Ópera do Malandro no Teatro Renault: nova montagem transforma clássico em ritual urbano de 120 minutos

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Uma das obras mais famosas do repertório de Chico Buarque, Ópera do Malandro, ganha em 2026 uma leitura radical no palco do Teatro Renault, na região central de São Paulo. Sob a direção de Jorge Farjalla, a montagem abandona qualquer apelo nostálgico e converte a Lapa dos anos 1940 em um território híbrido, onde ritos de matriz africana, carnaval e cabaré se entrelaçam para expor as engrenagens sociais brasileiras. Com duas horas de duração, o espetáculo acolhe o público em um espaço que vibra como um terreiro urbano, impulsionado por música percussiva, coreografias precisas e um figurino que evolui em cena.
- Ópera do Malandro: o clássico de 1978 reencontra a cidade em 2026
- Direção de Jorge Farjalla leva Ópera do Malandro a um ritual cênico
- Figurinos e simbologia enfatizam a malandragem como estratégia de sobrevivência
- Elenco mescla trajetórias e destaca Valéria Barcellos e José Loreto em papéis centrais
- Música, coreografia e atmosfera convertem a Ópera do Malandro em experiência imersiva
- Serviço: temporada, horários e ingressos no Teatro Renault
Ópera do Malandro: o clássico de 1978 reencontra a cidade em 2026
Escrita em 1978, Ópera do Malandro surgiu como resposta de Chico Buarque ao contexto político e econômico da época, combinando elementos da ópera popular, do samba e da malandragem carioca. Quase cinco décadas depois, a obra ressurge em 2026 ancorada no Teatro Renault, distanciando-se de leituras históricas e enfatizando a atualidade de seus temas. A nova encenação desloca a narrativa original da Lapa boêmia para um espaço que simboliza qualquer grande centro urbano brasileiro contemporâneo, reforçando a permanência de lógicas de corrupção, desigualdade e sobrevivência nos dias de hoje.
Ao transportar o texto para um ambiente sem marcas temporais fixas, a produção amplia a abrangência do enredo. A dramaturgia continua a seguir os jogos de contrabando e poder de Max Overseas, de Geni, do contrabandista Duran e do Delegado Chaves, mas cada canção agora se converte em um momento ritualístico. As letras, preservadas, passam a dialogar com uma sonoridade predominantemente percussiva que desloca o espectador do espaço teatral convencional para um acontecimento coletivo de rua.
Direção de Jorge Farjalla leva Ópera do Malandro a um ritual cênico
Conhecido por encenações que tensionam limites visuais e incorporam referências populares, Jorge Farjalla estrutura a nova Ópera do Malandro como uma cerimônia. O diretor dispensa explicações literais e aposta na incorporação física de símbolos. Coreografias remetem a pontos cantados de Umbanda; movimentos de quadril, ombros e olhar obedecem a uma lógica de terreiro, e a malandragem ganha contornos de entidade. O palco do Teatro Renault, tradicionalmente associado a musicais grandiosos, converte-se num espaço de encruzilhada, onde sagrado e profano se complementam.
Logo no início, a produção apresenta sua declaração de intenções de forma silenciosa: o terno branco de Max é incendiado e substituído por um conjunto vermelho. A ação, sem palavras, sintetiza a fusão de espiritualidade e urgência social que irá guiar a cena. Ao final da trajetória, o branco reaparece manchado, sinalizando o impacto do jogo de poder sobre qualquer pretensão de pureza.
Figurinos e simbologia enfatizam a malandragem como estratégia de sobrevivência
O figurino assinado por Farjalla em parceria com Ùga Agú constitui uma camada dramatúrgica autônoma. Cada peça traz códigos cromáticos e formais que revelam metamorfoses dos personagens. Max, interpretado por José Loreto, veste vermelho intenso, evocando a figura de Exu, orixá das encruzilhadas e da troca. Ao longo da história, o traje evolui, ganha manchas e listras que funcionam como um gráfico visual de duplicidades morais e econômicas.
Há momentos em que o paletó listrado em branco e vermelho converte o protagonista em um “código de barras” ambulante, sugerindo que a negociação de valores passa pelo próprio corpo. Esse recurso plástico dispensa diálogos expositivos e comunica que a malandragem não é mero charme, mas linguagem de sobrevivência. Nas bordas da ação, as prostitutas que orbitam Duran ostentam referências a Pombagiras, reforçando que a rua se rege por saberes coletivos femininos e ancestrais.
Elenco mescla trajetórias e destaca Valéria Barcellos e José Loreto em papéis centrais
O elenco reúne intérpretes de diferentes formações para reforçar o caráter multifacetado da encenação. José Loreto assume Max Overseas, transformando o contrabandista em energia elemental. O ator estrutura o personagem a partir de impulsos corporais, menos preocupado em seduzir a plateia e mais dedicado a irradiar movimento. Valéria Barcellos, atriz e cantora trans, defende Geni não como vítima lírica, mas como território de disputa. Ao convocar o público a entoar o refrão “joga pedra na Geni”, a cena cria um efeito espelho: a plateia participa, ainda que involuntariamente, da violência social apontada pela narrativa.
Marina Mathey, também atriz trans, duplica a ação de Barcellos em sincronia, oferecendo uma perspectiva temporal da mesma personagem: ora frágil, ora fortalecida. O recurso dramatiza os altos e baixos das existências trans e amplia o alcance do sofrimento para uma experiência coletiva. Já Ernani Moraes encarna o contrabandista Duran com ares de cafetão que administra a lógica mercantil da madrugada, enquanto Amaury Lorenzo dá ao Delegado Chaves uma formalidade burocrática que combina corrupção e liturgia.
Música, coreografia e atmosfera convertem a Ópera do Malandro em experiência imersiva
A trilha recriada por Gui Leal abandona arranjos tradicionais e enfatiza batidas secas, tambores e efeitos que remetem ao samba de terreiro. Cada canção opera como passo ritual: o público reconhece melodias de 1978, mas sente o pulso percussivo projetá-las para 2026. Nas coreografias, coros se movem em curvas que lembram cortejos de carnaval ou giras de Umbanda, reforçando que a transgressão social descrita por Chico Buarque possui raiz cultural profunda.
O resultado é um organismo cênico híbrido que evita a estetização folclórica ao politizar a própria forma. Imagens belas, humor ácido e frenesi corporal se articulam para afirmar que o Brasil ainda funciona segundo a “pirâmide” retratada na obra: uns sobrevivem na base, outros prosperam no topo. A montagem, ao acentuar a espiritualidade que permeia essa estrutura, responde não com didatismo, mas com sensorialidade — convidando espectadores a perceber, no próprio corpo, as tensões encenadas.
Serviço: temporada, horários e ingressos no Teatro Renault
Local: Teatro Renault – Avenida Brigadeiro Luís Antônio, bairro Bela Vista, São Paulo.
Temporada: sessões até 15 de março.
Horários: sextas às 20h; sábados às 17h e 21h; domingos às 15h e 19h.
Duração: 120 minutos.
Classificação indicativa: 14 anos.
Ingressos: a partir de R$ 25 (meia-entrada no balcão popular), vendas no site de ingressos oficial e na bilheteria do teatro, sem taxa de conveniência.

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