A Baleia: peça debate obesidade e preconceito com atuação desafiadora de Emílio de Mello

A Baleia: peça debate obesidade e preconceito com atuação desafiadora de Emílio de Mello
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A Baleia, montagem inédita no Brasil para o texto do dramaturgo norte-americano Samuel D. Hunter, está em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, no centro de São Paulo, trazendo para o palco uma reflexão direta sobre obesidade, preconceito e relações familiares a partir da atuação de Emílio de Mello.

Índice

A Baleia e o percurso do texto de Samuel D. Hunter até o palco paulistano

O drama criado por Samuel D. Hunter ganhou projeção internacional depois de ser adaptado para o cinema em 2022. A versão brasileira que agora ocupa a capital paulista marca a primeira encenação do texto no país, depois de itinerar pelo Rio de Janeiro e outras cidades. O enredo acompanha Charlie, um professor de inglês que se deixou consumir pela compulsão alimentar após uma série de traumas, entre eles a morte de um companheiro e o afastamento da filha adolescente. Gay, obeso mórbido e confinado ao sofá de casa, ele decide, nos momentos finais de vida, tentar reconstruir vínculos afetivos, lidando ainda com a culpa imposta por experiências religiosas do passado.

A chegada da peça à cena paulistana mantém a estrutura dramática concebida por Hunter, mas acrescenta o olhar do diretor Luís Artur Nunes, conhecido por pesquisas em interpretação e dramaturgia contemporânea. O resultado é uma montagem que, além de apresentar uma narrativa potente, estabelece diálogo com debates atuais sobre representatividade e estigma corporal.

Desafio físico e técnico de Emílio de Mello para viver Charlie em A Baleia

A distância de aproximadamente 200 quilos entre o intérprete e o personagem impôs a Emílio de Mello uma preparação minuciosa. Para conferir verossimilhança ao corpo de Charlie, o ator veste um traje confeccionado em espuma. O figurino, leve o bastante para não comprometer a mobilidade, depende completamente da técnica do intérprete para sugerir peso e dificuldade motora. Nesse processo, Mello contou com acompanhamento de um professor de biomecânica, aprendendo a distribuir o centro de gravidade, a respirar com esforço aparente e a transformar gestos simples – como sentar e levantar – em ações exaustivas.

Diante da plateia, o resultado é um corpo que respira com dificuldade, desloca-se com lentidão e luta constantemente contra a própria massa. Essa construção física sustenta a credibilidade do drama, pois reflete com clareza os riscos clínicos enfrentados pelo personagem: complicações cardíacas, insuficiência respiratória e dores articulares, elementos mencionados na trama como ameaças imediatas à vida de Charlie.

Representação da obesidade: polêmica retomada pela montagem de A Baleia

Quando A Baleia chegou às telas de cinema, as próteses usadas por Brandon Fraser reacenderam o debate sobre o uso de “fat suit” – recurso cenotécnico aplicado para simular corpos gordos em atores magros. Críticos questionaram se a escolha não perpetuaria estereótipos ou excluiria performers efetivamente obesos de papéis que lhes dizem respeito. A discussão reaparece no palco brasileiro, agora com Mello em cena.

O ator, escolhido por indicação de José de Abreu – que interpretou Charlie nas temporadas anteriores –, defende que a essência da profissão reside em experimentar realidades distintas da própria. Ele recorda outros papéis em que a composição exigiu distanciamento de suas características pessoais, algo que entende ser legítimo dentro dos limites éticos do ofício. A produção, por sua vez, reforça que o propósito artístico é tornar visível a dor do personagem sem recorrer a estereótipos simplistas.

Ao lado desse debate, a montagem evidencia como o preconceito contra corpos gordos ultrapassa a estética, envolvendo acesso a saúde, oportunidades de trabalho e convivência social. Ao mostrar Charlie fragilizado por comentários ofensivos e pelo olhar de pena alheio, a peça expõe formas sutis e agressivas de gordofobia, incentivando o público a reconhecer o problema.

Percurso da montagem até São Paulo e a colaboração de José de Abreu em A Baleia

A produção brasileira de A Baleia iniciou a trajetória no Rio de Janeiro, capital que concentrou os primeiros ensaios abertos e as apresentações de estreia. Nesse momento, José de Abreu – ator com mais de cinco décadas de carreira em televisão e teatro – assumiu o papel de Charlie. O trabalho foi recebido com elogios pela entrega física e emocional do intérprete.

Com o agendamento de temporada na capital paulista, Abreu optou por deixar o elenco, indicando Emílio de Mello para a função. A amizade entre os dois, cultivada ao longo de 25 anos, facilitou a transição. Para Mello, assumir o drama significou encarar “algo muito diferente” do que já havia feito, expressão usada por ele para sintetizar o impacto do convite.

A alternância de protagonistas confirma uma característica frequente no teatro: a rotatividade de intérpretes como forma de manter o cronograma de turnês e a continuidade do projeto. Além disso, evidencia a confiança mútua entre artistas que compartilham trajetória, repertório e métodos de trabalho.

Temas centrais de A Baleia: família, fé e identidade sob olhar contemporâneo

No espaço claustrofóbico do apartamento de Charlie, a narrativa percorre questões universais. A reconciliação com a filha funciona como eixo emocional, expondo ressentimentos acumulados pela ausência do pai. O texto contrasta a fragilidade de Charlie com a agressividade verbal da jovem, criando um duelo que revela carência dos dois lados. A família, portanto, é abordada como lugar de dor, mas também de possibilidade de cura.

A fé emerge como outro pilar dramático. O personagem vive conflito interno entre a educação religiosa que recebeu e o amor homoafetivo que escolheu viver, responsabilizado por ele pela espiral de autodestruição que enfrentou. A discussão se amplia ao considerar práticas de grupos religiosos que condicionam acolhimento à negação da identidade sexual, contribuindo para sentimentos de culpa e isolamento.

Ao longo de duas horas de espetáculo, a encenação intercala momentos de humor, recurso herdado da dramaturgia original. Personagens secundárias interpretadas por Luisa Thiré e Alice Borges introduzem diálogos irônicos e situações que quebram o peso das cenas mais tensas. Assim, o espectador encontra respiro antes de retornar à densidade da história, estratégia que amplia o impacto sobre temas como compulsão alimentar e luto.

Serviço: onde, quando e como assistir à temporada paulista de A Baleia

Local: Teatro Sabesp Frei Caneca – Rua Frei Caneca, 569, Consolação, região central de São Paulo.

Período: até 1º de março.

Horários: sextas e sábados, às 20 h; domingos, às 19 h.

Ingressos: a partir de R$ 50, à venda pela plataforma Uhuu.

Classificação indicativa: 14 anos.

Até o encerramento da temporada anunciada, o público pode acompanhar a atuação de Emílio de Mello e refletir sobre as questões levantadas pelo texto, cuja relevância permanece atual em temas que atravessam saúde, afeto e diversidade.

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