XF-85 Goblin: o minicaça projetado para defender bombardeiros na primeira fase da Guerra Fria

XF-85 Goblin: o minicaça projetado para defender bombardeiros na primeira fase da Guerra Fria
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XF-85 Goblin foi a resposta experimental que a Força Aérea dos Estados Unidos buscou, logo após a Segunda Guerra Mundial, para proteger bombardeiros de longo alcance em missões intercontinentais sem depender de bases avançadas nem de reabastecimento aéreo então inexistente. Compacto a ponto de caber no compartimento de bombas de aeronaves maiores, o protótipo representou uma tentativa inédita de transformar os próprios bombardeiros em “porta-aviões voadores”.

Índice

XF-85 Goblin e o dilema de escolta na Guerra Fria

Quando a Guerra Fria começou a tomar forma, o poder de dissuasão dos Estados Unidos dependia fortemente de bombardeiros capazes de atravessar continentes. Modelos como o Convair B-36 Peacemaker ofereciam autonomia suficiente para atingir objetivos estratégicos sem recorrer a pistas próximas ao alvo. Porém, essa vantagem esbarrava em um obstáculo claro: os caças a jato existentes, embora mais velozes que seus antecessores a pistão, ainda não dispunham de alcance compatível para acompanhar toda a rota.

A vulnerabilidade se tornava evidente nas fases iniciais e finais das missões, quando interceptadores inimigos podiam atacar bombardeiros desprotegidos. Sem uma patrulha de escolta contínua, a taxa de sobrevivência dos tripulantes e a eficácia da missão ficavam em risco. Foi nesse contexto operacional que surgiu a proposta de um minicaça que viajaria a bordo do próprio bombardeiro, seria liberado em área de ameaça e, concluída a defesa, retornaria ao interior da aeronave-mãe.

Dimensões ultracompactas do XF-85 Goblin

Para atender ao requisito de caber dentro do compartimento de bombas do B-36, a empresa McDonnell Aircraft criou um projeto de proporções extremamente reduzidas. O XF-85 Goblin possuía menos de 5 metros de comprimento, envergadura ao redor de 6 metros e peso carregado aproximado de 2,27 toneladas. As asas, articuladas, dobravam-se junto à fuselagem durante o transporte, e a cauda contava com cinco superfícies distintas que proporcionavam estabilidade sem comprometer o espaço interno do bombardeiro.

O impulso era gerado por um motor a jato Westinghouse J34-WE-7. Mesmo com o tamanho diminuto, o avião foi projetado para carregar quatro metralhadoras M2 Browning calibre .50, armamento considerado suficiente para afastar interceptadores da época. A velocidade de cruzeiro registrada nos ensaios alcançou 195 nós (cerca de 362 km/h), e o sistema de combustível proporcionava somente 30 minutos de autonomia em combate, indicando claramente que o Goblin era um defensor de curto alcance, destinado a missões rápidas e pontuais.

Procedimento de lançamento e recuperação do XF-85 Goblin

Todo o conceito girava em torno de um complexo sistema de trapeze instalado no bombardeiro. Em voo, a aeronave-mãe abaixava a estrutura mecânica pelo compartimento de bombas; o Goblin, preso ao gancho, era liberado após acionar seu motor. Assim que estivesse livre, o piloto estendia as asas e iniciava a escolta.

Retornar ao B-36 (ou, nos ensaios, a um Boeing EB-29B modificado) era a etapa mais delicada do processo. Como o XF-85 Goblin não tinha trem de pouso, o encaixe no gancho deixava de ser apenas desejável e se tornava obrigatório. Qualquer falha significava pouso de barriga, com a fuselagem em contato direto com o solo, manobra de emergência que exigia terreno plano e gerava danos consideráveis.

Resultados dos testes em voo do XF-85 Goblin

Dois protótipos foram encomendados em 1945. O primeiro voo cativo — quando o minicaça permaneceu preso ao bombardeiro — ocorreu em julho de 1948. No mês seguinte, veio o primeiro voo livre, revelando comportamento estável em grandes altitudes, confirmando vantagens apontadas em simuladores e análises de túnel de vento.

Os maiores desafios apareceram justamente na fase de recuperação. O fluxo de ar turbulento formado pela fuselagem do bombardeiro com o compartimento aberto fazia o minicaça oscilar inesperadamente. Essa turbulência reduzia a precisão do piloto na hora de alinhar o gancho dianteiro do Goblin ao trapeze. Diversas tentativas exigiram múltiplas aproximações, elevando o consumo de combustível e o risco da operação.

Em alguns voos, a união entre caça e bombardeiro falhou completamente. Nessas ocasiões, os pilotos realizaram pouso de emergência em pista, deslizando sobre a fuselagem. Apesar de não terem ocorrido fatalidades, os incidentes reforçaram a percepção de que o método era vulnerável a intempéries, erros humanos e variações aerodinâmicas complexas.

Fatores que levaram ao cancelamento do XF-85 Goblin

Após uma série limitada de ensaios, a Força Aérea concluiu que os benefícios não compensavam as dificuldades técnicas. O processo de encaixe demandava elevada perícia, não era confiável em condições meteorológicas adversas e ocupava tempo precioso em situações de combate.

Enquanto o programa de testes avançava, outra solução começava a se consolidar: o reabastecimento em voo. Ao equipar caças de escolta com sondas de abastecimento e introduzir aeronaves-tanque, o alcance desses aviões pôde ser ampliado sem alterar a logística dos bombardeiros. O procedimento mostrou-se mais simples, seguro e flexível, esvaziando a justificativa operacional para um minicaça interno.

Combinando o surgimento dessa alternativa com os riscos observados nos ensaios, o programa foi oficialmente encerrado em 1949. O XF-85 Goblin permaneceu como uma das experiências mais singulares da engenharia aeronáutica, enfatizando a criatividade e os limites tecnológicos do período.

Destinos dos protótipos do XF-85 Goblin

Dos dois exemplares construídos, ambos chegaram intactos aos dias atuais. Um está preservado no National Museum of the United States Air Force, no estado de Ohio; o outro compõe o acervo do Strategic Air and Space Museum, em Nebraska. Esses protótipos ajudam a ilustrar o estágio de transição vivido pela aviação militar entre 1945 e 1950, quando soluções ousadas eram testadas para suprir lacunas de desempenho ainda não resolvidas por engenharia ou doutrina.

O cancelamento definitivo em 1949 marcou a última etapa do calendário oficial do projeto.

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