Wim Wenders no Festival de Berlim: o cineasta explica por que considera o cinema o “oposto da política”

Wim Wenders no Festival de Berlim: o cineasta explica por que considera o cinema o “oposto da política”
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Wim Wenders assumiu, logo na primeira coletiva de imprensa do júri internacional do Festival de Berlim, a missão de esclarecer até onde o cinema pode – ou deve – transitar quando a pauta é política.

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Pressão sobre Wim Wenders e o júri em debate

O encontro entre jornalistas e os sete jurados, encarregados de escolher um vencedor entre 22 longas-metragens concorrentes ao Urso de Ouro, transcorria de maneira protocolar até que um repórter questionou a coerência entre o patrocínio estatal alemão ao evento e o posicionamento do mesmo governo no conflito em Gaza. O profissional, que não se identificou, apontou: enquanto o festival manifesta solidariedade a países como Irã e Ucrânia, seu maior financiador apoiaria ações militares israelenses consideradas genocidas nos territórios palestinos.

Ao lado da produtora polonesa Ewa Puszczynska, respeitada por “Ida” e “Zona de Interesse”, Wenders rebateu a provocação. Para ele, colocar o júri na linha de fogo seria ignorar a função primordial do cinema: aproximar indivíduos e desafiar visões de mundo sem reproduzir disputas de gabinete. O diretor alemão, hoje com 80 anos, defendeu que filmes lidam com sentimentos, não com decretos oficiais, e classificou a arte audiovisual como um contrapeso às disputas de poder.

Festival de Berlim, Wim Wenders e o limite entre arte e política

A afirmação de que “somos o oposto da política” condensou a visão do líder do júri. Wenders, conhecido por obras como “O Amigo Americano”, “Asas do Desejo” e o recente “Dias Perfeitos”, recordou que produções cinematográficas modificam percepções individuais, ainda que não legislem ou mobilizem exércitos. Ele evocou a sensação de “entrar em outro universo” durante a projeção de um filme, experiência que considera capaz de estimular empatia em um planeta marcado por disparidades entre governos e cidadãos.

A diretora artística do festival, Tricia Tuttle, tentou inicialmente contornar a pergunta do repórter, sugerindo concentrar a conversa nos títulos exibidos. A estratégia reflete uma preocupação interna: desde acusações de antissemitismo ocorridas em 2024, a organização busca manter discussões sensíveis restritas às telas, evitando que as entrevistas se tornem arenas de conflito.

“No Good Men” abre o evento e ecoa a fala de Wim Wenders

A escolha de “No Good Men”, da cineasta afegã Shahrbanoo Sadat, para inaugurar a 76ª edição do Festival de Berlim evidencia como o próprio programa dialoga politicamente, mesmo sem proclamações explícitas. Rodado na Alemanha, o longa é uma comédia romântica ambientada em Cabul às vésperas do retorno do Talibã, em 2021. Sadat interpreta Naru, cinegrafista de televisão que enfrenta barreiras impostas pelo machismo e pela violência diária.

O roteiro demonstra que situações amorosas comuns em qualquer metrópole também florescem em meio a explosões e armas. A diretora contou a veículos europeus ter enfrentado resistência inicial de produtores receosos de que o tom leve diluísse a gravidade da crise afegã. Persistiu, convencida de que ressaltar a normalidade possível sob ameaça ajuda a quebrar estereótipos – razão pela qual o filme adquire contornos políticos sem recorrer a discursos partidários.

Imigração afegã e recado indireto ao governo alemão

A presença de Sadat em Berlim, residindo atualmente em Hamburgo, dialoga com outro ponto sensível. Desde a posse do chanceler Friedrich Merz, no ano anterior, a Alemanha endurece regras migratórias. Entre os grupos mais afetados encontram-se refugiados afegãos alojados em campos no Paquistão, aguardando uma promessa de reassentamento feita na retirada das forças ocidentais. A escolha do filme de abertura, portanto, sinaliza uma defesa simbólica da integração cultural em contraste com a postura oficial de contenção.

Na lógica observada por Wenders, essa é uma demonstração de como a curadoria pode abordar tensões humanitárias sem transformar a conferência de imprensa em palanque. O longa de Sadat, ao explorar cotidiano, romance e humor, oferece uma via alternativa para discutir deslocamento e guerra.

Caminho até o Urso de Ouro: responsabilidade do júri liderado por Wim Wenders

Ao longo da semana, o grupo presidido por Wim Wenders assistirá aos 22 concorrentes distribuídos em sessões oficiais. Além de Puszczynska, o colegiado inclui nomes de diferentes formações artísticas, todos submetidos à mesma expectativa: entregar, na cerimônia final, o troféu máximo da Berlinale. A decisão deverá considerar critérios estéticos, narrativos e de relevância social, mas, segundo Wenders, jamais será influenciada por alinhamentos ideológicos externos.

O diretor enfatizou que filmes possibilitam revisar modos de vida, ultrapassando fronteiras nacionais e partidárias. Ele reiterou que a tarefa do júri é avaliar a força da obra sobre o espectador e não fazer juízo de políticas estatais. “Cinema é soft power”, sintetizou, ressaltando o alcance indireto, porém profundo, que histórias audiovisuais podem exercer na transformação de mentalidades.

A dialética cinema versus política no discurso de Wim Wenders

O embate verbal evidenciou uma tensão permanente em festivais internacionais: a cobrança para que artistas se posicionem sobre guerras, violações de direitos humanos ou acordos econômicos sustentados pelos mesmos patrocinadores que financiam mostras culturais. Para Wim Wenders, esse paradoxo não se resolve deslocando o artista ao terreno diplomático; resolve-se fortalecendo a capacidade das narrativas de disseminarem empatia, permitindo que o público produza seu próprio veredicto moral.

A fala dialoga com a filmografia do alemão. “Dias Perfeitos”, longamente citado na coletiva, acompanha a rotina de um trabalhador da limpeza em Tóquio e convida o espectador a enxergar beleza em gestos mínimos. Tal enfoque no microcosmo pessoal sustenta a convicção de Wenders de que a mudança genuína acontece na esfera individual antes de alcançar sistemas políticos.

Consequências para a Berlinale após a coletiva

A pergunta sobre Gaza não surgiu em vácuo. Nos últimos anos, a Berlinale intensificou manifestações de solidariedade a nações sob regimes repressivos ou sob invasões estrangeiras, como Irã e Ucrânia. Paralelamente, lida com críticas sobre a participação estatal alemã em conflitos internacionais. O episódio reforça a dificuldade de separar completamente financiamento público de posicionamentos governamentais.

Até o anúncio dos premiados, o festival prosseguirá empenhado em manter eventuais controvérsias dentro das salas de exibição. A própria diretora Tricia Tuttle afirmou, ao contornar o tema, que prefere concentrar as atenções nos filmes, sugerindo que o debate político encontre, primordialmente, seu espaço na tela grande.

Próximos passos na programação da Berlinale

A cerimônia de premiação, marcada para a semana seguinte ao início do evento, revelará se algum concorrente ampliará a discussão sobre Gaza, imigração ou outras crises globais. Independentemente do resultado, a coletiva comandada por Wim Wenders já inseriu a ênfase na empatia cinematográfica como eixo de avaliação. Resta acompanhar como os 22 títulos trarão, ou não, essa proposta para o centro do debate artístico.

Com esse horizonte, a Berlinale permanece atenta a como cada sessão será recebida pelo público e pela crítica, consciente de que, segundo Wenders, “mudar pessoas” talvez seja a alçada máxima do cinema.

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