Trompetista Magno D'Alcântara: a revelação das jam sessions das Folhas que marcou o jazz paulistano

Trompetista Magno D'Alcântara: a revelação das jam sessions das Folhas que marcou o jazz paulistano
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O trompetista Magno D'Alcântara, conhecido no meio musical como Maguinho, entrou para a história do jazz brasileiro ao ser apontado como a maior revelação das jam sessions promovidas pelo jornal Folha de S.Paulo nos anos 1960. Os encontros mensais, realizados no auditório do veículo, atraíam plateias lotadas e reuniam alguns dos nomes mais respeitados da música nacional. A carreira do instrumentista, iniciada em Uberlândia e consolidada na capital paulista, reflete o vigor de uma época em que boates, rádios e televisões mantinham orquestras fixas e ofereciam espaço constante para a música ao vivo.

Índice

A origem das jam sessions das Folhas e o cenário do jazz paulistano

A primeira Jam Session das Folhas completou 65 anos em 5 de dezembro de 2025, marco que remete ao concerto inaugural ocorrido em 1960. A proposta era simples: abrir o auditório do jornal, sempre na primeira segunda-feira de cada mês, para audições de jazz, então descrito como “o popular ritmo americano”. A repercussão foi imediata; a estreia registrou lotação máxima e ganhou registro fonográfico no LP “Jam-Session das Folhas”, lançado em 1961. O formato de Long Play permitiu que aquele momento, antes restrito ao público presente, fosse disseminado entre colecionadores e apreciadores do gênero.

Ao longo da década, a iniciativa transformou-se em vitrine para músicos de diferentes horizontes. Pianistas, cantores, saxofonistas e instrumentistas de sopro encontraram ali um espaço democrático, onde formações reduzidas – trios, quartetos ou quintetos – podiam improvisar livremente. Entre os artistas que cruzaram o palco da Barão de Limeira estiveram o pianista e cantor Dick Farney, a intérprete Eliana Pittman, o clarinetista norte-americano Booker Pittman e a compositora Rita Lee. Muitos deles já detinham fama nacional; outros, como Maguinho, estavam em ascensão.

Trajetória de Magno D'Alcântara até as jam sessions das Folhas

Nascido em Uberlândia, em 2 de março de 1937 – ainda que registrado apenas em 21 de abril, em alusão a Tiradentes –, Magno D'Alcântara iniciou a vida musical na banda de seu pai. A experiência em grupos de baile do interior de Minas Gerais e de São Paulo forneceu repertório e disciplina. Em 1958, aos 21 anos, ele desembarcou na capital paulista com o objetivo de ampliar horizontes profissionais. O ambiente urbano fervilhava: boates disputavam músicos, rádios montavam orquestras e a televisão, recém-fortalecida, requeria performances ao vivo.

Foi na boate Oasis, localizada no porão do Edifício Esther – considerado o primeiro prédio modernista da cidade – que Maguinho consolidou sua presença. O espaço, frequentado pela artista plástica Tarsila do Amaral, pelo arquiteto Flávio de Carvalho e por intelectuais como Sérgio Milliet, oferecia cachês modestos, mas reunia público formador de opinião. Mesmo em aviso prévio, o trompetista recebeu ali uma proposta decisiva: integrar o grupo que acompanhava Dick Farney na casa noturna Baiuca, na vizinha praça Roosevelt. O convite partiu do contrabaixista Luiz Chaves, que mais tarde fundaria o Zimbo Trio.

Magno D'Alcântara como revelação do trompete em 1960

No dia 2 de julho de 1961, a Folha destacava a oitava edição das jam sessions e apresentava Maguinho como “revelação”. Apesar de o texto enaltecer o pianista Luiz Mello como “new star”, o trompetista chamava a atenção da crítica especializada por sua técnica autodidata e improvisos precisos. Aos 23 anos, ele já ocupava o posto de primeiro trompete no conjunto de Dick Farney, divisão que incluía ainda o baterista Rubinho Barsotti e o próprio Luiz Chaves, futuros integrantes do Zimbo Trio.

O reconhecimento não se limitou às páginas do jornal. Críticos e colegas passaram a considerar Magno D'Alcântara a principal revelação do instrumento em 1960. Esse prestígio abriu portas em gravações de estúdio, programas de radiodifusão e apresentações televisivas. Trabalhar ao lado de artistas consagrados reforçava o status do jovem músico e o mantinha em evidência nas rodas de jazz paulistanas.

Bastidores da cena musical: cachês, orquestras e oportunidades

Os bastidores revelados por Maguinho ilustram a dinâmica profissional da época. Na Baiuca, Dick Farney recebia 120 mil cruzeiros, enquanto músicos de apoio, como o trompetista, embolsavam 40 mil – montante expressivo frente aos seis mil que ele ganhava na Oasis. O expediente, uma espécie de “happy hour” que ia das 18h às 22h, permitia que os instrumentistas buscassem outros compromissos noturnos. Assim, Maguinho tocava em diferentes casas, gravava discos e mantinha presença constante em emissoras.

Só a Rádio Record mantinha três orquestras, e substituições de última hora garantiam rendas adicionais. Entre as formações das quais o trompetista participou estavam as orquestras conduzidas por Osmar Milani, Sylvio Mazzuca, Enrico Simonetti e o conjunto de apoio ao cantor Roberto Carlos. Nas palavras do próprio músico, a orquestra de Simonetti era “a melhor de São Paulo”. A efervescência permitia que jazz e samba fossem executados em todos os cantos da cidade, ainda que algumas casas exigissem repertório exclusivamente jazzístico.

Memórias, aposentadoria e legado de Magno D'Alcântara

Os convites para executar standards como “Stella by Starlight” nas jam sessions repetiram-se ao longo de sete ou oito edições, segundo o próprio trompetista. As filas para adquirir ingressos estendiam-se pela rua Barão de Limeira, sinalizando o interesse do público. Morador da rua Pirineus, Maguinho percorria a curta distância até o auditório com o instrumento em mãos, em um período descrito por ele como menos violento que o presente.

O ambiente, porém, não estava isento de elementos típicos da noite: “muito fumo e Pervitin” circulavam entre frequentadores e músicos, referência aos comprimidos de metanfetamina vendidos em farmácias e usados para espantar o sono. O trompetista, guiado pelo conservadorismo paterno, evitava tais substâncias, ainda que reconhecesse quando colegas as consumiam.

Hoje aposentado e afastado do palco por questões de saúde, Magno D'Alcântara mira o passado com humor. Ao ser questionado sobre a possibilidade de voltar a tocar, recorreu à gíria de sua juventude e disse que, se voltasse, “daria muita chinesa”, expressão que se refere a notas fora da harmonia. A frase evidencia o vínculo afetivo que o instrumentista mantém com a prática musical, mesmo distanciado fisicamente do trompete.

Ao lado de nomes como Heraldo do Monte, Roberto Sion, Edmundo Villani-Côrtes e Luiz Mello – todos participantes das jam sessions e ainda ativos –, o legado de Maguinho reforça a importância histórica do evento organizado pela Folha. O jornal, que celebrou 105 anos de existência, revisita essas memórias em uma série de entrevistas, preservando relatos de quem viveu a era dourada do jazz paulistano.

A última informação factual disponível indica que Maguinho permanece aposentado, sem apresentações recentes, mas com recordações vivas de um período em que São Paulo oferecia trabalho abundante a quem dominava o improviso e a linguagem do jazz.

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