Pianista Luiz Mello relembra jam sessions das Folhas e a efervescência do jazz no centro de São Paulo

Pianista Luiz Mello, aos 88 anos, voltou a falar sobre as lendárias jam sessions promovidas no auditório do jornal paulistano na década de 1960, eventos que completaram 65 anos em 5 de dezembro de 2025 e que marcaram a cena do jazz no centro de São Paulo.
- Infância, primeiras notas e a formação autodirigida do pianista Luiz Mello
- O centro de São Paulo como palco de uma cena vibrante
- Jam sessions das Folhas e o papel do pianista Luiz Mello
- Convivência com figuras nacionais e internacionais do jazz
- A técnica harmônica que distingue o pianista Luiz Mello
- Memórias, preferências musicais e rotina atual
- Próximo marco e a preservação do legado das jam sessions
Infância, primeiras notas e a formação autodirigida do pianista Luiz Mello
Natural de Monte Alto, em Minas Gerais, Luiz Mello nasceu em 18 de maio de 1937 em uma família de dentistas. Ainda criança, começou a se aproximar da música por meio da gaita, instrumento com o qual tocava canções sertanejas ao lado de amigos. A mudança de paradigma veio durante a adolescência, quando dividiu quarto na cidade de Assis com o saxofonista José Ferreira Godinho Filho, o Casé (1932-1978). Segundo Mello, essa convivência ampliou seus horizontes sonoros: Casé apresentava discos de jazz, entre eles gravações de Dave Brubeck que despertaram no jovem pianista interesse pelo estilo conhecido como cool jazz. O aprendizado acontecia de maneira prática; cada dúvida era sanada em conversas informais, e a audição repetida de LPs funcionava como sala de aula improvisada.
Antes mesmo de atingir a maioridade, Mello iniciou a carreira profissional aos 17 anos, no Clube de Paris, uma casa noturna descrita como “inferninho” situada no centro paulistano. O circuito de boates incluía ainda Michel e Teteia, locais em que o músico se acostumou a tocar repertórios diversos — de bolero a samba — com predileção pelo jazz. Na mesma época, o pianista tirou a carteira da Ordem dos Músicos, requisito legal para atuar regularmente nas noites da capital. O procedimento foi feito ao lado do saxofonista J. T. Meirelles, integrante do grupo Copa 5, numa madrugada em que ambos permaneceram acordados até o exame ser aplicado às oito horas da manhã.
O centro de São Paulo como palco de uma cena vibrante
Durante as décadas de 1950 e 1960, o centro da capital paulista concentrava casas noturnas de reputação sólida como A Baiuca, o Paddock e o Avenida Dancing, este último famoso por funcionar no sistema “taxi-dancing”, no qual clientes pagavam para dançar com profissionais. Nesse ambiente, os músicos trabalhavam em esquema de revezamento: grupos se apresentavam por meia hora e cederiam o palco a outro conjunto, garantindo programação contínua. A remuneração era considerada vantajosa, equiparável ou superior ao salário formal do comércio. Mello recorda que o cachê lhe permitia manter carros novos ano a ano, evidenciando a valorização do músico de boate naquele período.
Para além dos palcos, o chamado Ponto dos Músicos — situado na esquina das avenidas São João e Ipiranga, onde funcionava a lanchonete Jeca — servia de balcão de empregos informal. Instrumentistas aguardavam chamados de última hora e compartilhavam experiências, criando uma rede de apoio essencial para quem vivia da noite.
Jam sessions das Folhas e o papel do pianista Luiz Mello
O jornal organizava audições mensais sempre na primeira segunda-feira, batizadas de Jam Sessions das Folhas. A estreia, realizada em dezembro de 1960, lotou o auditório e foi registrada no LP “Jam-Session das Folhas”, lançado em 1961. Nomes consagrados como Dick Farney, Eliana Pittman, Booker Pittman e Rita Lee dividiram o palco com músicos então em ascensão. Entre os participantes que permanecem na ativa destacam-se Heraldo do Monte (guitarra), Magno D’Alcântara, o Maguinho (trompete), Roberto Sion (saxofone), Edmundo Villani-Côrtes (piano) e, claro, Luiz Mello.
Mello calcula ter subido ao palco do jornal “umas três vezes” — convite articulado pelo baterista Rubinho Barsotti, responsável por selecionar equipes para cada encontro. Entre os companheiros de formação estavam Meirelles nos sopros, Maguinho no trompete, Hector Costita no sax tenor e o contrabaixista Luiz Chaves. O repertório girava em torno de standards de jazz, apresentados em formato de improviso coletivo. O pianista destaca que o espaço costumava lotar e oferecia ambiente favorável à experimentação, fator que atraía tanto músicos quanto público.
Convivência com figuras nacionais e internacionais do jazz
A trajetória de Luiz Mello cruzou caminhos com artistas reconhecidos mundialmente. Em apresentações informais — conhecidas como “canjas” — o pianista recebeu no palco o guitarrista norte-americano Jim Hall (1930-2013) e o contrabaixista Ray Brown (1926-2002). Nos dois episódios, os visitantes ouviram Mello antes de solicitarem participação, prolongando a sessão até altas horas e contrariando o horário de fechamento dos funcionários da casa.
Internamente, Mello mantinha opiniões firmes sobre seus pares. Declarou não apreciar a sonoridade de John Coltrane e Dexter Gordon, preferindo a leveza de Lee Konitz. Apesar de ter admirado o estilo de Dave Brubeck, afirmou não simpatizar com o pianista como intérprete. Entre brasileiros, foi crítico a Dick Farney, a quem classificou como pouco criativo, ressaltando que se considerava seu músico favorito quando o assunto era execução pianística.
A técnica harmônica que distingue o pianista Luiz Mello
Colegas de profissão descrevem Mello como instrumentista exigente, sobretudo em relação à harmonia. Ele próprio atribui a fama a duas características: tocar “tudo certo” e priorizar acordes bem construídos. O método de trabalho inclui extremo cuidado com os detalhes, o que torna o convívio profissional desafiador para quem não compartilha do mesmo rigor técnico. Esse perfeccionismo se reflete no acompanhamento de cantoras como Dolores Duran, momento em que o pianista procura “preparar a cama” para que a voz se desenvolva de maneira confortável.
Mello entende o improviso como processo gradativo: inicia-se de forma contida, desenvolve-se em crescimento contínuo, atinge ápice e conclui com desfecho coerente. Para ele, o jazz atua como plataforma de composição instantânea, pela qual o músico cria variações sobre uma harmonia preexistente, ainda que se afaste do tema melódico original.
Memórias, preferências musicais e rotina atual
Apesar de décadas dedicadas ao piano, o músico hoje se divide entre teclas e cordas. Duas guitarras lhe fazem companhia no cotidiano, instrumento que requer menor esforço físico e amplia possibilidades de estudo. Aos 88 anos, Mello dedica tempo a adaptar repertórios ao novo contexto, mantendo o padrão de exatidão que orientou toda a carreira.
Quando questionado sobre dificuldades frequentes nas jam sessions, o pianista aponta o excesso de improviso prolongado por músicos menos habilidosos, conhecidos na gíria como “bicos”. Para ele, saber a hora de concluir um solo é tão importante quanto iniciá-lo, em respeito ao público e aos colegas de palco.
Próximo marco e a preservação do legado das jam sessions
O arquivo da primeira Jam Session das Folhas já ultrapassou seis décadas de história. Em 5 de dezembro de 2025, a gravação completou 65 anos, reavivando discussões sobre a importância daquele encontro para o jazz brasileiro. A data simboliza não apenas um aniversário, mas a permanência de um movimento que posicionou o centro de São Paulo como polo cultural. Para o pianista Luiz Mello, revisitar essas memórias reafirma o papel do improviso como arte efêmera registrada na lembrança de quem assistiu ou tocou. Relembrar essas noites ajuda a contextualizar a evolução da música ao vivo na cidade e mantém viva a referência para as gerações futuras.

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