Mostra de Tiradentes exorciza ditadura, premia “Anistia 79” e enfrenta fantasmas políticos e financeiros

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A Mostra de Tiradentes chegou à 29ª edição cercada por imagens, discursos e metáforas de fantasmas. Entre a neblina persistente que cobriu a serra mineira e a presença de títulos que encaram ausências, a principal amostra do cinema independente brasileiro premiou obras que revisitam o passado autoritário do país, refletiram sobre o presente político e expuseram a fragilidade estrutural do setor audiovisual.
- Fantasma no palco de abertura: “O Fantasma da Ópera” e a atmosfera de 2026
- Prêmios principais reforçam eixo temático da Mostra de Tiradentes
- “As Florestas da Noite” amplia repertório espectral e conta com elenco de peso
- O Fórum e o fantasma eleitoral: política invade a Mostra de Tiradentes
- Financiamento contínuo: dependência de patrocinadores e riscos à longevidade
- Programação se encerra sob sol tímido com “Copacabana, 4 de Maio”
- Ponto de chegada e expectativa: 2027 marca três décadas da Mostra de Tiradentes
Fantasma no palco de abertura: “O Fantasma da Ópera” e a atmosfera de 2026
O primeiro contato do público com a programação deste ano se deu com “O Fantasma da Ópera”, longa de Júlio Bressane exibido na abertura do festival. A projeção coincidiu com uma semana de chuvas intensas que encobriram Tiradentes em nevoeiro denso, criando um ambiente literal para o tema que se tornaria recorrente: a presença de espectros na história e no cotidiano do cinema nacional.
Prêmios principais reforçam eixo temático da Mostra de Tiradentes
Na cerimônia de encerramento, dois troféus enfatizaram a necessidade de lidar com fantasmas históricos. “Anistia 79” recebeu o prêmio do júri popular e o Carlos Reichenbach, concedido pelo júri oficial. O longa de Anita Leandro utiliza registros de arquivo da ditadura militar brasileira para revisitar a Conferência Internacional pela Anistia, ocorrida quase meio século atrás, reacendendo o debate sobre a impunidade de torturadores.
No formato curta-metragem, o vencedor foi “Entrevista com Fantasmas”, de LK. A obra traça paralelos com “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho, ao discutir a extinção das antigas salas de exibição que, em muitos centros urbanos, deram lugar a estabelecimentos comerciais como grandes redes varejistas.
“As Florestas da Noite” amplia repertório espectral e conta com elenco de peso
A programação apresentou ainda “As Florestas da Noite”, de Priscyla Bettim e Renato Coelho, projeção da mostra Olhos Livres. O filme, em preto e branco, acompanha o ator Silvero Pereira circulando por uma São Paulo silenciosa. No elenco, nomes reconhecidos como Helena Ignez e Carlos Francisco reforçam o olhar fantasmagórico ao compor uma narrativa ambientada numa noite aparentemente interminável.
O Fórum e o fantasma eleitoral: política invade a Mostra de Tiradentes
Paralelamente às sessões, o Fórum de Tiradentes debateu políticas públicas para o audiovisual. Representantes do governo federal sustentaram que a continuidade da produção cinematográfica dependeria do resultado eleitoral, defendendo abertamente a escolha de Luiz Inácio Lula da Silva para preservar incentivos e financiamento. A defesa explícita, a seis meses do início oficial da campanha, expôs o temor de um retorno de forças consideradas hostis à cultura.
Essa preocupação se cristalizou na Carta de Tiradentes, documento anual elaborado pelo fórum. Entre as diretrizes, artistas e gestores pedem a criação de um Sistema Nacional do Audiovisual que descentralize decisões sobre verbas públicas, visando estabilidade que supere mandatos do Executivo. O texto também recoloca a regulamentação dos serviços de streaming como ponto prioritário, tema que tramita em Brasília desde 2017 e permanece sem deliberação final.
Financiamento contínuo: dependência de patrocinadores e riscos à longevidade
Apesar de quase três décadas de atividade, a organização da Mostra de Tiradentes segue iniciando cada edição em busca de recursos. Petrobras e Itaú figuram entre os principais financiadores, mas não há garantias de permanência. Segundo a direção do evento, a preparação para o marco de 30 anos, em 2027, deve começar “do zero”, repetindo o ciclo anual de captação.
A ausência de um mecanismo perene de fomento gera insegurança para festivais e profissionais. Esse sentimento foi verbalizado pela homenageada da edição, a atriz Karine Teles, ao comentar o desgaste diante da falta de garantias sobre o futuro de trabalhos no setor cultural.
Programação se encerra sob sol tímido com “Copacabana, 4 de Maio”
O último dia da mostra contrariou a previsão de mais chuva e recebeu o público com céu aberto. A sessão de encerramento exibiu “Copacabana, 4 de Maio”, de Allan Ribeiro, que registra o público presente no show de Madonna em 2024, contrastando com obras anteriores do festival ao evitar referências fantasmagóricas.
Ponto de chegada e expectativa: 2027 marca três décadas da Mostra de Tiradentes
Com a conclusão da 29ª edição, o festival mira 2027, quando completará 30 anos. Até lá, a organização permanece sujeita a incertezas políticas e financeiras, enquanto o setor aguarda definições sobre streaming e a possível implantação de um sistema nacional de financiamento que ultrapasse governos.
O retorno a Tiradentes no próximo ano deve ocorrer sob a mesma névoa de dúvidas, mas com a convicção de que, seja nas telas ou nas discussões de bastidores, o fantasma da incerteza seguirá exigindo atenção do audiovisual brasileiro.

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