Produção e venda de veículos recuam em janeiro: dados da Anfavea explicam causas, segmentos e impacto nos eletrificados

Produção e venda de veículos recuam em janeiro: dados da Anfavea explicam causas, segmentos e impacto nos eletrificados
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Produção e venda de veículos voltaram a registrar retração em janeiro, de acordo com o balanço mensal divulgado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A entidade informou que a produção e venda de veículos começaram 2026 em queda frente a dezembro de 2025 e, em parte, também em comparação com o ano anterior, mesmo diante de esforços para manter a demanda interna e externa aquecida.

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Produção e venda de veículos: números consolidados indicam retração significativa

O setor automotivo fabricou 159,6 mil unidades em janeiro, volume que representa recuo de 12 % quando comparado ao mesmo mês de 2025 e de 13,5 % em relação a dezembro passado. Sob a ótica comercial, 170,5 mil unidades foram licenciadas ao longo do mês, resultado 0,4 % inferior ao de janeiro de 2025 e 39 % mais baixo do que o apurado em dezembro. Segundo a Anfavea, a variação anual praticamente estável no item vendas se explica, em parte, por haver um dia útil a menos no calendário de 2026.

Embora a proximidade estatística com janeiro do ano anterior possa sugerir estabilidade, a comparação mês a mês evidencia a força da desaceleração, especialmente se considerado que dezembro tradicionalmente concentra ações promocionais e liquidações de estoque. A soma de fatores, como menor ritmo de produção, redução de incentivos fiscais pontuais e comportamento cauteloso do consumidor, contribuiu para o cenário menos favorável observado no primeiro mês do ano.

Desempenho por segmento mostra avanço de leves e forte queda de pesados

Ao detalhar a produção e venda de veículos por categorias, a Anfavea destacou comportamentos distintos entre automóveis, comerciais leves e pesados. Nos veículos de passeio, a venda avançou 1,4 % sobre janeiro de 2025, mantendo-se como o principal sustentáculo do volume total licenciado. Nos comerciais leves, utilizados sobretudo em operações urbanas e de distribuição, o crescimento foi ainda maior, de 3 %.

O quadro muda ao se analisar ônibus e caminhões. As vendas de ônibus despencaram 33,9 % na comparação anual, enquanto a comercialização de caminhões caiu 31,5 %. Essa retração dos pesados afeta diretamente a cadeia de suprimentos, pois impacta setores como o de autopeças e componentes de maior valor agregado, além de sinalizar menor ritmo de investimentos em renovação de frotas e transporte de carga.

A diferença de desempenho entre leves e pesados também reflete políticas públicas específicas. Enquanto programas de crédito procuram estimular a compra de caminhões — caso do Move Brasil —, subsídios anteriores concentraram-se em veículos de menor porte, como no Carro Sustentável, que zerou o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para modelos de entrada eficientes. Ainda assim, os resultados de janeiro mostram que o impulso ainda não foi suficiente para reverter a inércia negativa nos segmentos de maior tonelagem.

Mercado de eletrificados ganha força e alcança participação recorde nas vendas

Mesmo em ambiente de retração geral, o licenciamento de modelos com algum tipo de eletrificação atingiu novo recorde histórico. Segundo a entidade, os eletrificados responderam por 16,8 % de todos os veículos vendidos, proporção nunca antes registrada no país. Desse universo, aproximadamente 27 mil unidades foram emplacadas, sendo 9,6 mil produzidas em território nacional, o que confere participação de 35 % à fabricação local.

O avanço dos eletrificados demonstra mudança no perfil de demanda e na estratégia das montadoras. Empresas que atuam em regime de montagem simplificada, como a chinesa BYD — citada pela Anfavea como beneficiária até então da isenção de imposto para kits de veículos desmontados —, aproveitaram a lacuna regulatória para ampliar presença no mercado brasileiro. Contudo, o fim dessa isenção a partir de janeiro é apontado pela entidade como estímulo à ampliação do conteúdo local, elevando complexidade industrial e gerando empregos em solo nacional.

A participação recorde também pressiona a cadeia produtiva a expandir investimentos em infraestrutura de recarga e em fornecimento de componentes específicos, como baterias, motores elétricos e sistemas de gestão de energia. A curto prazo, a Anfavea entende que a maior fatia dos eletrificados veio de modelos híbridos ou híbridos plug-in, mas a tendência é que soluções totalmente elétricas cresçam na medida em que a rede de recarga evolua.

Exportações caem 18,3 % e demanda argentina segue no radar da indústria

No comércio exterior, a indústria embarcou 25,9 mil unidades em janeiro, volume 18,3 % menor do que o de igual mês de 2025. A retração foi atribuída a uma redução de 5 % na demanda argentina, principal destino dos veículos brasileiros no exterior. Apesar da queda anual, os embarques mostraram avanço de 38,3 % em relação a dezembro, indicando certo alívio pontual nas linhas de produção destinadas ao mercado externo.

A relevância da Argentina no fluxo de exportações reforça a necessidade de monitorar de perto políticas econômicas do país vizinho que possam impactar a importação de automóveis e autopeças brasileiros. Para a Anfavea, qualquer sinal de desaceleração continuada na demanda argentina exige atenção, pois influi diretamente nas projeções de produção e receita cambial do setor.

Programas governamentais e medidas regulatórias moldam o cenário de produção e venda de veículos

O presidente da Anfavea, Igor Calvet, detalhou durante a coletiva os efeitos de decisões recentes do governo sobre o desempenho industrial. A não prorrogação da isenção de impostos para importação de kits SKD (veículos parcialmente montados) foi recebida com entusiasmo pela entidade, que entende a medida como passo para aprofundar o conteúdo nacional e sofisticar as linhas de montagem. Empresas que operavam nesse modelo, como a BYD, devem readequar suas operações diante da mudança tributária.

Outro ponto abordado foi o Carro Sustentável, política que zerou o IPI para veículos de entrada produzidos no Brasil, desde que ostentem alta eficiência energética. O programa impulsionou o emplacamento de 282 mil unidades, desempenho 22 % superior ao registrado antes da vigência do incentivo. Ainda assim, a Anfavea não acredita em renovação da iniciativa, pois o IPI tem horizonte de extinção com a reforma tributária programada para 2027.

Quanto ao Move Brasil, linha de crédito criada para facilitar a compra de caminhões, a indústria aguarda reflexos concretos nos meses de fevereiro e março. Caso o financiamento atraia transportadoras e autônomos, o impacto poderá reduzir a forte queda verificada nas vendas de pesados em janeiro.

Perspectivas monitoradas pela Anfavea para os próximos meses

Com a produção e venda de veículos iniciando o ano em nível inferior ao desejado, a Anfavea mantém atenção a alguns vetores decisivos. Entre eles, o comportamento do consumidor interno em meio ao fim de programas de incentivo, a evolução da participação dos eletrificados e a recuperação — ou não — da demanda na Argentina. A entidade também observa como montadoras, incluindo grupos internacionais que operavam sob o regime de kits SKD, irão ajustar suas estratégias de produção local diante do novo cenário tributário.

Os próximos relatórios mensais, especialmente os que abrangerão fevereiro e março, deverão incorporar os primeiros resultados do Move Brasil sobre caminhões, indicar se a participação recorde dos eletrificados se sustenta em patamar próximo a 17 % e mostrar se a sazonalidade favorável do início de ano se converte em recuperação consistente. Enquanto isso, a indústria segue ajustando capacidade de produção e planejamento de estoques para alinhar oferta à demanda efetiva observada neste início de 2026.

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