Sancetur recua e coloca em dúvida operação total das linhas de ônibus da Transwolff em São Paulo

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Sancetur, empresa escolhida pela Prefeitura de São Paulo para assumir emergencialmente as 133 linhas de ônibus operadas pela Transwolff, comunicou à administração municipal que não conseguirá executar o contrato de forma plena a apenas quatro dias do início previsto para a nova fase da operação.
- Por que a Sancetur comunicou recuo no contrato emergencial
- Linhas afetadas e relevância da Sancetur para 555 mil usuários
- Histórico recente da Sancetur à frente da operação dos lotes D10 e D11
- Emaranhado jurídico da Transwolff e os reflexos sobre a Sancetur
- Detalhes da Operação Fim da Linha e o impacto no sistema de transporte
- Próximos passos: licitação, recursos judiciais e o futuro da Sancetur na capital
Por que a Sancetur comunicou recuo no contrato emergencial
O aviso de impossibilidade veio por meio de ofício encaminhado à prefeitura e foi confirmado pela gestão municipal em nota oficial. O documento informa que, nas condições atuais, a companhia não conseguirá cumprir integralmente as obrigações estabelecidas no acordo emergencial. Ainda não foram divulgados detalhes sobre quais exigências técnicas, operacionais ou financeiras motivaram o recuo, mas o comunicado deixa a administração com a tarefa de buscar uma solução às vésperas da data de transição.
O contrato emergencial foi assinado depois que a prefeitura decretou a intervenção na Transwolff, companhia investigada por suspeitas de lavagem de dinheiro e favorecimento ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Desde então, a Sancetur assumiu provisoriamente a operação das rotas, cenário que deveria ser formalizado por meio do novo acordo até a conclusão de uma licitação definitiva.
Linhas afetadas e relevância da Sancetur para 555 mil usuários
As 133 linhas distribuídas nos lotes operacionais D10 e D11 conectam principalmente bairros da zona sul da capital paulista. Segundo números da própria prefeitura, cerca de 555 mil passageiros utilizam diariamente esses serviços. A interrupção ou redução de viagens traria impacto direto para trabalhadores, estudantes e demais usuários que dependem do transporte coletivo para deslocamentos diários.
Até agora, a Sancetur vinha executando essas rotas durante o período de intervenção, o que garantiu continuidade mínima do serviço. O recuo coloca em dúvida a manutenção dos horários e da frequência de partidas. Apesar disso, a prefeitura afirma que não haverá prejuízos para os passageiros nem risco de demissões entre os motoristas e demais funcionários que hoje operam os ônibus nos dois lotes.
Histórico recente da Sancetur à frente da operação dos lotes D10 e D11
A Sancetur passou a atuar na rede paulistana em abril de 2024, logo após a deflagração da Operação Fim da Linha pelo Ministério Público de São Paulo. Naquele momento, a administração municipal decretou intervenção na Transwolff, retirou a diretoria da empresa e transferiu a gestão operacional dos veículos para a interventora. Desde então, a Sancetur coordena frotas, motoristas e cronogramas das linhas sob supervisão da prefeitura.
O contrato emergencial recém-assinado deveria formalizar essa atuação transitória. Nele, a empresa se comprometia a manter a frota em funcionamento até que fosse concluído um processo licitatório para escolher um novo concessionário permanente. Com o recuo, a prefeitura declara que “continua adotando todas as medidas necessárias” para publicar o edital de concessão, mas não especificou se pretende convidar outra operadora ou renegociar com a própria Sancetur.
Emaranhado jurídico da Transwolff e os reflexos sobre a Sancetur
O cenário se complexifica por decisões judiciais divergentes sobre o futuro da concessão. Em dezembro de 2025, a Vara de Crimes Tributários e Organizações Criminosas determinou a suspensão das atividades da Transwolff, manteve o afastamento de seus antigos gestores e autorizou a prefeitura a vender antecipadamente bens apreendidos da companhia. A medida visa impedir suposta rearticulação do grupo empresarial investigado.
No mesmo mês, porém, a 14ª Vara da Fazenda Pública emitiu liminar que suspende o decreto municipal de caducidade dos contratos com a Transwolff. O juiz avaliou que o município não observou todos os trâmites administrativos e, por isso, ordenou que a concessão fosse mantida até análise definitiva do mérito. A liminar também proibiu a prefeitura de contratar terceiros para operar os lotes, o que atinge diretamente a permanência da Sancetur.
Diante dos despachos conflitantes, a Procuradoria-Geral do Município anunciou que recorrerá para restabelecer o decreto que encerrou o vínculo com a Transwolff. Já a empresa investigada sustenta não haver provas de ligação com atividades ilícitas e segue recorrendo para recuperar a gestão das linhas.
Detalhes da Operação Fim da Linha e o impacto no sistema de transporte
Deflagrada em abril de 2024 pelo Ministério Público de São Paulo, a Operação Fim da Linha identificou indícios de que recursos vinculados ao PCC teriam sido injetados na Transwolff e em outra viação, a UPBus, para capitalização. A investigação aponta o uso de empresas de fachada, “laranjas” e CNPJs fantasmas como mecanismos de lavagem de dinheiro. Como resposta administrativa, a prefeitura abriu processo para rescindir os contratos das duas operadoras em dezembro daquele ano.
Embora a UPBus também esteja sob suspeita, foi sobre a Transwolff que recaíram as intervenções mais severas, culminando na nomeação da Sancetur como gestora provisória. Para o sistema de transporte paulistano, as revelações do Ministério Público expuseram a vulnerabilidade dos processos de fiscalização sobre concessionários e pressionaram a administração municipal a acelerar uma nova licitação.
Próximos passos: licitação, recursos judiciais e o futuro da Sancetur na capital
A prefeitura afirma que o edital de concessão dos lotes D10 e D11 está em fase final de elaboração. Enquanto o documento não é publicado, a administração garante a continuidade do atendimento aos usuários e o pagamento de salários e benefícios de motoristas e cobradores. O recuo da Sancetur, porém, torna urgente a definição de um plano B que impeça qualquer falha operacional.
Do ponto de vista jurídico, o município deverá apresentar recurso contra a liminar que manteve a Transwolff como concessionária e contra-argumentar que o processo de caducidade observou todos os ritos legais. A decisão de segunda instância poderá influenciar diretamente a permanência ou não da Sancetur, uma vez que a empresa foi contratada justamente para suprir a lacuna deixada pela Transwolff.
Já a Sancetur precisa esclarecer quais fatores impossibilitam o cumprimento integral do contrato emergencial. Caso apontem questões de infraestrutura, frota ou financiamento, a prefeitura poderá rediscutir prazos e condições contratuais; se forem entraves judiciais, a solução dependerá do resultado dos recursos já anunciados.
Até que a licitação definitiva ocorra, passageiros, funcionários e operadores do sistema acompanham a evolução dos processos judiciais que envolvem a Transwolff, bem como a definição da estratégia que a Sancetur adotará para manter ou não sua participação nos lotes D10 e D11.

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