MITsp 2026 destaca violência e resistência: Édouard Louis, diversidade regional e desafios financeiros em pauta

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MITsp, a 11ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, acontece de 6 a 15 de março de 2026 em vários palcos da capital paulista e coloca a violência e os caminhos de resistência artística no centro da discussão.
- MITsp reforça foco em violência, opressão e resistência
- Édouard Louis conduz a abertura da MITsp e apresenta díptico sobre violência estrutural
- Produções internacionais ampliam debate sobre opressão contemporânea na MITsp
- MITsp valoriza produções nacionais e resistência coletiva
- MITsp enfrenta orçamento reduzido e expõe desafios do financiamento cultural
- Serviço: datas, locais e venda de ingressos para a 11ª MITsp
MITsp reforça foco em violência, opressão e resistência
Nesta edição, a curadoria adotou como eixo temático as diferentes manifestações de violência e as respostas criadas por artistas de diversas partes do mundo. A escolha dialoga com acontecimentos sociais contemporâneos, como preconceito, xenofobia e desigualdade, e transforma a programação em uma plataforma de debate público apoiada pela arte cênica. A mostra foi anunciada com o objetivo de funcionar como caixa de ressonância de temas candentes e apresenta produções que exploram desde ataques virtuais até perseguição política, sem perder de vista estratégias comunitárias de sobrevivência.
Édouard Louis conduz a abertura da MITsp e apresenta díptico sobre violência estrutural
O pontapé inicial da 11ª MITsp será dado no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, com “História da Violência”, adaptação teatral do livro homônimo do escritor francês Édouard Louis. A encenação leva a assinatura do alemão Thomas Ostermeier e da companhia berlinense Schaubühne, reafirmando o caráter internacional do festival. Seguindo o caminho traçado pelo romance, o espetáculo utiliza o episódio de violência sexual sofrido pelo autor em 2012 como fio narrativo para abordar homofobia, racismo e xenofobia.
O escritor francês volta a subir ao palco em “Quem Matou Meu Pai”, segunda obra de sua autoria escolhida pela MITsp. Nesta montagem, o próprio Édouard Louis discute como a falta de oportunidades e as desigualdades socioeconômicas moldaram o comportamento de seu pai. O diretor artístico da mostra, Antonio Araújo, classifica os dois trabalhos como um díptico que examina a violência de natureza íntima e estrutural sob diferentes perspectivas, embora cada peça permaneça autônoma.
Produções internacionais ampliam debate sobre opressão contemporânea na MITsp
A programação estrangeira não se limita ao trabalho de Édouard Louis. A canadense Théâtre Prospero apresenta “Vigiada e Punida”, dirigida por Philippe Cyr. A obra parte das agressões gordofóbicas sofridas pela cantora Safia Nolin nas redes sociais e transforma mensagens de ódio em material sonoro. O diretor reorganiza as ofensas reais em uma partitura musical, criando uma reflexão cênica sobre violência virtual e exposição do corpo.
O dramaturgo congolês Dieudonné Niangouna chega a São Paulo com “Do Lado de Cá”. Vítima de perseguição política em seu país, o artista foi condenado à morte em 2015 após criticar eleições fraudulentas e precisou buscar refúgio na França. A peça traz a história de um ator exilado, espelhando sua trajetória pessoal. Em 2019, Niangouna não pôde embarcar para a MITsp porque o governo congolês recusou-se a renovar seu passaporte, obrigando-o a participar por vídeo. Sua presença física em 2026 é celebrada pela organização como reparação simbólica daquele episódio.
MITsp valoriza produções nacionais e resistência coletiva
No campo brasileiro, a mostra agrega obras que sugerem caminhos de resistência à opressão. “Epílogo”, da dupla Chameckilerner, formada por Rosane Chamecki e Andrea Lerner, desafia o etarismo e padrões estéticos por meio da dança e da performance. Já “TA – Sobre Ser Grande”, do Corpo de Dança do Amazonas, inspira-se no povo indígena tikuna para exaltar a capacidade de superação de grupos historicamente marginalizados.
A fim de descentralizar a produção cênica no país, a MITsp incorpora um recorte dedicado ao Centro-Oeste. Três obras simbolizam essa estratégia: “Atrás das Paredes”, de Brasília; “Cavucada – A Festa Não Será Amanhã”, do Mato Grosso; e “Dança Boba”, de Goiás. A agenda nacional ainda inclui uma mostra de performance de artistas negros com 12 horas de duração na sede do Instituto Brasileiro de Teatro, na região central da capital, fortalecendo a visibilidade de criadores historicamente sub-representados.
MITsp enfrenta orçamento reduzido e expõe desafios do financiamento cultural
Apesar da diversidade de vozes e da relevância temática, a 11ª edição chega ao público marcada por restrições financeiras. O diretor-geral de produção, Guilherme Marques, informa que apenas R$ 3,7 milhões foram captados para 2026 – montante distante dos R$ 13 milhões considerados ideais para viabilizar 15 produções nacionais e 15 internacionais, proposta original da mostra. O contraste aparece quando comparado ao Festival d’Avignon, na França, cujo orçamento atingiu € 17 milhões em 2023 (aproximadamente R$ 105 milhões), parte proveniente de subsídios governamentais.
Os custos para trazer companhias estrangeiras ilustram a dificuldade financeira. Em 2025, cerca de R$ 700 mil foram gastos somente para transportar “Vagabundus”, do diretor moçambicano Idio Chichava. Mesmo diante dos gargalos, Marques reitera o compromisso da MITsp em funcionar como ponte de diálogo intercultural, sustentando que a persistência do festival demonstra a importância de políticas públicas mais consistentes e da participação de patrocinadores privados no ecossistema das artes cênicas brasileiras.
Serviço: datas, locais e venda de ingressos para a 11ª MITsp
A MITsp 2026 ocorre de 6 a 15 de março em diferentes endereços da cidade de São Paulo, incluindo o Sesc Pinheiros e a sede do Instituto Brasileiro de Teatro. Os ingressos começam a ser vendidos em 12 de fevereiro pelo site oficial do festival.

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