Programa de cidadania beninense atrai descendentes da diáspora africana e reforça memória histórica

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cidadania beninense
Um fluxo crescente de descendentes da diáspora africana tem cruzado o Atlântico para reivindicar a cidadania beninense por meio do programa governamental My Afro Origins. Trata-se de uma iniciativa que, ao ligar histórias familiares a um passado marcado pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, pretende fortalecer a identidade nacional do Benin, promover o turismo de memória e reafirmar laços culturais entre o país da África Ocidental e comunidades espalhadas pelo mundo.
- Quem são os primeiros beneficiários da cidadania beninense
- Como funciona o programa My Afro Origins de cidadania beninense
- Projetos de memória histórica ligados à cidadania beninense
- Envolvimento de personalidades internacionais no incentivo à cidadania beninense
- Contexto político e próximos passos para a cidadania beninense
- Importância de Ouidah na trajetória da cidadania beninense
Quem são os primeiros beneficiários da cidadania beninense
A criadora de conteúdo Isaline Attelly, natural da Martinica, figura entre os nomes mais emblemáticos da primeira leva de naturalizações. Após residir quase um ano no Benin, Attelly descobriu que sua bisavó materna nascera no território que corresponde ao país atual e fora traficada durante o auge da escravidão. A confirmação, obtida por registros genealógicos, levou-a a solicitar a cidadania beninense, concedida em uma cerimônia oficial que selou o retorno simbólico de sua linhagem à terra de origem.
Outra personalidade destacada é a cantora norte-americana Ciara, agraciada com o novo passaporte em julho de 2025. A artista se apresentou recentemente em Ouidah — cidade historicamente associada ao embarque de cativos — durante um festival anual dedicado ao vodu, estendendo o espetáculo até as três da madrugada. O evento marcou o primeiro retorno de uma beneficiária célebre ao local que concentra parte dos esforços de ressignificação histórica do governo.
O quarterback Russell Wilson, marido de Ciara, acompanhou o festival e declarou expectativa de seguir o mesmo caminho “muito em breve”. Embora ainda não tenha recebido o documento, Wilson representa o potencial de expansão do programa na cena esportiva norte-americana.
Como funciona o programa My Afro Origins de cidadania beninense
My Afro Origins é a engrenagem central da política do presidente Patrice Talon para elevar o perfil internacional do Benin. O processo começa com a comprovação de ascendência ligada ao território beninense, etapa que pode envolver pesquisa genealógica e análise documental. Uma vez confirmada a ligação, o solicitante ingressa em um trâmite de naturalização que culmina na concessão formal da cidadania beninense.
As primeiras cerimônias ocorreram em 2024 e se articulam a um calendário mais amplo de ações culturais e turísticas. O governo tem utilizado esses eventos para divulgar os investimentos em infraestruturas de memória e abrir espaço a discursos que incentivam a reconexão identitária. O próprio presidente Talon compareceu a sessões de entrega de passaportes, reforçando o caráter simbólico da política.
A iniciativa não se restringe a figuras públicas. Pessoas anônimas, espalhadas por territórios como o Caribe, as Américas e a Europa, também compõem o grupo inicial de naturalizados. A diversidade geográfica sinaliza a amplitude das rotas percorridas pelo tráfico de escravos que partiu do Golfo do Benin.
Projetos de memória histórica ligados à cidadania beninense
A estratégia de Talon vai além da emissão de documentos. O governo anunciou a construção de uma nova Porta sem Retorno em Ouidah, ponto de partida frequente das embarcações que transportavam pessoas escravizadas. O monumento, ainda em fase de execução, pretende servir como espaço de reflexão para visitantes e recém-naturalizados.
Outro projeto em andamento é a réplica de um navio do século XVIII, desenhada para abrigar esculturas representando quase 300 cativos. A embarcação cenográfica busca traduzir a experiência claustrofóbica dos porões, aproximando o público de uma narrativa frequentemente relatada apenas em textos históricos.
No mesmo eixo de memória, o governo planeja inaugurar, ainda este ano, o Museu Internacional da Memória e da Escravidão. O futuro espaço ocupará a antiga residência de Francisco Félix de Souza, figura proeminente no comércio de pessoas escravizadas nos séculos XVIII e XIX. Ao selecionar a casa de um traficante histórico, a administração pretende expor as contradições e responsabilidades locais naquele período.
Envolvimento de personalidades internacionais no incentivo à cidadania beninense
Para maximizar a visibilidade global, o presidente Talon convidou o cineasta norte-americano Spike Lee e a produtora Tonya Lee Lewis para atuarem como embaixadores do programa junto à comunidade afro-americana. Os dois aceitaram a missão em 2024 e passaram a divulgar, em entrevistas, a importância de “voltar para casa” e conhecer as raízes no Benin.
A fala de Lee, reproduzida em canal de televisão internacional, reforçou o apelo emocional da campanha. O envolvimento de celebridades amplia o alcance da proposta e sinaliza ao público externo que o país está preparado para receber visitantes interessados em turismo histórico, cultural e genealógico.
Além do cinema e da música, autoridades locais enxergam no esporte outra porta de entrada. A possível naturalização de Russell Wilson exemplifica o diálogo com o mercado esportivo norte-americano, capaz de gerar repercussão midiática e atrair novos participantes.
Contexto político e próximos passos para a cidadania beninense
Patrice Talon governa o Benin desde 2016 e, segundo o cronograma oficial, encerrará um mandato total de dez anos após a eleição presidencial marcada para abril. No mês anterior, o presidente sobreviveu a uma tentativa de golpe, episódio que não alterou o andamento do programa de cidadania beninense nem os investimentos nos projetos de memória.
Até o início do segundo semestre de 2025, as obras da Porta sem Retorno e da réplica do navio escravista permanecem em construção. O governo mantém a previsão de abrir o Museu Internacional da Memória e da Escravidão até o fim do ano corrente. Esses marcos compõem a próxima fase de consolidação da política, capaz de ampliar o fluxo de solicitantes e de turistas.
A perspectiva imediata gira em torno da eleição presidencial. Observa-se grande expectativa quanto à manutenção dos projetos após a transição de governo, já que o programa My Afro Origins constitui uma das vitrines da gestão Talon. A continuidade ou expansão da iniciativa dependerá, portanto, do resultado das urnas e das prioridades do futuro chefe de Estado.
Importância de Ouidah na trajetória da cidadania beninense
Ouidah desponta como o principal ponto de convergência das ações. A cidade, descrita pelo governo como um “ponto de partida comum” de navios escravistas, acolheu as cerimônias de naturalização e o festival de vodu que recebeu Ciara. Com obras monumentais em curso, o local tende a consolidar-se como núcleo do turismo de memória e da celebração identitária.
Ao concentrar atividades oficiais em Ouidah, Talon conecta o passado doloroso da escravidão com um presente voltado à reparação simbólica e ao ressurgimento cultural. A escolha reforça a narrativa de retorno e reaproximação que sustenta o programa de cidadania beninense.
A próxima data observada por interessados no tema é a eleição presidencial de abril, que definirá a continuidade da política de naturalização e dos projetos de memória previstos para o decorrer de 2025.

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