulares. Dois parâmetros serviram como base de avaliação: o comprimento craniocaudal do embrião, métrica clássica de crescimento, e o volume do saco vitelino, estrutura que nutre o embrião nas primeiras semanas.
Efeitos dos alimentos ultraprocessados sobre o desenvolvimento embrionário
Dentre as participantes, aquelas que relataram maior proporção de alimentos ultraprocessados apresentaram redução discreta no crescimento embrionário até a sétima semana de gestação. O saco vitelino também se mostrou menor neste grupo. Embora as diferenças numéricas pareçam modestas, os autores destacam que pequenas variações nas fases iniciais podem adquirir relevância em nível populacional.
Os achados sinalizam que a qualidade da dieta materna exerce influência direta sobre o embrião logo após a concepção. A constatação reforça a importância de hábitos alimentares saudáveis antes mesmo da gravidez, considerando que processos celulares fundamentais de formação de órgãos ocorrem nas primeiras semanas, muitas vezes antes de a gestante descobrir a gestação.
Impacto dos ultraprocessados na fertilidade masculina
No grupo masculino, o estudo identificou que a ingestão elevada de alimentos ultraprocessados se associou a maior risco de subfertilidade e a um tempo mais longo até a concretização da gestação. A observação se soma às evidências de 2025, que já apontavam prejuízo na produção e na qualidade do esperma em dietas dominadas por esse tipo de produto.
Embora o trabalho atual não tenha medido parâmetros seminais diretamente, a relação entre alimentação pobre em nutrientes e função testicular deficiente tem sido proposta em pesquisas anteriores. O prolongamento do intervalo até a gravidez detectado agora sugere que a alimentação do parceiro masculino também deve ser considerada em estratégias de promoção da saúde reprodutiva do casal.
Limitações da pesquisa e próximos passos
Os autores esclarecem que o desenho observacional só permite apontar associações, sem estabelecer causalidade definitiva entre consumo de ultraprocessados e desfechos reprodutivos. Eventuais fatores de confusão, como outras escolhas de estilo de vida, podem influenciar os resultados, ainda que as análises estatísticas tentem controlá-los.
Para consolidar as evidências, o grupo planeja replicar a investigação em populações de diferentes perfis sociodemográficos e explorar mecanismos biológicos capazes de explicar a ligação observada. Um ponto de interesse é verificar se as alterações embrionárias iniciais persistem após o nascimento e afetam crescimento e saúde infantil a longo prazo.
Em paralelo, especialistas em saúde pública ressaltam que políticas de alimentação escolar, como a recente iniciativa governamental de reduzir ultraprocessados na merenda, podem contribuir para prevenir consequências adversas desde a infância até a idade adulta e fase reprodutiva.
Relevância para casais que planejam engravidar
Com base nos dados coletados, a equipe conclui que dietas com menor participação de alimentos ultraprocessados beneficiariam tanto homens quanto mulheres, potencializando as chances de concepção e promovendo melhores condições para o bebê em formação. A recomendação encontra respaldo em diretrizes nutricionais nacionais, que estimulam a preferência por alimentos in natura ou minimamente processados.
Apesar da necessidade de novos estudos, a investigação já destaca a importância de um olhar ampliado sobre fertilidade, que inclua não apenas intervenções médicas, mas também ajustes comportamentais na fase pré-concepcional. Até que mais evidências sejam publicadas, a orientação prática permanece: reduzir ao máximo o consumo de bolachas recheadas, salgadinhos, refrigerantes e produtos similares pode ser um passo estratégico para quem visa aumentar as chances de uma gestação saudável.
Próximo passo anunciado pelos pesquisadores: avaliar se as diferenças no tamanho embrionário e no saco vitelino identificadas ao longo da gestação repercutem no peso ao nascer, no crescimento e no desenvolvimento das crianças durante a infância.

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