Pier Paolo Pasolini antecipa a crise do consumo em peças que chegam ao Brasil

|
Getting your Trinity Audio player ready... |
Pier Paolo Pasolini surge novamente no mercado editorial brasileiro com a publicação conjunta de “Teorema”, “Orgia” e “Animal de Estilo”, peças escritas na década de 1960 que evidenciam a visão crítica do cineasta e poeta italiano sobre a sociedade de consumo. Editadas pela Cosac, as obras colocam em circulação, no país, um lado ainda pouco conhecido do autor, mais lembrado por seus filmes contundentes do que por sua dramaturgia.
- As origens literárias de Pier Paolo Pasolini e a descoberta da palavra
- Teorema: o teatro e o cinema de Pier Paolo Pasolini em confronto com a burguesia
- Militância e crítica social: a coluna de Pier Paolo Pasolini no Corriere della Sera
- A trajetória cinematográfica de Pier Paolo Pasolini e sua busca por impacto visual
- O assassinato de Pier Paolo Pasolini e as incertezas da investigação
- Legado atualizado: por que ler hoje as peças de Pier Paolo Pasolini
As origens literárias de Pier Paolo Pasolini e a descoberta da palavra
Para compreender a importância desta edição, é necessário recapitular o percurso de Pier Paolo Pasolini antes de sua consagração como cineasta. Formado em letras pela Universidade de Bolonha, ele mudou-se em 1947 para Casarza, terra natal da mãe, e ali mergulhou no dialeto friulano para escrever seu primeiro livro de poemas. Foi nesse período que se filiou ao Partido Comunista Italiano, iniciando um vínculo intenso com o marxismo que atravessaria toda a sua produção artística.
A centralidade da linguagem acompanhou Pasolini desde então. Em textos teóricos, ele defendia que, no teatro, as ideias deveriam assumir o protagonismo, cabendo ao ator declamar versos e mover-se apenas quando indispensável. Como exemplo concreto dessa crença, a edição brasileira inclui o “Manifesto por um Novo Teatro”, de 1968, no qual o autor classificava as montagens italianas de então como dominadas por gestos vazios ou diálogos irrelevantes. Seu objetivo declarado era devolver ao texto o papel motor da cena.
Teorema: o teatro e o cinema de Pier Paolo Pasolini em confronto com a burguesia
“Teorema” materializa tais princípios na trama de um hóspede andrógino que visita uma família industrial de Milão. Cada membro sucumbe ao fascínio sexual do visitante, apenas para descobrir, depois do contato, a futilidade de suas próprias vidas. A mãe envolve-se com homens mais jovens, o filho mergulha na pintura até enlouquecer, a filha entra em estado catatônico e o patriarca ruma nu ao deserto; até a empregada retorna à aldeia como figura santificada. Pasolini primeiro concebeu o enredo como peça em 1966, transformou-o em romance e, por fim, adaptou-o ao cinema em 1968, com a atriz Silvana Mangano no papel da mãe, Lucia.
O erotismo, presente desde “Meninos da Vida” – romance de 1955 que retrata a prostituição masculina nas ruas de Roma – volta a servir como veículo de denúncia contra a vida burguesa. A recepção inicial às obras teatrais, porém, foi fria: público e crítica consideraram-nas herméticas. Esse distanciamento explica por que a dramaturgia pasoliniana permanece menos difundida que filmes como “Accattone”, “Mamma Roma” ou “O Evangelho Segundo São Mateus”.
Entre 1971 e 1975, Pier Paolo Pasolini usou o espaço de colunista no Corriere della Sera para ampliar a análise sobre a transformação da Itália pós-guerra. Seus textos identificavam o surgimento de um poder difuso, não mais ancorado em partidos ou instituições religiosas, mas no impulso contínuo ao consumo. Para o escritor, a homogeneização cultural promovida pela publicidade transformava costumes regionais em mercadorias, produzindo jovens socialmente degradados e suscetíveis à violência.
Nesse contexto, Pasolini denunciou tanto a Democracia Cristã quanto o Partido Comunista, acusando este último de abandonar ideias revolucionárias em troca de lugar no governo. Ao observar atentados de grupos neofascistas e ações armadas da extrema-esquerda, ele enxergava um país onde o único valor predominante era a capacidade de comprar. Suas advertências ressoam nas peças agora reeditadas, especialmente em “Animal de Estilo”, descrita pelo autor como autobiografia ficcional apoiada no sacrifício de Jan Palach, estudante tcheco que se imolou em 1969 para protestar contra a invasão soviética de Praga.
A trajetória cinematográfica de Pier Paolo Pasolini e sua busca por impacto visual
Paralelamente à literatura, Pasolini consolidou no cinema um repertório que unia referências clássicas e denúncia social. Após atuar como assistente de Federico Fellini e Giorgio Bassani na efervescente Cinecittà, dirigiu “Accattone” e “Mamma Roma”, focados na periferia romana. Na década de 1960, alternou títulos políticos, como “Gaviões e Passarinhos”, e releituras de obras célebres, entre elas “Os Contos de Canterbury”, “Decameron”, “Mil e Uma Noites” e “Medeia”, com a soprano Maria Callas.
Seus filmes recorriam a imagens fortes para sacudir o espectador. Segundo pesquisadores da Cineteca de Bolonha, o escândalo funcionava como dispositivo pedagógico, destinado a romper o conformismo moralista. Essa lógica atinge o ápice em “Salò ou os 120 Dias de Sodoma”, lançado após sua morte: quatro fascistas submetem adolescentes a torturas sexuais, expondo a associação entre poder, violência e consumo.
A relação afetiva com o ator Ninetto Davoli, descoberto ainda jovem, atravessa grande parte da filmografia. Ao mesmo tempo, Pasolini mantinha convívio intenso com intelectuais de Roma e com rapazes das periferias, experiência que repercutia em narrativas permeadas por temáticas queer. A cena em que o hóspede de “Teorema” apresenta quadros de Francis Bacon ao filho é um exemplo sutil dessa tensão.
O assassinato de Pier Paolo Pasolini e as incertezas da investigação
Em 2 de novembro de 1975, o corpo de Pier Paolo Pasolini foi encontrado em Óstia, região litorânea próxima a Roma. Pino Pelosi, então com 17 anos, confessou o crime no mesmo dia, alegando que uma discussão interrompeu o encontro sexual entre os dois. Pelosi afirmou ter golpeado o diretor com um pedaço de madeira e atropelado-o ao fugir no Alfa Romeo 2000 do escritor.
A narrativa oficial foi contestada por jornalistas e especialistas. Relatos apontam falhas graves na investigação: testemunhas não ouvidas, evidências não checadas e divulgação sensacionalista de imagens do cadáver. Décadas depois, exames de DNA indicaram a presença de pelo menos três pessoas no local, corroborando hipóteses levantadas na época pela repórter Oriana Fallaci. Em 2005, Pelosi negou a autoria, alegando ter sido coagido a assumir a culpa.
O crime passou a ser interpretado como tentativa de silenciar uma voz incômoda para diversos setores, da Igreja às elites industriais. Essa recepção repercutiu na maneira como “Salò” foi exibido: críticos recordam que o diretor sofria durante as filmagens das sequências de tortura, mas insistia nelas para obrigar o público a confrontar a brutalidade latente na sociedade de consumo.
Legado atualizado: por que ler hoje as peças de Pier Paolo Pasolini
As novas edições brasileiras reúnem traduções de pesquisadores que estudam Pasolini há décadas. A professora Maria Betânia Amoroso, da Universidade Estadual de Campinas, verteu “Orgia” e “Animal de Estilo” para o português, enquanto Maurício Santana Dias, da Universidade de São Paulo, assinou a tradução de “Teorema”. Ambos destacam que, ao privilegiar a palavra, o dramaturgo cria situações de desconforto que forçam o leitor a repensar padrões consumistas ainda vigentes.
Ao lado de “Manifesto por um Novo Teatro”, incluído no volume, o leitor brasileiro acessa análises de teatro publicadas quando Pasolini rejeitava tanto o gestual excessivo quanto o diálogo vazio no palco. A publicação permite também revisar a acusação histórica de que sua dramaturgia seria hermética; observando a atual crise de valores e a padronização cultural apontadas pelo autor na década de 1970, muitos dos seus argumentos mostram-se hoje de notável clareza.
Com a chegada simultânea de “Teorema”, “Orgia” e “Animal de Estilo”, o público brasileiro ganha a oportunidade de acompanhar, em ordem cronológica, a consolidação do pensamento de Pasolini: do erotismo como revelação da falência burguesa à denúncia de uma sociedade reduzida a vitrines de consumo. O lançamento também realça o tom premonitório das colunas que ele assinou no Corriere della Sera, nas quais previa a ascensão de uma nova direita alimentada pelo mercado.
Além de oferecer panoramas distintos da obra de Pier Paolo Pasolini, as edições abrem espaço para reflexões sobre intolerância, homofobia e violência política, temas que se entrelaçam em sua biografia. Desde os processos judiciais por obscenidade até a morte ainda envolta em dúvidas, o percurso do autor confirma o lugar que ele reivindicava para a arte: um dispositivo de confronto permanente.
Os volumes chegam às livrarias nacionais com tiragem que inclui o texto integral de cada peça e material de apoio que contextualiza o período 1966-1975, fase em que Pasolini denunciou a perda de valores comunitários e a uniformização cultural. Leitores interessados em teatro, cinema ou crítica social encontram, nessas páginas, um retrato incisivo de um autor que se dedicou a iluminar contradições e alertar para o poder corrosivo do consumo irrestrito.
A publicação nacional encerra-se com “Animal de Estilo”, peça que o dramaturgo revisou diversas vezes e considerou sua autobiografia em forma dramática. Ambientada no fim do século XX, a obra retoma o sacrifício de Jan Palach para indagar até que ponto o indivíduo pode resistir à anulação cultural causada pela modernização acelerada – questão que, quase meio século depois, mantém vigor e relevância.

Conteúdo Relacionado