Samba-enredo: como os desfiles transformaram canções em manifesto político contra a ditadura

Samba-enredo: como os desfiles transformaram canções em manifesto político contra a ditadura
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O samba-enredo dos desfiles do Rio de Janeiro, mais do que animar arquibancadas, serviu de plataforma para denunciar violações de direitos e reivindicar liberdade no período de transição do regime militar para a redemocratização. Essa dimensão política foi mapeada pelo sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, que examina os enredos do Grupo Especial na década de 1980 em sua tese “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Índice

O samba-enredo como voz coletiva de contestação

Ao analisar a história recente do carnaval carioca, Reduzino identifica o samba-enredo como um “enunciado” em que comunidades inteiras dialogam com o país. Diferentemente de manifestações de artistas individuais, a construção de um enredo envolve meses — às vezes um ano — de reuniões entre compositores, carnavalescos, alas comunitárias e diretoria. Nesse processo, críticas à censura, à tortura e à falta de eleições diretas ganharam forma poética e percussiva, tornando a Marquês de Sapucaí um palco em que milhares de vozes cantavam mensagens de alcance nacional.

Pesquisa acadêmica revela bastidores de resistência

O recorte temporal da pesquisa de Reduzino vai de 1980 a 1989, período que abrange o fim formal da ditadura (1964-1985), a campanha Diretas Já (1984) e a eleição presidencial de Fernando Collor (1989). No total, foram catalogados enredos de todas as escolas que desfilaram no Grupo Especial do Rio de Janeiro, com especial atenção a letras de samba, sinopses distribuídas às comunidades e registros audiovisuais do Sambódromo. A partir desse material, o autor demonstra que temas vinculados à luta por democracia apareceram de forma recorrente, mesmo sob vigilância do aparato repressivo.

Samba-enredo, Diretas Já e o contexto sociopolítico

Durante a campanha Diretas Já, o samba-enredo assumiu caráter mobilizador. Letras clamavam pelo direito ao voto popular em plena avenida; alegorias traziam referências simbólicas à liberdade; e alas coreografadas encenavam opressão e esperança. Mesmo após a abertura política, a pauta continuou presente nos desfiles, refletindo frustrações populares e reforçando a necessidade de participação cidadã. O ciclo se estendeu até 1989, quando a eleição de Collor marcou o primeiro presidente escolhido diretamente após o golpe de 1964. Ainda assim, o trabalho de Reduzino mostra que as escolas não se esgotaram em exaltar a conquista; elas mantiveram postura crítica, questionando diferenças sociais e raciais.

Racismo estrutural e repressão às comunidades do samba-enredo

O estudo evidencia que a repressão não se limitou ao conteúdo político. Por se originarem de territórios majoritariamente negros e periféricos, as agremiações sofreram dupla perseguição: pela contestação ao regime e por carregarem identidades afro-brasileiras. Instrumentistas, compositores e foliões foram enquadrados com base no Código de Vadiagem, dispositivo da Lei das Contravenções Penais de 1941. Bastava a ausência de carteira de trabalho para justificar condução à delegacia. Esse mecanismo, herdado de décadas anteriores, prolongou a criminalização do lazer negro mesmo após o retorno dos civis ao poder.

Jogo do bicho, poder público e o estigma sobre o samba-enredo

Outro eixo identificado por Reduzino é a associação recorrente entre escolas de samba e banqueiros do jogo do bicho. A presença desses financiadores se intensificou na ditadura, quando o evento ganhou projeção internacional e maiores custos de produção. Apesar de o bicheiro ser visto em gabinetes oficiais, a narrativa de criminalização recaiu quase exclusivamente sobre as agremiações, reforçando concepções preconceituosas de que a cultura popular seria intrinsecamente ligada à contravenção. O sociólogo argumenta que tal leitura marginaliza a relevância artística e política do samba-enredo, desviando a atenção de seus méritos estéticos e de seu papel no debate público.

Do arquivo acadêmico à tela: documentário amplia a discussão

Os resultados da pesquisa inspiraram a série documental “Enredos da Liberdade”, disponibilizada em cinco episódios em plataforma de streaming. Produzida pela Globo, a obra utiliza imagens de arquivos de desfiles, entrevistas com intérpretes de samba e depoimentos de líderes comunitários para ilustrar as conclusões do estudo. Ao migrar para o audiovisual, o projeto atinge públicos além do universo acadêmico, reforçando o entendimento de que o carnaval pode ser analisado como documento histórico e forma de engajamento cívico.

As entidades centrais no processo

Entre as instituições observadas, destaca-se a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, onde Reduzino atua no Departamento Cultural. Outras agremiações do Grupo Especial, como Beija-Flor, Portela, Salgueiro e Grande Rio, entram no corpus da investigação ao lado de organismos oficiais de repressão, exemplificados pelo extinto Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Na esfera acadêmica, a Unicamp sedia a tese de doutorado, enquanto a Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro figura como empregadora do pesquisador, o que demonstra sua inserção em redes de ensino formal e de cultura popular.

Indicadores de militância nos enredos analisados

No levantamento quantitativo mencionado pelo autor, apenas quatro desfiles de um total de 140 entre 1970 e 1979 apresentaram exaltação ufanista ao regime militar. A partir de 1980, percebe-se tendência inversa: crescimento de temas centrados em doutrinas libertárias, figuras históricas que lutaram contra a escravidão ou símbolos de resistência. Mesmo quando abordavam passagens da história oficial, as escolas introduziam camadas críticas, recontando feitos do Brasil sob ótica das periferias pretas. Esse dado relativiza a tese de que as agremiações teriam sido uniformemente “adesistas” aos governos autoritários.

Impactos na percepção pública do carnaval

A combinação de repressão, racismo estrutural e estigmatização contravencional influenciou a forma como a sociedade brasileira interpreta o carnaval. Por um lado, a festa se consolidou como expressão nacional; por outro, suas matrizes negras foram invisibilizadas ou enquadradas como ameaça à ordem. Ao enfatizar esse paradoxo, o estudo de Reduzino convida a reconsiderar o samba-enredo como instrumento de memória política — não mero entretenimento. O pesquisador ressalta que reconhecer essa trajetória é passo crucial para valorizar saberes da comunidade do samba e combater narrativas que minimizam sua cidadania.

O trabalho “Enredos da Liberdade” conclui que leitura atenta aos desfiles dos anos 1980 revela camadas de resistência que vão além do espetáculo. O próximo momento de visibilidade desse acervo de pesquisa está nos novos desfiles do Grupo Especial, cuja elaboração já ocorre nas quadras cariocas e chegará à Avenida em fevereiro do próximo ano, mantendo vivo o diálogo entre arte, história e política.

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