Taxa Selic é mantida em 15% pela quinta vez; Copom indica possível corte em março e reforça vigilância sobre inflação

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A taxa Selic, referência básica para todas as demais taxas de juros no país, foi mantida em 15% ao ano pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, marcando a quinta decisão consecutiva sem alteração e confirmando a expectativa predominante do mercado financeiro.
- Por que a taxa Selic permanece em 15% ao ano?
- Histórico recente da taxa Selic e decisões anteriores do Copom
- Metas de inflação: como IPCA e taxa Selic se relacionam
- Efeitos econômicos: crédito caro, consumo moderado e projeções de PIB
- Estrutura institucional: vacância na diretoria e papel do governo
- Próximos passos do Banco Central para a taxa Selic
Por que a taxa Selic permanece em 15% ao ano?
O Copom decidiu, por unanimidade, manter a política monetária restritiva mesmo diante de recuos recentes tanto da inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), quanto da cotação do dólar. O colegiado alegou, em comunicado, que aguarda a consolidação desses movimentos antes de iniciar qualquer flexibilização. Dessa forma, a autoridade monetária evita mudanças prematuras que possam comprometer a convergência da inflação para a meta de 3%, fixada pelo Conselho Monetário Nacional dentro de um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Segundo o Banco Central, a escolha pela estabilidade garante tempo para avaliar se pressões de demanda, choques de oferta ou ajustes de preços administrados podem reverter a trajetória benigna de preços observada até o momento. Assim, mesmo em um ambiente de IPCA em 4,26% em 2025 — menor patamar anual desde 2018 —, o risco de novas acelerações não foi considerado totalmente dissipado.
Histórico recente da taxa Selic e decisões anteriores do Copom
A trajetória do atual ciclo começou em maio de 2024, quando a taxa estava em 10,5% ao ano. A partir de setembro daquele ano, o Copom iniciou uma sequência de elevações diante da piora das expectativas inflacionárias. Em junho de 2025, a Selic alcançou 15% e, desde então, permaneceu nesse nível, o mais elevado desde julho de 2006, quando estava em 15,25% ao ano.
As últimas quatro reuniões antes da decisão atual repetiram o resultado de estabilidade. A persistência dessa estratégia explicita a postura cautelosa adotada pela diretoria colegiada, que prefere acumular evidências consistentes de desaceleração de preços antes de optar por cortes. A sinalização contida no comunicado, no entanto, indica que, mantido o cenário sem “surpresas”, o ciclo de afrouxamento pode iniciar-se na reunião de março.
Metas de inflação: como IPCA e taxa Selic se relacionam
Desde janeiro de 2026 vigora o regime de meta contínua para a inflação. Diferentemente do modelo anterior — baseado na verificação do IPCA fechado a cada dezembro —, o desempenho agora é apurado mês a mês, considerando a inflação acumulada em 12 meses. Na prática, o Banco Central passa a ter de demonstrar, de forma permanente, que a trajetória de preços tende a convergir para o centro da meta.
Nesse novo arranjo, a manutenção da Selic num patamar elevado atua como principal âncora contra eventuais desvios. Caso a inflação em qualquer mês escape do intervalo de 1,5% a 4,5%, o Copom precisará explicar publicamente as razões e as medidas adotadas para trazê-la de volta ao alvo. A prevenção de cenários dessa natureza justificou o prolongamento da política monetária restritiva.
No último Relatório de Política Monetária, divulgado em dezembro, a autarquia reduziu de 3,6% para 3,5% a previsão para o IPCA de 2026, mas adiantou que o número pode ser revisto na próxima edição do documento, prevista para o fim de março, quando já se conhecerá a evolução mais recente do câmbio e dos preços administrados.
Efeitos econômicos: crédito caro, consumo moderado e projeções de PIB
Juros elevados encarecem linhas de financiamento, tornam o crédito mais escasso e desestimulam decisões de consumo e investimentos produtivos. Esse comportamento, intencionalmente buscado pela política monetária, reduz a pressão de demanda sobre bens e serviços, contribuindo para conter reajustes de preços.
Embora o controle inflacionário seja obtido, a consequência de curto prazo costuma ser a desaceleração do crescimento. O Banco Central projeta expansão de 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, revisão para cima em relação à estimativa anterior de 1,5%. O mercado financeiro, compilado pelo boletim Focus, está um pouco mais otimista e prevê elevação de 1,8% para o mesmo período.
A convergência dessas projeções sugere que, embora elevada, a Selic em 15% não inviabiliza totalmente a atividade econômica, mas impõe um ritmo de avanço mais moderado. Na prática, o Copom se vê diante do desafio de equilibrar a estabilidade de preços com a sustentação do crescimento, o que explica a sinalização de cortes graduais a partir de março.
Estrutura institucional: vacância na diretoria e papel do governo
A decisão unânime foi tomada com dois assentos vagos no colegiado. O mandato dos diretores Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro) e Paulo Pichetti (Política Econômica) expirou no fim de 2025. Até o momento, novas indicações dependem do envio de nomes pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Senado, o que só deve ocorrer após o recesso parlamentar, em fevereiro.
Mesmo com a composição incompleta, o Copom reiterou a coesão interna em torno da estratégia de manutenção de juros. A ausência temporária não compromete o quórum mínimo exigido, mas chama atenção porque as cadeiras em aberto correspondem justamente a áreas centrais do processo decisório: a supervisão do sistema financeiro e a formulação das projeções econômicas.
A substituição dos diretores não deve alterar, no curto prazo, a orientação geral do comitê. Entretanto, a chegada de novos membros costuma adicionar nuances às discussões, principalmente sobre ritmo e intensidade de eventuais cortes na taxa Selic.
Próximos passos do Banco Central para a taxa Selic
No comunicado da decisão, o Copom afirmou que “antecipa, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária” na reunião programada para março. Para que isso ocorra, será fundamental que:
• O IPCA mantenha-se dentro ou abaixo do teto de 4,5% no regime de meta contínua;
• Não ocorram choques relevantes de oferta ou repiques cambiais capazes de reacender pressões de preços;
• As expectativas do boletim Focus permaneçam ancoradas em torno de 4% para 2026 ou recuem;
• Os dados de atividade não apontem aquecimento excessivo que contraponha o esforço restritivo.
Caso esses pré-requisitos sejam atendidos, o ciclo de cortes deverá começar de forma gradual, com a preocupação declarada de “manter a restrição adequada” para assegurar a convergência da inflação. A magnitude do primeiro ajuste será definida após a atualização das projeções no Relatório de Política Monetária de março, que incorporará números consolidados do primeiro bimestre e o eventual impacto das indicações dos novos diretores.
Em síntese, a estabilidade da taxa Selic em 15% ao ano reflete a estratégia cautelosa do Banco Central diante de um quadro de inflação em queda, porém ainda sujeito a incertezas. O mercado agora monitora a reunião de março, apontada pelo próprio Copom como provável início do processo de flexibilização monetária, condicionada à continuidade da trajetória benigna dos preços e à ausência de choques adversos.

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