Retratistas do Morro: projeto fotográfico da favela mineira alcança seis países e celebra 10 anos de memória

Retratistas do Morro nasceu em 2015 dentro do Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, com o objetivo de conservar e divulgar o vasto acervo dos fotógrafos João Mendes e Afonso Pimenta; dez anos depois, o trabalho já participou de exposições em seis países e contabiliza cerca de 250 mil imagens que registram seis décadas de vida, cultura e memória de uma das maiores favelas de Minas Gerais.

Índice

Retratistas do Morro: origem e missão no Aglomerado da Serra

O ponto de partida do Retratistas do Morro está diretamente ligado ao território onde foi concebido. Criado em 2015 pelo artista visual, pesquisador e ativista cultural Guilherme Cunha, o projeto se estruturou dentro do Aglomerado da Serra, na região Centro-Sul da capital mineira. Desde o início, a missão declarada foi clara: conservar, pesquisar, curar e restaurar digitalmente as fotografias produzidas por João Mendes e Afonso Pimenta a partir do fim da década de 1960. Ao documentar aniversários, bailes, celebrações religiosas e cenas do cotidiano, os dois fotógrafos se tornaram, de fato, cronistas visuais da comunidade.

A proposta ultrapassa a simples guarda de negativos. Além de proteger o material físico, a equipe se dedica a organizar, catalogar e disponibilizar as imagens ao público, fortalecendo a memória coletiva dos moradores da favela. Essa abordagem colaborativa transformou o acervo em um ativo cultural, gerando reconhecimento local e internacional.

Acervo de 250 mil imagens preserva seis décadas de história

O coração do projeto é um conjunto de aproximadamente 250 mil fotogramas, formado por negativos em preto e branco e coloridos, além de slides. Esses registros aparecem em diversos formatos: 6 × 6, 120, 35 mm, meio quadro 35 mm e diapositivos. Essa variedade reflete tanto a trajetória técnica dos fotógrafos quanto a evolução dos equipamentos usados ao longo do tempo.

João Mendes e Afonso Pimenta iniciaram a documentação no fim dos anos 1960 e mantiveram a produção de maneira contínua por mais de 60 anos. Ao captarem batizados, fotos de formatura, retratos de família e eventos populares, eles construíram um painel extenso da vida de trabalhadores, populações negras e moradores de periferia. O volume expressivo de imagens tornou imprescindível a criação de um processo formal de catalogação, tarefa hoje coordenada pelo núcleo de pesquisa do Retratistas do Morro.

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Segundo a equipe, o acervo não guarda apenas rostos; ele condensa histórias, contextos e mudanças sociais que marcam o desenvolvimento urbano de Belo Horizonte. Cada negativo passa por restauração digital, etapa que amplia a durabilidade do material e permite que os moradores reconheçam a si mesmos e a seus familiares em exposições e mostras.

Projeção internacional: da favela de Belo Horizonte a seis países

Ao alcançar seu décimo ano de existência em 2025, o Retratistas do Morro soma um percurso incomum para iniciativas que nascem em comunidades periféricas. França, Espanha, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra e China figuram na lista de países que já receberam as fotografias. Esse resultado se consolidou com a participação em 20 exposições apenas no ano anterior, englobando mostras individuais, coletivas e eventos produzidos diretamente pela própria equipe do projeto.

Para os fundadores e para os fotógrafos, o avanço além das fronteiras nacionais reflete o interesse crescente por narrativas produzidas dentro das favelas brasileiras. Guilherme Cunha destaca que o reconhecimento externo confirma a relevância de artistas que, muitas vezes, ficaram à margem dos circuitos tradicionais de arte. Ao levar imagens do cotidiano de trabalhadores e populações negras a galerias estrangeiras, o projeto lança luz sobre histórias frequentemente invisibilizadas.

A trajetória de João Mendes e Afonso Pimenta ganha visibilidade global

Os protagonistas do acervo também vivenciaram, pela primeira vez, a experiência de acompanhar seu trabalho fora do Brasil. Afonso Pimenta, que foi pugilista na juventude e já havia viajado ao exterior para competições, atravessou o oceano como fotógrafo para presenciar as aberturas de exposições na França e na China. Nessa última, a comitiva visitou seis cidades, concedeu entrevistas à imprensa local e inaugurou sucessivas mostras.

João Mendes compartilhou da mesma emoção. Presente nas cerimônias de abertura em território francês e chinês, ele ressaltou a surpresa diante do alcance internacional. Para ambos, ver as imagens geradas nas vielas do Aglomerado da Serra percorrerem museus e centros culturais em outros continentes reforça a importância do registro fotográfico como forma de memória.

Segundo Guilherme Cunha, o circuito de 20 exposições em um único ano evidencia o “movimento de reconhecimento” da obra de João e Afonso. Ao longo de seis décadas, os dois formaram um conjunto de imagens que documenta a vida de trabalhadores brasileiros e populações periféricas, comprovando a autoria e a relevância dos fotógrafos dentro e fora do país.

Exposição Território de Memórias leva fotografias gigantes às ruas do morro

Para celebrar a primeira década do Retratistas do Morro, a equipe lançou, no fim do ano passado, a mostra “Retratistas do Morro – Território de Memórias”. Diferentemente de outras exibições realizadas em espaços formais, esta é a primeira grande exposição montada dentro do próprio Aglomerado da Serra, onde o projeto germinou.

Seis fotografias, impressas em formato “outdoor” e medindo até 9 metros de altura, foram instaladas em pontos simbólicos da comunidade e podem ser vistas até o fim do ano. As imagens expostas são:

• Galeria 1 – Adaílson Pereira da Silva no Baile Soul do DCE, de Afonso Pimenta (Rua Jefferson Coelho da Silva, 1089, Marçola – Praça do Cardoso).
• Galeria 2 – Elana dos Santos no Baile da Italiana, de Afonso Pimenta (Rua Jefferson Coelho da Silva, 1130 – Praça do Cardoso).
• Galeria 3 – Sônia Cristina da Silva, de João Mendes (Rua Jefferson Coelho da Silva, 1130 – Praça do Cardoso).
• Galeria 4 – Aniversário de 6 anos da Renatinha, de Afonso Pimenta (Depósito do Paulo – Rua Serenata, 46).
• Galeria 5 – Série Becas, de João Mendes (Rua Binário, 245, Santana do Cafezal).
• Galeria 6 – João Cardoso dos Santos, de João Mendes (Rua Binário, 254, Santana do Cafezal).

Ao distribuir as obras em locais abertos, o projeto amplia o acesso da população e reforça o compromisso de manter viva a memória coletiva no mesmo território que deu origem às imagens.

Próximos passos: destaque no programa Rolê nas Gerais

O conteúdo do Retratistas do Morro também chegará à televisão. O programa Rolê nas Gerais, transmitido pela TV Globo em Minas, exibirá neste sábado (21) um episódio dedicado à importância do registro e da conservação da memória em comunidades de Belo Horizonte. A participação de João Mendes e Afonso Pimenta, bem como depoimentos sobre o acervo, oferece ao público mineiro mais uma oportunidade de conhecer o projeto e seu impacto cultural.

Com a exibição marcada, a equipe reforça a expectativa de ampliar o alcance e inspirar outras iniciativas de resgate histórico em favelas de todo o país. Até lá, as seis fotografias gigantes continuam expostas no Aglomerado da Serra, onde moradores e visitantes podem contemplar, em escala monumental, mais de meio século de histórias captadas pelas lentes de dois fotógrafos que transformaram memórias individuais em patrimônio coletivo.

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