Taxi Driver completa 50 anos: por que o clássico de Scorsese continua um espelho incômodo do mundo atual

Taxi Driver completa 50 anos: por que o clássico de Scorsese continua um espelho incômodo do mundo atual
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Taxi Driver chega à marca de meio século como um dos retratos mais contundentes da solidão urbana, do fanatismo e da sensação de derrota moral que emergiram nos Estados Unidos após a Guerra do Vietnã. Lançado em 1976, dirigido por Martin Scorsese e protagonizado por Robert De Niro, o longa permanece atual ao ilustrar como a alienação individual pode se transformar em violência coletiva.

Índice

‘Taxi Driver’: da derrota no Vietnã ao caos urbano

O ponto de partida histórico do filme é o fim do conflito no Sudeste Asiático, evento que desencadeou uma série de produções hollywoodianas dedicadas a examinar as feridas da guerra. Obras como “De Volta para Casa”, “Rambo”, “Apocalipse Now”, “O Franco Atirador”, “Platoon” e “Pecados de Guerra” compõem essa filmografia. Taxi Driver, entretanto, destaca-se por traduzir a derrota moral norte-americana em um cenário doméstico: a cidade de Nova York dos anos 1970.

Nesse ambiente, a guerra é lembrada apenas pelo fato de Travis Bickle, personagem de De Niro, ser veterano. A narrativa desloca a tragédia do campo de batalha para o cotidiano de avenidas abarrotadas, cinemas decadentes e bares mal-iluminados. Para Scorsese, a região da Rua 42 e da Oitava Avenida constituía um “inferno” visual, impressionante a ponto de evocar imagens bíblicas de danação. Ao situar Travis nesse cenário, o diretor converte o pós-guerra em metáfora da degradação social que ele testemunhava no próprio bairro onde nasceu.

Lonely Travis e a violência silenciosa de Taxi Driver

Travis Bickle é um ex-combatente que não encontra lugar na comunidade à qual retornou. Solitário, insone e rejeitado em sucessivos contatos sociais, ele assume o turno noturno como motorista de táxi e passa a circular, noite após noite, por ruas que considera “perturbadoras”. Essa rotina reforça sua convicção de que a cidade precisa ser purificada por uma “chuva de verdade” que eliminaria o que ele chama de lixo humano: prostitutas, usuários de drogas e demais figuras que julga indignas.

A construção psicológica do protagonista incorpora duas tradições religiosas apontadas pela equipe criativa. De um lado, o catolicismo de Scorsese, inclinado a temas como culpa e expiação; de outro, o protestantismo do roteirista Paul Schrader, cuja obra costuma retratar personagens obcecados pela ideia de pecado original. O resultado é um anti-herói dominado por fanatismo e convicções absolutas, capaz de cogitar o assassinato de um político como solução para seus dilemas internos.

A violência de Taxi Driver raramente se manifesta em explosões gráficas. Ela se expressa, sobretudo, nos gestos contidos, no olhar febril e na tensão constante que De Niro imprime ao papel. Esse clima inquietante levou parte da crítica a classificar o filme como um dos mais perturbadores de seu tempo, ainda que o sangue em tela seja, de fato, limitado quando comparado a produções posteriores.

Personagens femininas e o desejo de purificação em Taxi Driver

Dois perfis femininos estruturam o conflito moral de Travis. Betsy, interpretada por Cybill Shepherd, surge como figura idealizada, símbolo de pureza inacessível aos olhos do protagonista. Em oposição, Iris, vivida por Jodie Foster, personifica a perdição: prostituta aos 12 anos, ela representa a juventude que, segundo Travis, foi lançada ao “esgoto” do submundo nova-iorquino. O motorista passa a enxergar a si mesmo como agente de redenção, disposto a “salvar” Iris e a punir todos que acredita corrompê-la.

Esse contraste reforça o maniqueísmo mental de Travis: se a metrópole é pecaminosa, ele precisa extirpá-la para restaurar a ordem. Tal raciocínio justifica, em sua lógica distorcida, o massacre que executa ao final da história e a subsequente narrativa de heroísmo criada pela imprensa fictícia do filme. É nesse duplo registro—crime brutal e glorificação pública—que Scorsese questiona a facilidade com que a sociedade legitima atos de violência quando eles se alinham a discursos de moralidade simplista.

Violência, rejeição ao Oscar e a Palma de Ouro

Produzir Taxi Driver foi tão desconfortável quanto assisti-lo, segundo o próprio diretor. Filmado em locações reais de Nova York, o projeto levou Scorsese a confrontar diariamente as mesmas ruas degradadas que o inspiraram. Essa crueza resultou em amplo reconhecimento internacional: o longa venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, símbolo máximo do cinema de autor.

Já na cerimônia do Oscar, a obra não obteve o principal troféu, inaugurando uma série de frustrações de Scorsese na Academia. A recepção morna foi atribuída, entre outras razões, à violência moral que permeia cada quadro. Ainda assim, a distinção francesa bastou para consolidar o diretor como um nome central da modernidade cinematográfica dos Estados Unidos.

Por que Taxi Driver se mantém atual meio século depois

Cinquenta anos após sua estreia, Taxi Driver dialoga com o século 21 de maneiras inquietantes. A solidão que corrói Travis encontra paralelo em um mundo de relações mediadas por redes sociais, onde encontros presenciais são menos frequentes e vínculos associativos—sindicatos, partidos, clubes—mostram-se cada vez mais frágeis. O isolamento intensifica a propensão a discursos extremistas, fenômeno que, no filme, leva o protagonista a projetar rancores pessoais sobre grupos inteiros.

A lógica de “odiar à distância” torna-se conveniente numa sociedade hiperconectada, pois reduz o esforço de compreender o outro. O longa antecipa esse comportamento ao mostrar como Travis constrói um universo paralelo dentro do táxi, tratando a realidade apenas como obstáculo à sua visão de mundo. Assim, o roteiro de Schrader funciona como alerta sobre o potencial destrutivo da incomunicabilidade—tema que permanece relevante em debates contemporâneos sobre radicalização online.

Disponibilidade e ficha técnica de Taxi Driver

Para quem deseja (re)visitar o clássico, Taxi Driver está disponível nos catálogos da HBO Max, Sony One, Looke, Oldflix e NetMovies. O filme tem classificação indicativa de 18 anos, duração de 113 minutos e produção inteiramente norte-americana. Completam o elenco principal Robert De Niro, Jodie Foster e Cybill Shepherd, sob direção de Martin Scorsese e roteiro de Paul Schrader. O lançamento original ocorreu em 1976.

Meio século depois, fica a expectativa de novas exibições especiais e retrospectivas que celebrem a data redonda atingida pelo filme, reforçando seu status de obra fundamental para quem busca entender tanto a Nova York dos anos 1970 quanto a persistente inquietação do presente.

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