Paraíso do Tuiuti leva Lonã Ifá Lukumi à Sapucaí e destaca conexões da diáspora africana entre Brasil e Cuba

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Paraíso do Tuiuti desfilará em 17 de fevereiro de 2026 com o enredo “Lonã Ifá Lukumi”, uma narrativa que traça paralelos entre a diáspora africana no Brasil e em Cuba, destacando pontes culturais, religiosas e de resistência forjadas pelo povo iorubá durante o período escravista.
- 1. Como o Paraíso do Tuiuti escolheu o enredo Lonã Ifá Lukumi
- 2. A participação de estudiosos e compositores no samba do Paraíso do Tuiuti
- 3. Seis setores mostram a diáspora africana segundo o Paraíso do Tuiuti
- 4. Personagens históricos que conectam Brasil e Cuba no enredo do Paraíso do Tuiuti
- 5. Trajetória do Paraíso do Tuiuti no Grupo Especial
- 6. Ordem dos desfiles do Grupo Especial e posição do Paraíso do Tuiuti
1. Como o Paraíso do Tuiuti escolheu o enredo Lonã Ifá Lukumi
A concepção do tema nasceu do interesse do carnavalesco Jack Vasconcelos em transpor para a avenida o livro “Ifá Lucumí: o resgate da tradição”, de autoria do cantor, compositor e pesquisador Nei Lopes. A obra investiga a fusão entre a espiritualidade iorubá e elementos caribenhos, formando o Ifá Lucumí cultuado em Cuba. Inspirada por essa pesquisa, a agremiação vislumbrou a oportunidade de evidenciar as semelhanças históricas que unem dois países marcados por séculos de escravização africana: Brasil e Cuba.
Nesse contexto, o título do enredo se fragmenta em três conceitos centrais: Loña, referente a conexões espirituais; Ifá, sistema religioso que conjuga filosofia, técnica e rito; e Lukumi, denominação aplicada aos descendentes iorubás escravizados na ilha caribenha. A escolha desses termos norteia a estrutura narrativa do desfile.
2. A participação de estudiosos e compositores no samba do Paraíso do Tuiuti
Para reforçar o conteúdo histórico, o Paraíso do Tuiuti convidou o professor de história Luiz Antonio Simas para integrar a equipe que compôs o samba-enredo. Ao lado de Claudio Russo e Gustavo Clarão, Simas costurou a letra que será defendida na Sapucaí pela voz de Pixulé, nome artístico de Roosevelt Martins Gomes da Cunha. O historiador aceitou a tarefa motivado pela temática afro-caribenha e pelos vínculos culturais compartilhados entre as duas nações atlânticas.
O envolvimento de especialistas confere densidade à narrativa musical, ao passo que mantém o rigor factual exigido pela escola. O resultado é um samba que pretende dialogar com a avenida ao mesmo tempo em que sustenta a precisão histórica apregoada pela agremiação.
3. Seis setores mostram a diáspora africana segundo o Paraíso do Tuiuti
O desfile será dividido em seis setores, cada qual dedicado a uma etapa da trajetória do Ifá e de seus sacerdotes, os babalaôs, desde a origem até a chegada ao Brasil.
Primeiro setor – A descida do Ifá à Terra: a comissão de frente e o abre-alas ilustrarão o momento mítico em que o conhecimento do Ifá é entregue aos humanos, simbolizando o elo entre orixás e babalaôs originais.
Segundo setor – Expansão em solo africano: alas subsequentes retratarão a difusão do Ifá para além do território iorubá, destacando o diálogo espiritual que atravessou comunidades vizinhas no continente.
Terceiro setor – Tráfico atlântico e resistência em Cuba: a escola dramatizará a diáspora africana forçada pelo tráfico negreiro, com ênfase na Revolta de Matanzas de 1843, liderada por Carlota Lacumí em engenhos de cana-de-açúcar. A insurreição se converte em símbolo de luta contra a exploração escravista na província cubana.
Quarto setor – O primeiro babalaô de Cuba: Adeshina Remigio Herrera, sacerdote originário da mesma região de Matanzas, ganhará destaque como pioneiro do Ifá na ilha. Seu papel sinaliza a consolidação da tradição religiosa em território caribenho.
Quinto setor – Rituais e práticas do culto: carros alegóricos exibirão assentamentos sagrados, ebós, comidas e oferendas que formam o repertório ritualístico do Ifá Lucumí. O carnavalesco enfatiza semelhanças com o candomblé brasileiro, reforçando a interseção atlântica.
Sexto setor – Chegada ao Brasil e trágico desfecho: a conclusão abordará a vinda do babalaô cubano Rafael Zamora Díaz ao Rio de Janeiro no início dos anos 1990. Conhecido como Awó de Orumilá Ogunda Keté, o sacerdote foi assassinado a tiros na zona sul da cidade em 2011, fato que encerra o enredo com uma memória de violência e resistência.
4. Personagens históricos que conectam Brasil e Cuba no enredo do Paraíso do Tuiuti
A narrativa de Paraíso do Tuiuti destaca três figuras principais, todas ligadas à manutenção do Ifá fora do continente africano:
Carlota Lacumí: descendente de iorubás e líder da Revolta de Matanzas em 1843, símbolo da luta contra a escravidão nas plantações cubanas de cana-de-açúcar.
Adeshina Remigio Herrera: primeiro babalaô de Ifá em Cuba, cujo legado marca a formalização dos ritos na província de Matanzas.
Rafael Zamora Díaz (Awó de Orumilá Ogunda Keté): sacerdote responsável por introduzir o Ifá Lucumí no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro; sua morte violenta em 2011 será lembrada como alerta sobre intolerância e violência religiosa.
5. Trajetória do Paraíso do Tuiuti no Grupo Especial
A escola foi criada em 1952 a partir da união de sambistas oriundos das extintas Unidos do Tuiuti, Paraíso das Baianas e do Bloco dos Brotinhos, todos vinculados ao Morro do Tuiuti, em São Cristóvão, zona norte da capital fluminense. Depois de trajetórias alternando divisões, a agremiação alcançou seu melhor resultado em 2018, conquistando o vice-campeonato do Grupo Especial com “Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?”. Desde 2017, o pavilhão azul e amarelo permanece de forma ininterrupta na elite do Carnaval carioca.
A consistência recente reforça a confiança da comunidade de que “Lonã Ifá Lukumi” tem potencial para repetir ou superar o êxito de 2018, dado o apuro histórico e a carga simbólica do enredo.
6. Ordem dos desfiles do Grupo Especial e posição do Paraíso do Tuiuti
O Carnaval 2026 terá três noites de apresentações na Marquês de Sapucaí. A programação oficial lista oito escolas nos dois primeiros dias e quatro no terceiro:
15 de fevereiro (domingo): Acadêmicos de Niterói, Imperatriz Leopoldinense, Portela, Estação Primeira de Mangueira.
16 de fevereiro (segunda-feira): Mocidade Independente de Padre Miguel, Beija-Flor de Nilópolis, Unidos do Viradouro, Unidos da Tijuca.
17 de fevereiro (terça-feira): Paraíso do Tuiuti será a primeira a desfilar, seguida por Unidos de Vila Isabel, Acadêmicos do Grande Rio e Acadêmicos do Salgueiro.
A data marca o momento em que a narrativa de “Lonã Ifá Lukumi” ganhará forma diante do público e dos jurados, estabelecendo o desfecho prático de meses de pesquisa, composição e execução artística.
Com o cronograma definido, resta aos foliões e admiradores aguardar a entrada do Paraíso do Tuiuti na avenida para testemunhar como o enredo transformará em espetáculo a história compartilhada por Brasil e Cuba através do Ifá Lucumí.

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