Onças-pintadas do Pleistoceno caçavam preguiças-gigantes de quase 1 tonelada, revela estudo

Onças-pintadas do Pleistoceno caçavam preguiças-gigantes de quase 1 tonelada, revela estudo
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No final de fevereiro, um artigo científico divulgado pela Taylor & Francis apresentou evidências de que onças-pintadas que viveram no território brasileiro durante a fase final da Era do Gelo atacavam presas que podiam alcançar quase 1 tonelada. A investigação, conduzida por pesquisadores de instituições nacionais e estrangeiras, analisou marcas de mordida em fósseis de diferentes espécies da megafauna e concluiu que esses grandes felinos eram capazes de abater tanto a preguiça-gigante quanto um herbívoro peculiar identificado como Xenorhinotherium bahiense. O trabalho também apontou sinais de conflitos letais entre os próprios predadores.

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Brasil na Era do Gelo: ambiente hostil que moldou as onças-pintadas

Entre aproximadamente 2,6 milhões e 11,7 mil anos atrás, o planeta atravessou o período Pleistoceno. No Brasil, o clima era mais seco e relativamente frio, ainda que menos gelado do que o registrado em latitudes mais altas do Hemisfério Norte. Florestas estavam reduzidas, a vegetação era menos densa e extensas planícies arbustivas predominavam em várias regiões. Nessas paisagens, rios e lagos cumpriam papel fundamental como pontos de água, atraindo manadas de grandes herbívoros.

Foi nesse cenário que as onças-pintadas desenvolveram estratégias de caça voltadas a animais de grande porte. A megafauna sul-americana incluía espécies como a preguiça-gigante (Ahytherium aureum) e o enigmático Xenorhinotherium bahiense, ambas potencialmente habitando áreas de ocorrência dos felinos. Distante do quadro atual de floresta úmida e frutos abundantes, os recursos alimentares exigiam oportunismo e força para capturar presas volumosas.

Metodologia: identificando a assinatura dos ataques de onças-pintadas

Para comprovar o predador responsável pelos fósseis danificados, a equipe comparou minuciosamente perfurações e fraturas em ossos com moldes de dentição de diversos carnívoros extintos e atuais. O estudo descartou, por exemplo, a ação de larvas de inseto ou marcas causadas por decomposição simples, pois as perfurações tinham profundidade, diâmetro e disposição compatíveis com dentes caninos de grandes felinos.

Essa análise contemplou duas espécies de presa. No caso da preguiça-gigante, partes do esqueleto foram recuperadas na Bahia. Já o Xenorhinotherium teve restos encontrados em Pernambuco. Em ambos, os ossos das patas dianteiras exibiam orifícios alinhados, deixando clara a posição da mordida inicial. Quando sobrepostos aos padrões dentários de outros predadores pleistocênicos — como cães selvagens de grande porte ou tigres-dentes-de-sabre —, apenas a arcada da onça-pintada se ajustou às dimensões observadas.

A metodologia incluiu ainda tomografia de alta resolução, que permitiu avaliar o caminho dos dentes na superfície óssea, e microscopia, para descartar fraturas pós-mortem. Os pesquisadores concluíram que o felino empregava uma mordida frontal, provavelmente imobilizando os membros anteriores da presa antes do golpe fatal no pescoço ou na cabeça.

Preguiça-gigante e Xenorhinotherium: presas de quase 1 tonelada

A preguiça-gigante (Ahytherium aureum) podia atingir cerca de 1 000 kg. Diferia das preguiças modernas por deslocar-se principalmente em terra firme, possuía garras maciças e estrutura robusta. Apesar do tamanho, reunia características que a tornavam vulnerável próximos a corpos d’água: lentidão relativa e hábito de se abaixar para beber.

O Xenorhinotherium bahiense completava o cardápio dos felinos. Carregava o apelido informal de “besta de nariz estranho” porque exibia uma tromba curta, similar à de um tapir moderno, sobre corpo comparável ao de uma lhama gigante. Embora menor que a preguiça-gigante, também ultrapassava centenas de quilos, configurando-se como refeição de alto retorno energético.

Segundo a pesquisa, ambos os herbívoros compartilhavam ambientes abertos, frequentando lagos rasos e margens fluviais. Esses locais concentravam muitos animais, produzindo oportunidades para emboscadas organizadas pelas onças-pintadas. A mordida na pata dianteira sugeria que o primeiro contato objetivava destabilizar o equilíbrio da vítima antes do desfecho.

Dieta diversificada e competição entre predadores

O levantamento de fósseis indica que as onças-pintadas não eram caçadoras exclusivas de megafauna. Contudo, quando a oferta de grandes herbívoros era alta, o consumo de presas corporudas possibilitava que esses felinos alcançassem dimensões maiores do que apresentam hoje. Paralelamente, outro especialista em abater mamíferos massivos, o tigre-dentes-de-sabre, compartilhava o território. A sobreposição de nicho entre ambos explica a existência de rivalidade e pressão evolutiva.

Com o fim do Pleistoceno e a subsequente extinção da maioria dos grandes mamíferos, o tigre-dentes-de-sabre foi incapaz de se adaptar à drástica redução de presas gigantes, desaparecendo por completo. Já as onças reduziram ligeiramente o porte corporal, mas se mantiveram na cadeia alimentar consumindo espécies menores, desde capivaras até pequenos cervídeos, comportamento ainda observado nos biomas atuais.

A pesquisa acrescenta que marcas compatíveis com dentes de onça também foram identificadas em crânios de outros grandes felinos pleistocênicos localizados numa caverna da Bahia. Tal evidência reforça a hipótese de confrontos diretos entre indivíduos adultos, seja por disputa territorial, seja por competição por carcaças de grande valor calórico.

Conflitos letais entre as próprias onças-pintadas

Os vestígios de perfurações em ossos cranianos de felinos indicam que as lutas internas não eram meras exibições de força. Os furos tinham profundidade suficiente para atingir tecido cerebral, o que sugere desfechos fatais. A agressividade provavelmente aumentava quando a megafauna se concentrava em pontos de água durante estiagens, restringindo área e alimento — cenário propício a tensão social.

Essas descobertas ajudam a traçar o comportamento intraspecífico das onças em tempos antigos. Hoje, felinos solitários estabelecem territórios extensos e evitam encontros prolongados, mas na Era do Gelo o desenho das paisagens e a presença de herbívoros gigantes teriam aproximado adultos com maior frequência, elevando a incidência de confrontos.

Dimensões corporais e adaptação após a extinção da megafauna

Com opções abundantes de proteína, as onças-pintadas ancestrais alcançavam tamanho acima do registrado em populações modernas. Quando a megafauna sucumbiu por pressões climáticas e possivelmente antrópicas, o perfil alimentar dos felinos mudou. A redução na disponibilidade de presas volumosas coincidiu com a diminuição de massa e com pequenas alterações morfológicas que favoreceram maior agilidade na captura de animais menores.

Esse ajuste explica por que a espécie sobreviveu enquanto outros carnívoros hiperespecializados não conseguiram. A flexibilidade dietética permitiu atravessar a transição para o Holoceno, colonizar diferentes biomas sul-americanos e persistir como o maior felino do continente.

Os resultados completos da investigação, assinados por Mário A. T. Dantas e colaboradores, foram publicados em 23 de fevereiro no periódico da Taylor & Francis e continuam servindo de base para análises de novos fósseis que possam detalhar ainda mais o comportamento predatório das onças do Pleistoceno.

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