Profissionais destacam trajetórias e obras que marcaram suas carreiras no mercado editorial

Profissionais destacam trajetórias e obras que marcaram suas carreiras no mercado editorial

O mercado editorial brasileiro passa por um período de crescimento no número de empresas, segundo levantamento da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Em meio a esse cenário, três profissionais com atuações distintas — um editor autônomo, a sócia de uma editora independente e um tradutor com extensa produção — relatam como encontraram propósito na cadeia do livro, quais obras lhes são mais caras e de que forma lidam com as exigências cotidianas da profissão.

Índice

Mercado editorial em expansão impulsiona novas trajetórias

Os dados da CBL mostram que, nos últimos anos, o setor livreiro nacional registrou um aumento de companhias atuando na produção, comercialização e difusão de títulos. Tal expansão cria oportunidades para carreiras que, embora tradicionais, demandam constante atualização. É dentro desse contexto que o editor autônomo Hugo Maciel de Carvalho, a editora Florencia Ferrari e o tradutor Adail Sobral refletem sobre suas jornadas, cada qual exemplificando como a multiplicidade de funções sustenta o ecossistema editorial.

Hugo Maciel de Carvalho: do Direito ao trabalho no mercado editorial

Hugo Maciel de Carvalho formou-se em Direito e exerceu a advocacia por certo tempo. Ainda assim, decidiu mudar de rota, abandonando o escritório para se dedicar à produção de livros. Hoje atua como editor autônomo e publisher, acumulando participação em inúmeros projetos cujo número exato já perdeu de vista. Ver o próprio nome nos créditos de obras que julga “incríveis” representa, para ele, a confirmação de que contribuiu para materializar ideias que circulam, são discutidas e mantêm relevância na sociedade.

Nesse processo de transição, Maciel abriu um selo editorial pelo qual estreou com a publicação do poema “A Terra Árida”, de T. S. Eliot, traduzido por Gilmar Leal Santos. O título, considerado pelo profissional um de seus favoritos, marcou o início de sua atuação como publisher e reforçou a intenção de selecionar projetos intelectualmente provocativos.

Projetos marcantes e obras preferidas do editor

Ao revisar sua carreira, Hugo relaciona livros que considera fundamentais para refletir sobre estruturas sociais e tecnológicas contemporâneas. Entre eles estão “Autonorama”, de Peter Norton, e “Estrada para Lugar Nenhum”, de Paris Marx. O primeiro analisa decisões políticas responsáveis por modelar infraestruturas que afetam a vida em comunidade; o segundo aprofunda esse diagnóstico, observando mecanismos de concentração de poder e controle social. Para o editor, ler as duas obras em sequência oferece visão ampla sobre passado e futuro das políticas de mobilidade.

Outra empreitada relevante envolve o inédito “A Escada de Jacó”, romance da escritora russa Liudmila Ulítskaia. A narrativa, estruturada a partir de cartas, diários e documentos, acompanha gerações de uma família ao longo do século XX, atravessando episódios históricos como a revolução, a Segunda Guerra, o stalinismo, o exílio e a dissolução da União Soviética. Segundo Hugo, o trabalho exigiu diálogo constante entre literatura, linguística, história, música e filosofia, tornando-se um dos projetos mais desafiadores de sua trajetória.

Rotina, desafios e remuneração no mercado editorial

A rotina de preparação, revisão e edição pressupõe leitura minuciosa, verificações sucessivas e debates com autores ou casas publicadoras. Hugo relata que costuma trabalhar de madrugada, aproveitando o silêncio para identificar contradições, ajustar coesão textual e lapidar estilo. Apesar da satisfação, aponta remuneração baixa e demanda irregular, fatores que levam muitos revisores a encarar a atividade como complemento de renda. Ele ressalta que o serviço envolve bem mais do que “ler por lazer” e requer disciplina para não sucumbir a boletos acumulados em períodos de pouca encomenda.

Florencia Ferrari e o papel das editoras independentes no mercado editorial

Sócia da editora Ubu, Florencia Ferrari enxerga as casas independentes como fruto do desejo de publicar obras que seus editores admiram. A Ubu funciona, em suas palavras, como plataforma de projetos, favorecendo criação e aprendizado em parceria com designers, artistas e autores. Nesse ambiente, manter relações de trabalho colaborativas é prioridade: a empresa busca fugir de lógicas tóxicas marcadas por vigilância, competição ou excesso de controle.

Além de promover um clima saudável, Florencia defende que editoras independentes expressam posicionamento ético e político. Sem converter essa atitude em militância, a Ubu adota uma perspectiva crítica inspirada no pensamento de Michel Foucault, entendendo o ato editorial como forma de participação na esfera pública. A dirigente lembra que publicar livros também significa articular ideias, estimular debate e, em última instância, propor modos de estar no mundo.

Adail Sobral: mais de 500 traduções e lições do mercado editorial

Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Adail Sobral combina carreira acadêmica e atuação como tradutor. Desde 1981, já verteu para o português mais de 500 livros. O primeiro deles, “Atos de Fala”, de John Searle, integrou atividades de pós-graduação e não foi remunerado, prática comum em universidades à época. Entre 1985 e 1999, o profissional trabalhou exclusivamente com tradução, muitas vezes em parceria com Maria Stela Gonçalves, sua esposa até 2015.

Ao longo desses anos, Sobral se dedicou a áreas distintas. Traduções de informática sustentaram suas finanças em determinado período; posteriormente migrou para ciências humanas, vertendo textos de autores como Jean Baudrillard, Jonathan Barnes, David Harvey e Félix Guattari. Em fase seguinte, especializou-se em medicina, setor que oferecia melhor retorno financeiro.

Obras que marcaram a trajetória do tradutor

Entre os títulos que lhe proporcionaram maior satisfação estão “Herói de Mil Faces”, de Joseph Campbell, e “A Troca Simbólica e a Morte”, de Jean Baudrillard. No primeiro, Sobral aprecia a combinação de escrita literária e rigor técnico; no segundo, destaca o desafio de transcrever para a página uma conferência oral, recurso que exigiu cuidados especiais para preservar ritmo e sentido. Outra realização foi a tradução, ao lado de Maria Stela, das obras completas de Santa Teresa de Jesus. O original, datado do século XVI e distribuído em cerca de 2 mil páginas, demandou um ano de trabalho, com média de 180 páginas mensais.

Carga de trabalho, modelo de contratação e valorização

Sobral lembra que chegou a traduzir por 14 horas diárias, conciliando demandas de dois ou três clientes. Avalia que, no passado, tradutores mantinham relação quase paternalista com editoras: a remuneração era baixa e a justificativa apontava contribuições ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Hoje a prestação de serviço ocorre majoritariamente como pessoa jurídica, mas a valorização ainda enfrenta limites. Grandes editoras definem tabelas próprias de preço, enquanto casas menores possuem pouco fôlego financeiro para negociar valores superiores.

Para alcançar melhores ganhos, muitos profissionais recorrem a traduções técnicas, em que a precisão terminológica é imprescindível, ou buscam contratos com clientes estrangeiros. Nessas frentes, o retorno costuma ser mais compatível com o grau de especialização exigido.

Tradição familiar e formação de leitores

No núcleo de Hugo Maciel, a relação com livros atravessa gerações. O editor conta que o avô lhe entregou, aos 12 anos, um manuscrito para comentário em sigilo. A parceria resultou na publicação de quatro obras e permanece como motivação para, no futuro, organizar as “Obras Completas” do parente. Hoje, Hugo e a esposa mantêm o hábito de ler para o filho todas as noites, mesmo após ele já ter adquirido autonomia na leitura, reforçando a leitura como prática familiar e visita semanal a bibliotecas públicas.

Perspectivas e próximos passos no mercado editorial

A expansão de editoras e livrarias, apontada pela CBL, indica que atividades como edição, design, revisão e tradução tendem a ganhar espaço, embora ainda existam desafios na remuneração e na regularidade de demandas. Profissionais relatam satisfação em participar de projetos que disseminam conhecimento, mas reconhecem a necessidade de negociação constante para valorizar o trabalho intelectual. Segundo Adail Sobral, as melhores condições encontram-se em traduções especializadas, sobretudo para clientes de fora do país, onde a precisão técnica garante remuneração mais elevada.

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