Desigualdade no acesso à água expõe mulheres e meninas a riscos e ameaça meta da ONU para 2030

O avanço brasileiro rumo ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 da Organização das Nações Unidas, que pretende assegurar água e saneamento para todos até 2030, convive com a desigualdade no acesso à água. Dados atualizados da Agência Nacional de Água e Saneamento Básico (ANA) indicam que, embora 98,1 % da população tenha obtido água potável segura em 2023, regiões rurais, Norte e Nordeste, bem como populações não brancas, ainda enfrentam déficits severos, situação que recai de forma desproporcional sobre mulheres e meninas.

Índice

Panorama nacional da desigualdade no acesso à água

A fotografia de 2023 revela um quadro de contrastes. O índice de 98,1 % de cobertura, quando lido isoladamente, sugere universalização praticamente concluída. Porém, a mesma estatística mostra outra face ao ser recortada geograficamente. Nas áreas rurais, a cobertura cai para 88 %, enquanto o Norte registra 79,4 % e o Nordeste, 81,9 %. A leitura racial também aponta discrepâncias, com níveis mais baixos entre a população não branca, sinalizando que o desafio não é apenas técnico, mas social e histórico.

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Mulheres e meninas no epicentro da desigualdade no acesso à água

Segundo a ANA, a ausência de abastecimento regular impõe a mulheres e meninas a tarefa de buscar água fora de casa, atividade cansativa e muitas vezes perigosa. Esse trabalho aumenta a carga de responsabilidades não remuneradas, restringindo oportunidades de estudo e participação no mercado de trabalho remunerado. Na prática, o acesso desigual transforma o cotidiano feminino em um circuito de coleta, transporte e gestão doméstica da água que dificulta a realização plena de direitos básicos.

Efeitos da desigualdade no acesso à água sobre saúde e dignidade

A mesma desigualdade no acesso à água se reflete na segurança sanitária. A ANA aponta que apenas 59,9 % da população estava ligada a sistemas de esgotamento sanitário seguros em 2023. No Norte, o índice despenca para 39,6 %. Como consequência, o esgoto não tratado — 42,4 % do volume total produzido — contamina mananciais, prejudica a segurança hídrica e amplia riscos de doenças. Mulheres e meninas, já sobrecarregadas pela coleta, tornam-se também as mais expostas a ambientes insalubres, potencializando problemas ginecológicos, infecções e outras doenças de veiculação hídrica.

Interseções entre desigualdade no acesso à água e educação

O Instituto Trata Brasil, organização reconhecida pelo monitoramento das políticas de saneamento, observa impacto direto na trajetória escolar. Comparando dois grupos, a entidade constatou média de 9,5 anos de estudo entre crianças com acesso a saneamento e 7,5 anos entre aquelas sem esse serviço. A diferença de dois anos equivale a todo o ensino fundamental II, encurtando perspectivas acadêmicas e profissionais. O perfil dos excluídos coincide com o recorte da desigualdade no acesso à água: pessoas pretas, pardas, indígenas, jovens de até 20 anos e famílias com menor renda.

Papel das instituições no combate à desigualdade no acesso à água

Duas instâncias se destacam na governança do tema. De um lado, a ONU define a meta global do ODS 6. De outro, a ANA, autarquia federal encarregada de regular recursos hídricos e saneamento, monitora indicadores nacionais e promove políticas de universalização. A professora Vera Lessa Catalão, da Universidade de Brasília (UnB), acrescenta uma dimensão socioeducativa ao enfatizar que as mulheres, especialmente nas comunidades ribeirinhas e periferias urbanas, já exercem uma gestão cotidiana da água. Esse protagonismo feminino reforça a necessidade de políticas que dialoguem com práticas locais e valorizem o conhecimento acumulado por quem vive o problema diariamente.

Impactos econômicos da desigualdade no acesso à água

A limitação escolar produz reflexos na renda futura. Ao reduzir anos de estudo, a falta de saneamento atinge capacidade de qualificação profissional e, por consequência, potencial de ganhos financeiros. Segundo o Instituto Trata Brasil, essa realidade aprofunda ciclos de pobreza, pois populações com menor escolaridade permanecem em ocupações menos remuneradas. Em paralelo, gastos públicos em saúde aumentam devido à maior incidência de doenças evitáveis pelo simples fornecimento de água tratada e coleta de esgoto.

Desigualdade no acesso à água, clima e justiça social

A ANA frisa que água, saneamento, mudanças climáticas e justiça social são agendas indissociáveis. Eventos extremos intensificados pelo aquecimento global — secas prolongadas, enchentes e contaminação de mananciais — agravam a vulnerabilidade de quem já carece de infraestrutura. Garantir abastecimento seguro passa, portanto, por estratégias de adaptação climática, proteção de nascentes e gestão integrada de recursos hídricos. A convergência dessas políticas tende a diminuir disparidades regionais e de gênero, respondendo de forma abrangente ao desafio nacional.

ODS 6: metas, avanços e lacunas

Até 2030, o Brasil deve assegurar água potável e saneamento para todos, conforme pactuado com a ONU. Entre 2015 e 2023, a porcentagem de pessoas atendidas com água segura evoluiu, mas a universalização só será confirmada se alcançar as populações rurais, indígenas, quilombolas e urbanas periféricas. Na esfera do esgoto, a distância é maior: o país ainda precisa expandir redes, estações de tratamento e manutenção dos sistemas já implantados. O cumprimento do ODS 6 depende, portanto, de investimentos contínuos, planejamento regionalizado e ações específicas para reduzir a desigualdade no acesso à água.

Perspectivas para reduzir a desigualdade no acesso à água até 2030

Os dados de 2023 estabelecem um ponto de partida para a reta final da agenda 2030. A expansão de serviços deve priorizar territórios com menor cobertura, especialmente no Norte e Nordeste e em zonas rurais. Paralelamente, é fundamental incorporar a visão de gênero no desenho dos projetos, reconhecendo a sobrecarga feminina e potencializando sua participação em conselhos e comitês de gestão. A ANA reforça que a união entre abastecimento seguro, saneamento efetivo e adaptação climática é o caminho para que a meta global seja atingida e a desigualdade no acesso à água deixe de comprometer saúde, dignidade e oportunidades das brasileiras.

O próximo marco a ser acompanhado é a atualização anual dos indicadores pela Agência Nacional de Água e Saneamento Básico, que deverá mostrar, a cada ano, se o país está efetivamente encurtando as distâncias que ainda separam diferentes regiões, raças e gêneros do direito essencial à água.

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