Vício em redes sociais: Zuckerberg nega estratégia para atrair crianças e enfrenta provas no tribunal

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O debate sobre vício em redes sociais ganhou novo capítulo em Los Angeles, onde um júri analisa se a Meta Platforms e o Google lucraram ao manter usuários infantis conectados por períodos prolongados. No centro do processo está Mark Zuckerberg, presidente-executivo da Meta, que nesta fase do julgamento declarou não permitir o acesso de menores de 13 anos ao Facebook e ao Instagram, embora tenha sido confrontado por e-mails e relatórios internos que apontam a pré-adolescência como um segmento considerado estratégico dentro da companhia.
- Início do julgamento expõe alegações de vício em redes sociais
- Mark Zuckerberg rebate acusação de mirar crianças e pré-adolescentes
- Documentos internos levantam dúvidas sobre controle de idade e vício em redes sociais
- Tempo de tela, metas de engajamento e o centro da discussão sobre vício em redes sociais
- Panorama legal: processo-teste e possíveis consequências para o setor
- Reação global e iniciativas de restrição ao acesso infantil
- Entidades envolvidas e histórico das plataformas
- Efeitos na saúde mental citados nos autos
- Argumentos de defesa: contexto familiar e uso criativo
- Próximos passos no tribunal
Início do julgamento expõe alegações de vício em redes sociais
A ação foi proposta por uma mulher da Califórnia que relata ter começado a usar Instagram e YouTube ainda criança. Segundo os autos, ela atribui sintomas de depressão e pensamentos suicidas à exposição constante às duas plataformas. Os advogados sustentam que as empresas projetaram os serviços de forma a incentivar uso compulsivo, mesmo diante de estudos sobre eventuais impactos na saúde mental. Snapchat e TikTok, citadas inicialmente no processo, fecharam acordo antes da abertura dos trabalhos com o júri, deixando Meta e Google como rés principais.
Mark Zuckerberg rebate acusação de mirar crianças e pré-adolescentes
Interrogado pelo advogado da autora, Mark Lanier, Zuckerberg reiterou declarações que já havia levado ao Congresso dos Estados Unidos em 2024: usuários menores de 13 anos não são permitidos em suas plataformas. O executivo, porém, precisou explicar documentos de 2018, nos quais equipes do Instagram afirmavam que alcançar adolescentes exigiria primeiro “conquistá-los na pré-adolescência”. Zuckerberg classificou a leitura do advogado como equivocada e afirmou que discussões internas consideraram lançar versões adaptadas dos aplicativos para crianças, mas que a iniciativa não se concretizou.
Documentos internos levantam dúvidas sobre controle de idade e vício em redes sociais
Entre as evidências exibidas aos jurados está um e-mail enviado por Nick Clegg, então vice-presidente de assuntos globais da Meta. Nele, o executivo alertava Zuckerberg e outros diretores sobre a dificuldade de aplicar restrições etárias, questionando se os limites existentes eram de fato executáveis. Clegg também apontava diferenças entre as políticas do Instagram e do Facebook, fatores que, segundo ele, enfraqueciam o argumento de que a empresa fazia “tudo o que podia” para impedir o cadastro de crianças. Zuckerberg respondeu alegando que a verificação de idade é tecnicamente complexa e sugeriu que fabricantes de smartphones compartilhem essa responsabilidade.
Tempo de tela, metas de engajamento e o centro da discussão sobre vício em redes sociais
Outro ponto explorado na audiência envolveu a quantidade de minutos que adolescentes passam no Instagram. Registros de 2014 e 2015 mostram Zuckerberg definindo objetivos de aumento de tempo de uso em dois dígitos percentuais. Ele reconheceu metas antigas ligadas a engajamento, mas alegou mudança de postura nos anos recentes. Lanier exibiu ainda apresentação corporativa de 2022 que previa ampliar a média diária de 40 minutos em 2023 para 46 minutos em 2026. O CEO descreveu o documento como “constatação de desempenho”, não como orientação para estender sessões de navegação. Em seu depoimento, ele acrescentou que perfis de adolescentes representam menos de 1% da receita da Meta.
Panorama legal: processo-teste e possíveis consequências para o setor
A ação em andamento é considerada caso-piloto em uma onda de milhares de processos movidos por famílias, distritos escolares e governos estaduais contra Meta, Google, Snap e TikTok. Todos argumentam que as plataformas alimentam crise de saúde mental entre jovens. Uma sentença desfavorável pode fragilizar a defesa que as gigantes de tecnologia mantêm há anos, baseada em leis que as isentam de responsabilidade pelo conteúdo publicado por terceiros. Diferentemente de disputas anteriores, essas novas demandas focam no design e na operação dos serviços, alegando que algoritmos, notificações e mecanismos de recomendação são desenhados para prolongar o uso.
Reação global e iniciativas de restrição ao acesso infantil
Além dos tribunais norte-americanos, governos de vários países têm adotado medidas para limitar o uso de redes sociais por menores. A Austrália, por exemplo, proibiu o acesso a plataformas digitais para quem tem menos de 16 anos. Nos Estados Unidos, a Flórida proibiu contas para usuários abaixo de 14 anos, legislação que vem sendo contestada por associações do setor. Especialistas acompanham a evolução desses marcos regulatórios, pois decisões locais podem influenciar políticas corporativas globais.
Entidades envolvidas e histórico das plataformas
Meta Platforms, holding criada por Zuckerberg em 2021, controla Facebook, Instagram, WhatsApp e Oculus. O Facebook, lançado em 2004, cresceu até se tornar rede social de maior alcance no mundo, hoje com usuários em praticamente todos os países. O Instagram, adquirido em 2012, consolidou-se como principal serviço de compartilhamento de fotos e vídeos curtos, competindo diretamente com o TikTok, da chinesa ByteDance. Google, pertencente à Alphabet, opera o YouTube, site de vídeos criado em 2005 e referência para criadores de conteúdo. Snap Inc. é responsável pelo Snapchat, aplicativo popular entre adolescentes por mensagens que desaparecem. Já o TikTok ganhou tração global com clipes verticais curtos e algoritmo de recomendação agressivo.
Efeitos na saúde mental citados nos autos
O processo menciona relatórios internos vazados em 2021, nos quais pesquisadores da Meta apontaram que parte dos adolescentes sentia piora na autoimagem ao utilizar o Instagram. Também foi observado, segundo essas análises, que usuários propensos a transtornos alimentares recebiam mais conteúdos relacionados ao tema. Documentação adicional apresentada ao júri indica que jovens em situações de vida adversas relataram uso habitual ou não intencional da plataforma, possível indício de padrão compulsivo.
Argumentos de defesa: contexto familiar e uso criativo
A equipe jurídica da Meta sustenta que os registros médicos da autora do processo revelam histórico de dificuldades familiares, as quais teriam papel central em seus problemas psicológicos. Os advogados afirmam que as redes sociais serviram como espaço de expressão artística para a jovem, e não como causa principal de sofrimento. Google adota linha semelhante, destacando recursos de bem-estar digital adicionados ao YouTube nos últimos anos, como lembretes para pausa e limites diários configuráveis.
Próximos passos no tribunal
Com o término do depoimento de Zuckerberg, o julgamento prosseguirá com novos testemunhos técnicos e apresentação de relatórios corporativos. O veredicto do júri será acompanhado de perto por legisladores, pais e pela indústria de tecnologia, pois poderá estabelecer parâmetros inéditos sobre responsabilidade civil em casos de vício em redes sociais.

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