Seca continental causa perda anual de 324 bilhões de metros cúbicos de água doce, revela Banco Mundial

Seca continental causa perda anual de 324 bilhões de metros cúbicos de água doce, revela Banco Mundial
Getting your Trinity Audio player ready...

Um novo relatório do Banco Mundial, apoiado em 22 anos de observações de satélites da NASA, mostra que a seca continental está drenando cerca de 324 bilhões de metros cúbicos de água doce por ano dos continentes – volume capaz de suprir as necessidades anuais de 280 milhões de pessoas e equivalente ao esvaziamento de quatro piscinas olímpicas a cada segundo. Esse esgotamento, segundo o documento, já é o maior fator individual de elevação do nível do mar, superando o derretimento das calotas polares.

Índice

A dimensão global da seca continental

O estudo identifica a seca continental como um fenômeno planetário, caracterizado pela rápida perda de água armazenada em rios, lagos, aquíferos e solos. A medição foi possível graças a registros de duas décadas fornecidos por satélites da agência espacial norte-americana, capazes de detectar variações mínimas na massa d’água sobre e sob a superfície terrestre. Ao diferenciar esses dados de outros processos naturais, os pesquisadores concluíram que as massas de terra estão secando em velocidade sem precedentes, contribuindo diretamente para o aumento do nível dos oceanos.

Além da cifra absoluta de 324 bilhões de metros cúbicos, o relatório ressalta a escala temporal do problema: a cada segundo, quatro piscinas olímpicas desaparecem do sistema hidrológico continental. Em um ano, isso representa suficientemente para atender uma população próxima ao tamanho atual da Indonésia. A perda contínua, se mantida, pressiona sistemas hídricos regionais e já ultrapassa a contribuição isolada do derretimento de grandes geleiras para o avanço do mar.

Causas identificadas pelo relatório

A análise do Banco Mundial aponta a extração insustentável de águas subterrâneas como fator dominante. O setor agrícola, responsável por quase todo o consumo de água doce do planeta, bombeia volumes expressivos de aquíferos para irrigar lavouras, muitas vezes sem reposição natural suficiente. O relatório acrescenta que as demandas domésticas e industriais intensificam a retirada de reservas subterrâneas, sobretudo onde a captação superficial é limitada.

Dois outros processos são destacados como agravantes. Primeiro, o aumento da evaporação, relacionado às condições climáticas mais quentes e secas em várias regiões, acelera a perda de umidade do solo e dos corpos hídricos superficiais. Segundo, o derretimento de geleiras contribui duplamente: libera água inicialmente, mas, ao reduzir permanentemente esses reservatórios congelados, diminui a oferta futura de água doce, alterando o balanço hídrico continental.

Impactos socioeconômicos da seca continental

A seca continental afeta de maneira desproporcional países de baixa renda e economias dependentes da agricultura. O relatório calcula que, no Sul da Ásia e na África Subsaariana, a perda hídrica já representa até 10 % da renda anual obtida a partir da disponibilidade de água. Na prática, isso reduz a produção agrícola, contrai a oferta de trabalho e diminui a segurança alimentar.

Apenas na África Subsaariana, as secas associadas ao fenômeno custam entre 600 mil e 900 mil empregos por ano. Esse impacto atinge principalmente trabalhadores rurais, para os quais a água é insumo essencial. Quando se soma a redução de renda agrícola ao aumento de gastos com busca ou bombeamento de água, os lares rurais veem sua margem econômica encolher substancialmente.

Nos centros urbanos dessas mesmas regiões, a pressão sobre sistemas de abastecimento provoca interrupções no fornecimento, encarece as tarifas e aprofunda desigualdades entre quem pode pagar por soluções alternativas, como caminhões-pipa, e quem depende exclusivamente das redes públicas.

Efeitos sobre a biodiversidade e risco de incêndios

A escassez de água altera ecossistemas inteiros. O relatório aponta que, em 17 das 36 áreas de maior riqueza biológica do mundo, a redução da umidade no solo e na vegetação eleva a probabilidade de incêndios florestais de grandes proporções. Entre as regiões citadas estão porções do Brasil, de Madagascar e do Sudeste Asiático.

Os incêndios, por sua vez, comprometem habitat de espécies endêmicas, reduzem a capacidade de regeneração florestal e emitem grandes quantidades de carbono, retroalimentando mudanças climáticas que intensificam a evaporação. Nesses pontos críticos, a perda de biodiversidade ameaça serviços ecossistêmicos vitais, como a regulação do microclima e a retenção de água em bacias hidrográficas.

Três caminhos propostos para reverter a tendência

Apesar do diagnóstico severo, o Banco Mundial descreve três eixos de ação capazes de desacelerar ou até reverter a seca continental:

1. Eficiência agrícola. Como a agricultura consome 98 % da água usada globalmente, ganhos mesmo modestos têm efeito amplificado. O relatório recomenda a adoção de irrigação de precisão, que aplica água apenas quando e onde a planta necessita, e o cultivo de variedades agrícolas menos dependentes de irrigação intensiva.

2. Comércio virtual de água. Países com escassez hídrica podem poupar seus recursos ao importar commodities de alto consumo de água, como grãos e algodão, de regiões em que a disponibilidade é maior. Essa troca internacional de produtos intensivos em água reduz a pressão sobre aquíferos locais e distribui de forma mais equilibrada o uso do recurso.

3. Governança eficaz. O estudo constata que nações com políticas robustas de gestão – envolvendo regulamentação, monitoramento e precificação adequada – exaurem seus aquíferos de duas a três vezes mais lentamente. Sistemas de licenciamento de poços, tarifas que reflitam a escassez e fiscalização contínua formam o núcleo de uma governança hídrica bem-sucedida.

Perspectivas de longo prazo e necessidade de ação imediata

Os autores observam que a janela de oportunidade ainda existe. Mudanças consistentes em políticas públicas, desenvolvimento de instrumentos financeiros para incentivar práticas sustentáveis e inovações tecnológicas podem produzir resultados significativos nas próximas décadas. Essa visão oferece um otimismo cauteloso, baseado na constatação de que os mecanismos de gestão aplicados de forma coordenada conseguem retardar a perda de água doce e proteger os estoques subterrâneos.

O relatório conclui que um futuro de uso sustentável da água ainda é alcançável, mas depende de ação imediata e colaborativa em escala global.

zairasilva

Olá! Eu sou a Zaira Silva — apaixonada por marketing digital, criação de conteúdo e tudo que envolve compartilhar conhecimento de forma simples e acessível. Gosto de transformar temas complexos em conteúdos claros, úteis e bem organizados. Se você também acredita no poder da informação bem feita, estamos no mesmo caminho. ✨📚No tempo livre, Zaira gosta de viajar e fotografar paisagens urbanas e naturais, combinando sua curiosidade tecnológica com um olhar artístico. Acompanhe suas publicações para se manter atualizado com insights práticos e interessantes sobre o mundo da tecnologia.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK