Veredito coloca modelo de negócios da Apple sob escrutínio
Um julgamento conduzido pelo Competition Appeal Tribunal (CAT), colegiado responsável por ações de concorrência no Reino Unido, concluiu que a Apple atuou de forma anticompetitiva no mercado local durante vários anos. De acordo com a corte, a empresa impôs taxas consideradas “excessivas e injustas” sobre microtransações e outras compras digitais realizadas dentro de aplicativos distribuídos pela App Store. A decisão, que ainda cabe recurso, expõe a companhia à possibilidade de pagar uma indenização coletiva estimada em 1,5 bilhão, valor convertido para cerca de R$ 10,7 bilhões.
Quem moveu a ação coletiva e qual período foi analisado
A causa foi iniciada em 2021 pela pesquisadora Rachael Kent, que reuniu desenvolvedores britânicos afetados pelas políticas comerciais da plataforma. O grupo alegou que as taxas cobradas pela Apple elevaram artificialmente o preço final de assinaturas, itens virtuais e demais conteúdos comprados dentro dos aplicativos. Para calcular o potencial ressarcimento aos participantes do processo, o CAT restringiu a análise às práticas exercidas entre 2015 e 2020. Esse recorte temporal foi considerado suficiente para avaliar o impacto financeiro nos desenvolvedores e, por consequência, nos consumidores.
Como funcionavam as taxas questionadas pelo tribunal
Durante o quinquênio estudado, a Apple exigia que todas as transações internas nos aplicativos fossem processadas exclusivamente pelo seu sistema de pagamentos. Além da obrigação de usar o método da companhia, desenvolvedores eram submetidos a tarifas que, segundo o tribunal, ultrapassavam padrões aceitáveis do ponto de vista concorrencial. Ao rotular as cobranças como “excessivas”, o julgamento entendeu que a prática impediu qualquer competição na etapa de processamento de pagamentos, privando os clientes de opções potencialmente mais baratas.
Impacto direto sobre preços e sobre a liberdade de escolha do consumidor
O CAT destacou que o modelo de negócios da Apple não afetou apenas desenvolvedores. Em razão da estrutura tarifária, os provedores de software tiveram de repassar parte dos custos adicionais aos usuários finais, elevando o preço de serviços e conteúdos digitais. Paralelamente, a obrigação de utilizar exclusivamente a App Store e o sistema de pagamentos embarcado foi considerada uma limitação material à liberdade de escolha dos consumidores, já que não havia caminhos oficiais para adquirir o mesmo conteúdo em condições diferentes de preço ou forma de cobrança.
Valor da indenização em debate e cronograma do caso
Embora o tribunal já tenha confirmado a existência de conduta anticompetitiva, o montante exato da reparação ainda não foi definido. A corte agendou para novembro a audiência que estabelecerá o valor a ser pago à coletividade de desenvolvedores. A estimativa de 1,5 bilhão funciona como referência inicial, mas pode ser revisada de acordo com metodologias de cálculo que levarão em conta dados de faturamento, volume de transações e participação de mercado.
Tentativas de recurso e posicionamento da companhia
Imediatamente após a divulgação do veredito, a Apple protocolou recursos para tentar reverter ou, no mínimo, alterar pontos da decisão. Publicamente, a empresa sustenta que a acusação possui “compreensão falha da economia de aplicativos” e argumenta que a App Store “ajuda desenvolvedores a prosperar” ao oferecer um ambiente considerado seguro e confiável para descoberta de software e processamento de pagamentos. O CAT, porém, rejeitou o primeiro pedido de apelação, o que mantém o cronograma de definição de indenização.
Alterações no modelo da App Store após 2020
O tribunal limitou o exame ao intervalo de 2015 a 2020 porque, a partir da virada da década, a Apple começou a adotar mudanças que modificam a forma de distribuição de aplicativos. Essas transformações foram estimuladas por novas regulações na União Europeia e por litígios de alto perfil, como a ação movida pela Epic Games, criadora de Fortnite. Entre as adaptações já anunciadas pela Apple estão:
• Lojas alternativas: previsão de que usuários possam instalar marketplaces de aplicativos operados por terceiros, mecanismo semelhante ao que já existe no Android.
• Botões ou links externos de pagamento: possibilidade de os desenvolvedores incluírem nos apps atalhos que direcionem o consumidor a formas de pagamento fora da infraestrutura da Apple.
• Estrutura de taxas proporcionais: implementação de alíquotas que variam conforme o porte do aplicativo, medido por quantidade de downloads ou pela receita anual gerada.
Por que as mudanças não afetam a responsabilidade sobre o passado
Apesar das iniciativas de revisão de políticas, o tribunal ressaltou que a responsabilidade civil da Apple por eventuais danos financeiros causados antes das mudanças permanece intacta. Dessa forma, ainda que as regras atuais venham a reduzir barreiras de entrada para meios de pagamento alternativos, o ressarcimento solicitado pelos integrantes da ação coletiva refere‐se exclusivamente ao período em que não havia tais possibilidades.
Possíveis repercussões para o mercado de aplicativos
Se confirmada a indenização bilionária, o precedente pode incentivar novas ações coletivas em outros mercados onde a Apple opera com a mesma lógica de exclusividade de pagamento. Desenvolvedores de diversas regiões acompanham o caso britânico como termômetro para avaliar a eficácia de pleitos semelhantes. Além disso, empresas que gerenciam lojas de aplicativos concorrentes podem ganhar terreno caso a decisão influencie legisladores a exigir maior abertura em ecossistemas fechados.
Processos semelhantes em outras jurisdições
As práticas da App Store também são alvo de litígio na China, país onde a empresa enfrenta alegações de abuso competitivo semelhantes às reunidas no Reino Unido. Embora cada jurisdição possua legislação própria, o ponto em comum é o questionamento do poder de mercado da companhia e a suposta dificuldade de concorrentes oferecerem alternativas de pagamento ou distribuição de software.
Próximos passos até a definição do montante a pagar
O calendário do tribunal prevê, para novembro, sessões dedicadas a ouvir especialistas econômicos, representantes da classe de desenvolvedores e executivos da empresa. Nessa fase, as partes deverão apresentar estudos que quantifiquem o impacto das taxas sobre o mercado britânico de aplicativos. Encerrada a etapa probatória, o CAT fixará o valor definitivo da indenização e determinará parâmetros para sua distribuição entre os desenvolvedores que aderiram à ação coletiva.
Observação sobre a continuidade do litígio
A Apple ainda pode recorrer a instâncias judiciais superiores do Reino Unido caso discorde da decisão final sobre o montante. No entanto, enquanto não obtiver medida suspensiva, a companhia permanecerá sujeita ao cronograma estabelecido pelo CAT. Assim, desenvolvedores e consumidores aguardam as manifestações das cortes de apelação para saber se o desfecho econômico será adiado ou cumprido dentro do prazo inicialmente previsto.
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