Morte em piscina: como a mistura de químicos em ambiente fechado provocou tragédia em São Paulo

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A morte em piscina registrada numa academia de natação no Parque São Lucas, Zona Leste da capital paulista, tornou-se objeto de um inquérito policial que apura a hipótese de liberação de gases tóxicos após a mistura de produtos químicos dentro do mesmo ambiente onde uma aula era ministrada. A vítima fatal foi a professora Juliana Faustino Bassetto, 27 anos, que participava da atividade ao lado do marido e de outros sete alunos no sábado, 7 de setembro. Cinco pessoas adoeceram, duas continuam hospitalizadas e a responsabilidade sobre a manutenção da água é o foco central das investigações.
- O que já se sabe sobre a morte em piscina
- Linha do tempo da aula até o atendimento médico
- Manipulação de produtos químicos e risco de ambiente fechado na morte em piscina
- Estado de saúde das vítimas e procedimentos médicos
- Irregularidades estruturais e documentais na academia
- Histórico de reclamações e contexto de cheiro de produtos químicos
- Próximos passos da investigação sobre a morte em piscina
O que já se sabe sobre a morte em piscina
De acordo com o 42º Distrito Policial, comandado pelo delegado Alexandre Bento, a sequência de eventos começou quando um funcionário identificado como manobrista preparou um balde de aproximadamente 20 litros com substâncias usadas no tratamento da água. Câmeras internas mostraram o empregado manipulando esses agentes químicos na área dos fundos, colada à piscina onde ainda ocorria a última aula do dia. O recipiente foi deixado ao lado da borda até que os nadadores terminassem o treino. Nesse intervalo, gases teriam se acumulado no espaço fechado, de pouca circulação de ar, provocando sintomas de asfixia em quem já se encontrava na água.
O odor incomum e o gosto estranho percebidos por vários participantes motivaram o encerramento precoce da atividade. Juliana e o marido buscaram auxílio no Hospital Santa Helena, em Santo André, mas a professora apresentou rápida piora, evoluindo para parada cardíaca e falecendo poucas horas depois. A principal linha de apuração é de homicídio culposo, já que, segundo a polícia, não houve intenção de causar dano, porém houve negligência na forma como os agentes químicos foram manuseados.
Linha do tempo da aula até o atendimento médico
Os registros das câmeras permitem reconstituir, minuto a minuto, a sucessão de acontecimentos. Às 13h20, início da aula, nove alunos começaram o treino na piscina adulta. Por volta das 13h50, as imagens captam o manobrista entrando com o balde preparado. Em menos de dez minutos, vários estudantes relatam o forte cheiro. O marido de Juliana, percebendo a situação, alertou colegas e instrutores. A remoção do grupo para fora da água ocorreu antes de qualquer intervenção do funcionário que manipulou a mistura, o qual deixou o local pouco depois sem prestar esclarecimentos.
O trajeto até o hospital foi feito de forma particular. Ainda de acordo com o boletim de ocorrência, Juliana deu entrada já apresentando dificuldade respiratória severa. O quadro progrediu para parada cardiorrespiratória mesmo com as tentativas de reanimação. O marido permaneceu em observação e, posteriormente, foi internado em estado grave. Um adolescente de 14 anos também segue intubado. Outras duas pessoas receberam alta após estabilização dos sintomas, caracterizados por tosse intensa, irritação ocular e desconforto pulmonar.
Manipulação de produtos químicos e risco de ambiente fechado na morte em piscina
A investigação preliminar indica que a principal falha ocorreu no procedimento de manutenção. Segundo o delegado Bento, o manobrista — cuja função original não inclui tratamento de água — assumiu a tarefa de misturar compostos normalmente utilizados em piscinas, entre eles cloro e substâncias para controle de pH. O preparo dentro de local fechado, sem exaustão adequada, teria criado nuvem tóxica que se concentrou ao nível da superfície, exatamente onde os alunos respiravam.
A exposição a cloro gasoso e a subprodutos resultantes de misturas equivocadas pode desencadear queimaduras na mucosa respiratória, broncoespasmo e, em casos extremos, edema pulmonar agudo. Essas complicações são compatíveis com a evolução clínica de Juliana. Embora a confirmação das substâncias dependa da perícia, o histórico de queixas de cheiro forte de cloro relatado por ex-alunos reforça a hipótese de uso excessivo ou inadequado desses agentes nos meses anteriores.
Estado de saúde das vítimas e procedimentos médicos
O grupo total de vítimas contabilizado pela Polícia Civil reúne cinco pessoas. Duas permanecem internadas: o marido da professora e o adolescente de 14 anos mencionado anteriormente. Ambos respiram com suporte mecânico. Os outros dois pacientes já receberam alta, segundo informações apuradas junto à unidade hospitalar responsável. Relatos médicos preliminares apontam irritação das vias aéreas, queda de saturação de oxigênio e, em um caso, princípio de edema pulmonar.
O Hospital Santa Helena, referência regional em atendimento de urgência, instaurou protocolo de intoxicação por substâncias químicas de uso doméstico ou industrial logo que foi informada a suspeita pela equipe de resgate. Amostras de secreções e exames de imagem foram coletados e encaminhados para análise toxicológica a fim de determinar o agente exato envolvido.
Irregularidades estruturais e documentais na academia
Apesar de funcionar há vários anos no bairro, a academia C4 Gym encontra-se sob nova administração desde 2022. A Subprefeitura da Vila Prudente confirmou a inexistência de alvará de funcionamento válido no momento do incidente. Após vistoria emergencial, o estabelecimento foi lacrado por deficiência documental e precariedade de instalações elétricas. Tais pontuações serão anexadas ao inquérito para avaliar a extensão de eventual responsabilização cível e criminal.
A ausência de licença municipal indica que etapas obrigatórias de inspeção sanitária, prevenção contra incêndio e verificação das condições de ventilação não foram concluídas ou renovadas. Como a piscina está localizada em ambiente coberto, a falta de exaustores e de janelas amplas foi considerada circunstância agravante para a concentração dos gases.
Histórico de reclamações e contexto de cheiro de produtos químicos
Mães de ex-alunos relataram ter cancelado matrículas devido ao odor constante de química no local. Um e-mail enviado em abril por uma responsável — anexado ao inquérito — descreve tosse persistente na criança e vestimentas desbotadas após as aulas. A academia respondeu, na ocasião, que a água era tratada com ozônio e dose mínima de cloro, informando reparo em equipamento defeituoso. Contudo, depoimentos de outros frequentadores apontam que o cheiro ácido persistia mesmo após a suposta regularização.
Essas manifestações reforçam a linha de investigação sobre práticas de manutenção realizadas por pessoas sem treinamento específico. A função de manobrista, tradicionalmente voltada a organizar o estacionamento de veículos, não exige formação em tratamento de piscinas, atividade que demanda conhecimento de química básica, normas de segurança e uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).
Próximos passos da investigação sobre a morte em piscina
O funcionário responsável pelo preparo do balde não havia sido localizado até a última atualização das buscas. A Polícia Civil pretende ouvi-lo para esclarecer quem determinou o procedimento, qual era a composição exata dos produtos e por que a mistura ocorreu antes do término das aulas. Laudos do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico-Legal foram requisitados para definir causa mortis, concentração de gases no ambiente e condições técnicas da piscina.
Também serão analisados documentos internos da academia, inclusive eventuais protocolos de segurança, fichas de manutenção e contratos de trabalho. Caso se confirme a negligência operacional combinada à ausência de licença, o responsável legal pelo estabelecimento, além do funcionário que manipulou os produtos, pode responder por homicídio culposo, lesão corporal e crime contra a saúde pública.
A reabertura do espaço depende de regularização documental, adequação das instalações e liberação da subprefeitura. Enquanto isso, familiares aguardam os resultados periciais para entender em detalhes como a sucessão de falhas resultou na morte de Juliana Faustino Bassetto e deixou outras vítimas em estado grave.
Os laudos laboratoriais, que serão anexados ao processo, representam o próximo marco determinante das investigações.

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