Sono das árvores: estudo com laser revela que galhos abaixam até 10 cm durante a noite

O sono das árvores deixou de ser apenas uma metáfora poética para ganhar contornos mensuráveis após um experimento conduzido por pesquisadores da Finlândia e da Áustria. Utilizando scanners a laser terrestres equipados com luz infravermelha, a equipe registrou que galhos e folhas de árvores adultas se deslocam até 10 centímetros para baixo durante a madrugada, retornando à posição original no amanhecer. A mesma tecnologia permitiu confirmar que o movimento ocorre na ausência total de vento, indicando tratar-se de um processo interno ligado ao ritmo biológico vegetal.
- Por que o sono das árvores intriga a ciência
- Como os scanners a laser registram o sono das árvores
- Três fases identificadas no sono das árvores
- Variações de turgor dão suporte ao sono das árvores
- O que muda entre dia e noite na fisiologia vegetal
- Monitoramento noturno e próximos passos das investigações
Por que o sono das árvores intriga a ciência
O conceito de repouso em organismos sem sistema nervoso, como as plantas, desafia a compreensão tradicional de “dormir”. No experimento, cientistas queriam entender quem participa do processo (árvores adultas de diferentes espécies), o que muda fisicamente (inflexão de galhos e redução de turgor), quando isso acontece (do pôr ao nascer do sol), onde é detectado (em florestas monitoradas nos dois países europeus), como se mede (via varredura a laser tridimensional) e por que ocorre (economia de energia quando a fotossíntese está interrompida). Essa investigação abre espaço para discutir ciclos circadianos em vegetais, um tema que, até recentemente, era associado quase exclusivamente a animais.
Como os scanners a laser registram o sono das árvores
Medir deslocamentos de galhos na ordem de milímetros à noite representa um desafio técnico relevante. Para contornar a limitação de luz visível e evitar que iluminação artificial interferisse no ritmo biológico, a equipe recorreu a lasers de infravermelho. Cada varredura é finalizada em poucos minutos e gera um modelo 3D de altíssima resolução da copa, tronco e ramos. A repetição desse escaneamento durante 12 horas permitiu acompanhar, ponto a ponto, a trajetória descendente dos galhos logo após o pôr do sol.
Três características do método se destacam no relatório da pesquisa:
• Monitoramento constante sem luz visível: o infravermelho não “acorda” a planta.
• Precisão milimétrica: diferenças de postura inferiores a um centímetro são registradas.
• Cobertura total da copa: o software gera nuvens de pontos que compõem réplicas digitais fiéis da árvore inteira.
Três fases identificadas no sono das árvores
Ao longo da noite, os pesquisadores descreveram um ciclo em três momentos distintos:
Início do declínio: Minutos após o sol desaparecer no horizonte, galhos e folhas começam a inclinar-se lentamente em direção ao solo. Essa movimentação inicial marca a transição entre a plena atividade diurna e o estado de repouso.
Ponto máximo de relaxamento: Na madrugada, ocorre a maior deflexão, com medições indicando deslocamento de até 10 centímetros em alguns ramos. Nessa fase, a planta encontra-se no ápice do descanso metabólico.
Despertar matinal: Assim que a luz natural retorna, a árvore retoma pressão de água nos tecidos, recupera rigidez estrutural e readquire a postura ereta habitual em questão de minutos.
Variações de turgor dão suporte ao sono das árvores
Todos os movimentos observados estão ligados à pressão interna de água nas células vegetais, conhecida como turgor. Durante o dia, o fluxo contínuo de seiva mantém células cheias de água, garantindo sustentação aos ramos. Com a ausência de luz, a fotossíntese cessa, a evapotranspiração diminui e a pressão celular cai. A consequência mecânica é o relaxamento dos tecidos lenhosos, permitindo que galhos adotem posição mais baixa e, por consequência, reduzam o gasto energético associado à manutenção da rigidez.
A tabela elaborada pelos cientistas, reproduzida abaixo em formato textual, sintetiza essas diferenças:
Período diurno: galhos elevados, turgor alto, foco em fotossíntese e crescimento.
Período noturno: galhos inclinados, turgor reduzido, foco em descanso e economia de energia.
O que muda entre dia e noite na fisiologia vegetal
Além do deslocamento físico detectado, diversas funções internas ajustam-se ao ciclo claro-escuro. Quando o sol está presente, as folhas convertem dióxido de carbono e água em glicose, liberando oxigênio no processo. Esse trabalho exige abertura dos estômatos e constante transporte de nutrientes. No escuro, tais exigências desaparecem, permitindo que a árvore reorganize recursos para reparo celular e armazenamento, atividades compatíveis com a postura mais relaxada documentada pelos lasers.
Os dados também apontam que o movimento noturno não tem correlação com rajadas de vento. Como o experimento foi conduzido em ambiente controlado, com velocidades de ar mínimas e medição simultânea de condições climáticas, concluiu-se que a variação se origina exclusivamente da fisiologia interna.
Monitoramento noturno e próximos passos das investigações
A capacidade de mapear variações milimétricas sem contato físico inaugura novas frentes de pesquisa sobre ritmos circadianos em florestas inteiras. O mesmo protocolo poderá ser replicado em diferentes latitudes, estações e espécies, permitindo avaliar como temperatura, disponibilidade de água e idade da planta interferem no padrão de repouso.
Por enquanto, o trabalho europeu confirma que o sono das árvores é um fenômeno sistemático, mensurável e profundamente ligado à hidratação celular. O próximo ciclo de varreduras a laser, segundo os pesquisadores, deverá abranger períodos de seca prolongada para comparar como a falta de água altera a amplitude do deslocamento noturno.

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