Polvos mudam de cor conforme o humor: estudo expõe ciclos de sono parecidos ao REM humano

Polvos mudam de cor para exibir estados mentais que variam entre plena calmaria e intensa atividade cerebral, inclusive quando estão adormecidos. A constatação, apresentada em pesquisa publicada na revista Nature, descreve padrões de repouso que se assemelham ao ciclo REM de seres humanos e outros mamíferos, revelando um comportamento onírico inesperado para esse grupo de moluscos.
Por que os polvos mudam de cor mesmo em repouso?
Ver um polvo alternar tons vibrantes por matizes pálidas costuma ser atribuído à camuflagem ou à comunicação em momentos de vigília. O estudo, porém, mostra que as variações cromáticas persistem durante o descanso. A troca repentina de cores não ocorre ao acaso: trata-se de um reflexo direto da atividade neural. Quando o animal descansa, picos cerebrais desencadeiam comandos que percorrem o sistema nervoso central e chegam à pele, resultando em transições que incluem marrom escuro, cinza ou padrões luminosos alternados em questão de segundos.
Nesse contexto, mudar de cor torna-se uma espécie de janela aberta para o funcionamento interno do cérebro do cefalópode. Ao registrar essas oscilações, os cientistas obtêm um retrato visual do que se passa no organismo, algo similar a observar eletroencefalogramas em mamíferos.
Fases de sono revelam quando os polvos mudam de cor
A análise identificou dois estágios bem definidos no repouso: sono tranquilo e sono ativo. Durante o sono tranquilo, o polvo permanece pálido e essencialmente imóvel por períodos prolongados, sem qualquer movimento ocular perceptível. Já no sono ativo, o cenário se inverte: cores e padrões flutuam rapidamente pela superfície corporal, e os olhos se agitam sob as pálpebras de forma notável.
Esse segundo estágio apresenta paralelos claros com o REM humano, caracterizado, entre outros elementos, por movimentos oculares velozes e forte atividade cerebral. Os pesquisadores observaram que, nos polvos, a fase ativa é mais breve, porém marcada por intensa oscilação de pigmentos, sugerindo um processamento de informações internas que poderia corresponder a sonhos.
Diferenças claras entre o sono tranquilo e o sono ativo
Os principais contrastes entre os dois momentos foram mapeados em três frentes: cor da pele, movimento ocular e duração. No sono tranquilo, a pele se mostra uniformemente pálida, sem texturas, enquanto os olhos permanecem estáticos. A fase tende a ser longa e duradoura. No sono ativo, as cores piscam, texturas surgem para mimetizar elementos do ambiente marinho e a tonalidade pode saltar do brilho intenso ao cinza escuro em segundos. Os olhos se movem rapidamente, e o intervalo é mais curto, porém notável pela intensidade.
Essa alternância indica que o cérebro do polvo não permanece em repouso constante; ele passa por ciclos nos quais processa estímulos e possivelmente consolida informações, comportamento que reforça paralelos com mamíferos e contraria a visão de que moluscos apresentam apenas padrões simples de descanso.
Cromatóforos: a base biológica para quando os polvos mudam de cor
O mecanismo por trás da exibição de cores está nas células especializadas conhecidas como cromatóforos. Cada cromatóforo funciona sob controle direto do sistema nervoso central, operando como um ponto de pigmento acionado por comandos neurais. Dessa forma, não há mediação lenta ou indireta: quando o cérebro dispara um sinal, a coloração da pele muda de imediato.
Durante o sono ativo, as descargas neurais ocorrem em sequência acelerada, criando uma verdadeira coreografia de luz e sombra na superfície do animal. A súbita manifestação de texturas — protuberâncias que imitam rochas ou corais — emerge do mesmo processo, ampliando a complexidade das mensagens visuais emitidas.
O que as mudanças de cor dos polvos dizem sobre sua inteligência
A conexão direta entre atividade cerebral e pigmentação sugere que o polvo projeta seu estado interno no lado externo do corpo. Para os cientistas, isso aprofunda a compreensão sobre a inteligência do animal. Se os padrões de cor durante o sono ativo refletem conteúdo onírico, como aponta a pesquisa, observar um polvo adormecido equivaleria a assistir a uma representação pública de seus processos cognitivos.
A observação de picos cerebrais sincronizados às variações cromáticas reforça a hipótese de que esses cefalópodes possuem capacidades mentais mais densas do que antes se supunha. A simples alternância entre períodos prolongados de imobilidade pálida e explosões breves de paletas coloridas indica um organismo capaz de alternar rapidamente entre estado de repouso profundo e processamento de informações.
No modelo comparativo proposto, a fase pálida guarda relação com o sono profundo em humanos, enquanto a fase colorida representa o equivalente ao REM. A presença dessa alternância em um invertebrado amplia o debate sobre a distribuição evolutiva do sono complexo.
Ao final, o estudo publicado na Nature demonstra que acompanhar as cores de um polvo dormindo fornece evidências visuais da atividade neuronal, permitindo inferir ciclos internos sem recorrer a instrumentos invasivos. Cada sequência cromática captada em vídeo ou em ambiente controlado registra, em tempo real, a forma como o animal processa o mundo ao seu redor mesmo quando parece descansar.

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