Naufrágio no Encontro das Águas: detalhes do resgate, vítimas e investigação do acidente fluvial no Amazonas

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O naufrágio no Encontro das Águas, ocorrido na tarde de sexta-feira, 13 de fevereiro, mobilizou órgãos de segurança, abalou pequenas cidades do interior do Amazonas e desencadeou uma investigação marítima ainda em andamento. A lancha de transporte de passageiros Lima de Abreu XV, pertencente à empresa Lima de Abreu Navegações, partiu de Manaus em direção a Nova Olinda do Norte e afundou poucos minutos após a saída, deixando mortos, desaparecidos e dezenas de sobreviventes.
- Naufrágio no Encontro das Águas: cronologia do acidente
- Resgate após o naufrágio no Encontro das Águas mobiliza bombeiros e civis
- Vítimas do naufrágio no Encontro das Águas: perfis de Lara Bianca e Samila de Souza
- Situação do comandante e procedimentos legais
- Investigação sobre causas e responsabilidades do acidente
- Repercussão nas comunidades de Nova Olinda do Norte e Urucurituba
Naufrágio no Encontro das Águas: cronologia do acidente
O acidente foi registrado aproximadamente às 12h30, logo após a embarcação deixar o porto de Manaus. Passageiros relataram que, durante a travessia da zona conhecida como Encontro das Águas, formou-se banzeiro — ondas características do encontro dos rios Negro e Solimões — que chacoalhou a lancha. Minutos depois, o casco não resistiu e a Lima de Abreu XV submergiu. Vídeos feitos por ocupantes mostram pessoas, inclusive crianças, agarradas a botes salva-vidas enquanto aguardavam auxílio de embarcações que navegavam próximas.
De acordo com o Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, 71 pessoas foram resgatadas com vida imediatamente após o naufrágio. Ao mesmo tempo, instaurou-se uma busca incessante por sete desaparecidos, ainda não localizados até a tarde de sábado, 14, quando as operações continuavam tanto na área central do acidente como nas margens dos rios.
Resgate após o naufrágio no Encontro das Águas mobiliza bombeiros e civis
A operação de salvamento envolveu bombeiros, equipes da Marinha do Brasil e embarcações civis que transitavam pela rota Manaus–interior. O 9.º Distrito Naval destacou uma aeronave do 1.º Esquadrão de Helicópteros de Emprego Geral do Noroeste, uma embarcação do 1.º Batalhão de Operações Ribeirinhas e duas lanchas da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental. Mergulhadores realizaram varreduras subaquáticas e patrulhas ribeirinhas varreram as margens à procura de eventuais sobreviventes ou vítimas.
Os dados colhidos junto aos 71 sobreviventes, imediatamente registrados pelas equipes de busca, servem hoje de base para o Inquérito Administrativo sobre Acidentes e Fatos da Navegação (IAFN), aberto para determinar causas e responsabilidades. A preocupação inicial, contudo, concentrou-se em estabilizar os resgatados e contabilizar desaparecidos.
Vítimas do naufrágio no Encontro das Águas: perfis de Lara Bianca e Samila de Souza
Duas mortes foram confirmadas nas primeiras horas após o desastre. As vítimas fatais, de perfis bastante distintos, simbolizam o impacto social do episódio:
Lara Bianca, 22 anos — Nascida em Nova Olinda do Norte, estudava odontologia na capital e estava prestes a concluir a graduação. Conhecida pela dedicação acadêmica, era considerada motivo de orgulho pelos pais e amigos. Seu corpo foi transportado para a cidade natal, onde o velório ocorre em uma igreja evangélica no centro do município. O sepultamento foi programado para domingo, 15.
Samila de Souza, 3 anos — Natural de Urucurituba, viajava de volta para casa ao lado da avó, de um tio e de um irmão de oito anos, após passar férias em Manaus. A menina visitava a capital pela primeira vez, motivada pelo desejo de conhecer shoppings e atrações urbanas. O corpo foi levado para a comunidade vizinha a Nova Olinda do Norte, onde será velado. O local de enterro ainda não foi divulgado.
As cerimônias provocaram forte comoção. Em Urucurituba, a prefeitura cancelou as festividades de Carnaval diante do clima de luto na cidade. Em Nova Olinda do Norte, o naufrágio transformou-se no principal assunto entre moradores, impactando o cotidiano de um município que depende fortemente do transporte fluvial para deslocamentos até a capital.
Situação do comandante e procedimentos legais
O condutor da lancha, identificado como José Pedro da Silva Gama, 42 anos, foi detido em flagrante no porto de Manaus após desembarcar com sobreviventes. A prisão ocorreu sob acusação de homicídio culposo — quando não há intenção de matar — em razão das mortes registradas. Em seguida, ele obteve liberdade mediante pagamento de fiança, mas continuará respondendo ao processo.
Passageiros afirmam que, momentos antes do naufrágio, o comandante teria sido alertado para reduzir a velocidade devido às ondas formadas no local. Ainda à deriva, uma das sobreviventes gravou depoimento em vídeo informando que havia pedido prudência à tripulação. Esses relatos integram agora o conjunto de evidências analisadas pelo inquérito naval.
Investigação sobre causas e responsabilidades do acidente
A Marinha do Brasil, por meio da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental, conduz o IAFN aberto logo após o afundamento. O procedimento administrativo busca responder a três questões centrais: o estado de conservação da embarcação, o comportamento operacional do comandante e possíveis fatores ambientais que tenham contribuído para o sinistro.
Embora a análise preliminar aponte a presença de banzeiro no momento do acidente, não se descartam falhas estruturais ou sobrecarga de passageiros. A empresa Lima de Abreu Navegações, proprietária da lancha, terá de apresentar documentação técnica, licenças de navegação e certificados de segurança da Lima de Abreu XV. Testemunhos dos 71 sobreviventes também serão comparados para identificar convergências em relação à dinâmica do naufrágio.
Os prazos legais para a conclusão do inquérito podem variar, mas a legislação marítima determina que o relatório preliminar seja encaminhado às autoridades competentes dentro de um período estabelecido por norma interna da Marinha. Caso sejam constatadas infrações, os responsáveis poderão responder tanto na esfera administrativa quanto na criminal.
Repercussão nas comunidades de Nova Olinda do Norte e Urucurituba
O transporte fluvial é vital para o interior do Amazonas, conectando comunidades ribeirinhas isoladas à capital. Por isso, cada acidente gera reflexos diretos na rotina local. Em Nova Olinda do Norte, onde residia Lara Bianca, escolas, comércios e serviços públicos registraram movimento abaixo do normal no sábado, dia posterior ao naufrágio, em sinal de respeito às famílias atingidas. Já em Urucurituba, a decisão de suprimir eventos carnavalescos foi tomada em assembleia municipal, envolvendo representantes da prefeitura e lideranças comunitárias.
Entre os moradores, um sentimento recorrente é o de insegurança quanto à navegação de lanchas regionais. Muitos deslocamentos diários utilizam essas embarcações, que operam em rotas de aproximadamente três horas entre Manaus e o baixo rio Madeira. O episódio reforçou discussões a respeito da necessidade de fiscalização reforçada, tarifas compatíveis com manutenção preventiva e campanhas de segurança a bordo. Todas essas preocupações, contudo, serão avaliadas apenas depois que o inquérito estabeleça o que, de fato, causou o naufrágio.
Próximos passos oficiais: as buscas pelos sete desaparecidos permanecem ativas, envolvendo mergulhadores e patrulhas ribeirinhas ao longo das margens. Paralelamente, a Marinha do Brasil seguirá coletando depoimentos e documentos para o IAFN. As famílias das vítimas aguardam esses resultados para compreender por completo o que levou à tragédia no Encontro das Águas.

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