Euforia com emergentes acende alerta para risco eleitoral no Brasil, diz gestor da Itaú Asset
Um fluxo estrangeiro sem precedentes para a América Latina nos primeiros meses de 2026 sustenta uma onda de otimismo nos mercados locais, mas, segundo o gestor Bruno Bak, da mesa Artax da Itaú Asset, essa euforia com emergentes oculta um risco eleitoral no Brasil que pode surpreender investidores desprevenidos.
- Euforia com emergentes e risco eleitoral no Brasil: o ponto de partida
- Do “Liberation Day” à reconfiguração global de carteiras: como o cenário se formou
- Complacência fiscal amplia o risco eleitoral no Brasil e nos vizinhos
- Valuations esticados reforçam o alerta sobre risco eleitoral no Brasil
- Exemplos regionais ilustram como políticas domésticas afetam o risco eleitoral no Brasil
- Janela de 2026: riscos, oportunidades e o fator eleitoral no Brasil
Euforia com emergentes e risco eleitoral no Brasil: o ponto de partida
Desde janeiro, o ingresso de capitais internacionais na região registra o maior volume desde 1991. O ambiente externo mais benigno, caracterizado por dólar fraco e valorização de moedas locais, criou condições para ganhos expressivos em ações, títulos e commodities latino-americanos. Entretanto, Bak adverte que, enquanto as cotações sobem, governos que deveriam aproveitar a janela para ajustes estruturais continuam adiando reformas. No seu diagnóstico, essa combinação de complacência interna e abundância de liquidez gera o terreno ideal para a materialização do risco eleitoral no Brasil, país que terá pleitos nacionais em 2026.
Do “Liberation Day” à reconfiguração global de carteiras: como o cenário se formou
O gestor divide a trajetória recente do dólar em três etapas. Antes do episódio batizado de “Liberation Day”, a moeda norte-americana mostrava força consistente, protegendo portfólios em dólares mesmo quando a bolsa dos Estados Unidos recuava. A partir desse ponto de inflexão, a correlação se quebrou: o mercado acionário norte-americano cedeu e, simultaneamente, o dólar perdeu valor, impondo um choque duplo aos investidores globais.
Nesse contexto, parte relevante dos recursos que tradicionalmente financiava o déficit em conta-corrente dos EUA migrou para outras geografias. A América Latina, com diferencial de juros elevado e perspectiva de crescimento moderado, passou a atrair o capital em busca de alternativas. O resultado foi uma valorização generalizada das moedas da região e um forte impulso às principais bolsas, fenômeno que sustenta a atual euforia com emergentes.
Complacência fiscal amplia o risco eleitoral no Brasil e nos vizinhos
Embora o fluxo de investimentos sinalize confiança, Bak enxerga um descompasso entre o sentimento de mercado e as políticas domésticas. Segundo ele, poucos governos latino-americanos estão aproveitando o momento para consolidar contas públicas. No México, o banco central indica cortes de juros de 50 a 100 pontos-base mesmo com inflação no patamar de 4% a 4,5%, acima da meta oficial. Na Colômbia, onde as eleições legislativas ocorrerão em março e a presidencial em junho, a situação fiscal é descrita pelo gestor como “horrível”.
O caso brasileiro, entretanto, é tratado como o mais sensível. A combinação de déficits estruturais, dívida elevada e calendário eleitoral intenso forma um tripé que, na visão de Bak, potencializa o risco eleitoral no Brasil. Se o fluxo de capitais reverter ou se os investidores passarem a exigir prêmio maior para financiar essas incertezas, a volatilidade sobre o real e sobre a curva de juros doméstica tende a se intensificar.
Valuations esticados reforçam o alerta sobre risco eleitoral no Brasil
O impulso estrangeiro concentrou-se nas ações de maior liquidez da bolsa brasileira – bancos, empresas de commodities e grandes exportadoras. De acordo com o gestor, vários desses papéis já operam a três desvios-padrão acima da média histórica de preço sobre lucro. Ao mesmo tempo, pequenas e médias companhias, mais ligadas à demanda interna, dependem essencialmente do investidor local e apresentam desempenho inferior.
Bak chama atenção para o perfil do capital que desembarca em São Paulo: fundos de hedge e ETFs temáticos, normalmente com horizonte curto e alta rotatividade. Ele compara esse dinheiro a “turistas”, capazes de deixar o mercado com a mesma rapidez com que chegaram. Caso o ambiente global mude ou o risco eleitoral no Brasil ganhe protagonismo, a saída coordenada desses recursos pode acentuar quedas de preços e pressionar a taxa de câmbio.
Exemplos regionais ilustram como políticas domésticas afetam o risco eleitoral no Brasil
Ao analisar países vizinhos, Bak destaca o contraste entre Colômbia e Chile. No primeiro, a ausência de medidas de consolidação fiscal mantém o peso praticamente estável no ano, desempenho que ele classifica como “horroroso”. Já o Chile, recém-saído de eleições nas quais a responsabilidade fiscal foi bandeira central, colhe resultados imediatos: moeda apreciada, bolsa em alta e projeções de crescimento acima de 2,5% para o próximo ano, mesmo partindo de déficit nominal de 3% e dívida baixa em comparação ao Brasil.
Esses casos reforçam a premissa de que a reação das autoridades é decisiva para modular a percepção de risco. Países que sinalizam compromisso com as contas públicas tendem a atrair um capital de perfil mais estável. Aqueles que postergam reformas, especialmente em ano de eleição, ficam mais vulneráveis a choques. Nesse sentido, o gestor enxerga o Chile como evidência de que políticas bem-sucedidas podem mitigar o risco eleitoral no Brasil, caso medidas similares fossem adotadas.
Janela de 2026: riscos, oportunidades e o fator eleitoral no Brasil
No horizonte de 2026, Bak continua apostando em dólar estruturalmente mais fraco e em ambiente favorável aos emergentes. Contudo, ele insiste que a região precisa aproveitar a fase para avançar em reformas. Sem consolidação fiscal, os prêmios de risco podem se ampliar rapidamente quando surgirem incertezas políticas – e o calendário brasileiro concentra disputas majoritárias que podem redefinir prioridades orçamentárias.
O gestor resume a ideia com uma metáfora: quando a maré sobe, todos os barcos flutuam; quando a maré baixa, torna-se evidente quem estava navegando sem proteção. Na prática, enquanto o dinheiro global continuar fluindo, a sensação de segurança predomina. Se o vento virar, a fragilidade de fundamentos domésticos ficará exposta, especialmente em países com alta dívida e eleições à vista.
Para investidores, o recado central é que a valorização recente dos ativos não elimina o risco eleitoral no Brasil. A conjuntura internacional, dominada por expectativas de menor dólar e busca por retorno fora dos EUA, pode prolongar o ciclo positivo, mas não substitui ajustes estruturais. À medida que se aproximarem as convenções partidárias e as discussões sobre orçamento federal, a volatilidade tende a aumentar, sobretudo se as propostas fiscais dos candidatos forem percebidas como expansionistas.
Até lá, permanece a premissa sugerida por Bak: quem fizer o “dever de casa” enquanto a liquidez externa permanecer abundante será recompensado. Em contrapartida, quem adiar reformas pode enfrentar correções abruptas, caso o humor global mude ou o debate eleitoral traga à tona a sustentabilidade das contas públicas.

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