Rodolpho Parigi leva alienígenas, látex e anatomia híbrida à Galeria Nara Roesler
Um encontro improvável entre criaturas extraterrestres, silhuetas humanas em mutação e acessórios de látex marca a volta de Rodolpho Parigi ao circuito expositivo paulistano. A partir de 31 de março, o artista apresenta uma mostra individual na Galeria Nara Roesler, na avenida Europa, 655, onde permanece aberta até 9 de maio. Distribuídas por vários ambientes, as novas telas fundem referências históricas, biológicas e pop para investigar, em alta voltagem cromática, o que ainda pode ser considerado corpo.
- Rodolpho Parigi articula volume pictórico e ilusão tátil
- Da planície de Tarsila ao Xenomorfo de Ridley Scott: como Rodolpho Parigi costura referências
- Látex, drag e autoimagem: personas que atravessam Rodolpho Parigi
- Topografia interna do corpo: sangue, ossos e botânica fantasmática
- O duplo autorretrato: nariz remodelado e face derretida
- Processo intuitivo e herança surrealista
- Ney Matogrosso e Secos & Molhados: próxima parada de Rodolpho Parigi
- Visitação, horários e entrada gratuita
Rodolpho Parigi articula volume pictórico e ilusão tátil
Conhecido por pinceladas que sugerem relevo, Rodolpho Parigi insiste em provocar o olhar do visitante: embora os traços tragam definição tridimensional, a fronteira entre figura e fundo dissolve-se. Nas cenas, braços brotam de fibras orgânicas, superfícies metálicas reluzem ao lado de tecidos enrugados e órgãos se reorganizam como peças de um quebra-cabeça surreal. O artista, que reside em Nova York, mantém o gesto de esculpir com tinta, reforçando um jogo de luz que acentua a dúvida sobre onde começa a matéria e onde termina a abstração.
Da planície de Tarsila ao Xenomorfo de Ridley Scott: como Rodolpho Parigi costura referências
Logo na primeira sala, paisagens inspiradas nas cores tropicais de Tarsila do Amaral recebem o Xenomorfo criado por Ridley Scott para o filme “Alien” (1979). Essa justaposição amplia um repertório que inclui “O Impossível”, escultura emblemática da surrealista brasileira Maria Martins, e figuras robustas de Victor Brecheret, pioneiro do modernismo no país. Ao colocar essas entidades lado a lado, Parigi sugere um diálogo transversal entre arte acadêmica, ficção científica e vanguarda latino-americana, sublinhando como a história visual opera mais como laboratório do que como linha cronológica.
Látex, drag e autoimagem: personas que atravessam Rodolpho Parigi
Entre os elementos recorrentes, as luvas de látex que remetem à drag queen Fancy Violence — avatar performático adotado pelo próprio artista em sessões fotográficas e ações ao vivo — ganham destaque. Em um quadro circular que simula espelho, luvas vermelhas exploram o reflexo enquanto um globo ocular solitário vigia a cena, esvaziada de rosto. Noutra pintura, luvas pretas protegem braços maciços escondidos sob dobras brilhantes. Essas escolhas sublinham a investigação de Parigi sobre identidades não binárias, tema que permeia sua trajetória e emerge como motor para transfigurar gênero, pele e desejo.
Topografia interna do corpo: sangue, ossos e botânica fantasmática
A série “Corpo” expande a anatomia além do literal. Sementes de romã, convertidas em glóbulos vermelhos, circulam por veias formadas por caules de plantas; colunas vertebrais misturam-se a troncos cujos anéis denunciam a idade. Em outra composição, um crânio descansa ao lado de um molusco viscoso cujas fibras interiores giram em espirais, evocando tanto diagramas científicos quanto sonhos aquáticos. O calor das camadas inferior da Terra surge em gradientes laranjas e vermelhos, onde a silhueta humana se confunde com criaturas quadrúpedes. Parigi alterna áreas lixadas, que achatam a imagem, e pinceladas espessas, que saltam da superfície, criando ritmo entre densidade e desgaste.
O duplo autorretrato: nariz remodelado e face derretida
Dois retratos funcionam como reflexão sobre passagem do tempo e manipulação da própria carne. Na composição horizontal, uma máscara prateada escorre enquanto segura um cigarro aceso, sugerindo erosão identitária. No painel vertical, o antigo nariz proeminente do artista — removido cirurgicamente anos atrás — é injertado em busto greco-romano, acompanhado por um olho extraído de atlas médico. Ao cotejar as duas imagens, Parigi confronta memória, cirurgia plástica e ideal clássico, apontando para a maleabilidade da fisionomia contemporânea.
Processo intuitivo e herança surrealista
Sem estudos preparatórios rígidos, o pintor decide, durante a execução, o que permanece e o que desaparece do quadro. Essa liberdade se alinha ao automatismo defendido por surrealistas nos anos 1920 — corrente na qual Maria Martins se insere — e garante que a própria tela dite o rumo da narrativa visual. A dinâmica de adicionar e remover pigmento cria palimpsestos cromáticos, permitindo que fantasmas de camadas anteriores fiquem visíveis, como fósseis de ideias descartadas.
Ney Matogrosso e Secos & Molhados: próxima parada de Rodolpho Parigi
A agenda do artista inclui ainda o término de um retrato de Ney Matogrosso, inspirado na capa do álbum de estreia do grupo Secos & Molhados (1973). A obra, concebida como uma bandeja circular, será apresentada no Solar dos Abacaxis, no Rio de Janeiro. Matogrosso, célebre por performances que desafiam normas de gênero desde os anos 1970, ressoa com a pesquisa de Parigi sobre corporalidade fluida, ampliando a constelação de personagens que rompem códigos estabelecidos.
Visitação, horários e entrada gratuita
A exposição pode ser vista de segunda a sexta, das 10h às 19h, e aos sábados das 11h às 15h. A abertura acontece em 31 de março, a partir das 18h, e a temporada encerra-se em 9 de maio. O acesso é gratuito.
Até lá, a Galeria Nara Roesler exibe as pinturas onde ETs, látex e anatomia híbrida evidenciam a proposta de Rodolpho Parigi de tensionar os sistemas que definem o humano.

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