Ministério Público ajuíza ação por racismo contra o Shopping Higienópolis em São Paulo

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No centro de uma disputa judicial que envolve acusações de discriminação racial, o Shopping Higienópolis passou a ser réu em uma ação civil pública movida pela Promotoria de Justiça da Infância e Juventude de São Paulo. O Ministério Público sustenta que três adolescentes negros, alunos do Colégio Equipe, foram vítimas de abordagem discriminatória por parte de uma funcionária terceirizada responsável pela segurança do centro de compras.
- Ministério Público aciona o Shopping Higienópolis na Justiça
- Episódio de racismo na praça de alimentação do Shopping Higienópolis
- Investigação e tentativa de acordo extrajudicial
- Medidas solicitadas contra o Shopping Higienópolis
- Pedido de indenização de R$ 10 milhões e combate estrutural ao racismo
- Próximos passos no processo judicial
Ministério Público aciona o Shopping Higienópolis na Justiça
De acordo com a Promotoria, o incidente foi formalizado em um inquérito civil instaurado logo após os fatos. Durante a apuração, o órgão colheu depoimentos, reuniu documentos e conduziu reuniões com representantes do Shopping Higienópolis. A iniciativa culminou na elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), instrumento extrajudicial que buscava comprometer o empreendimento a adotar providências reparatórias e preventivas. Entretanto, como o shopping não assinou o termo no prazo estipulado, a promotoria decidiu ajuizar a ação civil pública, transferindo a discussão para o Poder Judiciário.
Episódio de racismo na praça de alimentação do Shopping Higienópolis
O caso que originou a investigação ocorreu em abril do ano anterior. Dois estudantes negros almoçavam na praça de alimentação com colegas — dentre eles, uma aluna branca. Segundo a denúncia, a segurança terceirizada dirigiu-se exclusivamente à adolescente branca e quis saber se ela estaria sendo abordada pelos amigos para pedir dinheiro. A aluna respondeu que tratava-se de seus colegas de escola e questionou se a indagação tinha ligação com a cor da pele dos rapazes. Para o Ministério Público, essa discrepância de tratamento configura ato de cunho racial, pois pressupôs comportamento inadequado apenas em razão da aparência dos adolescentes negros.
Investigação e tentativa de acordo extrajudicial
Diante do relato, o Ministério Público instaurou um inquérito civil para examinar a conduta do estabelecimento. O procedimento compreendeu:
1. Coleta de informações preliminares: Foram reunidos detalhes sobre a abordagem, o perfil dos envolvidos e o contexto temporal e espacial do fato.
2. Reuniões com representantes do shopping: A promotoria buscou entender os protocolos de segurança existentes e avaliar se havia políticas de prevenção a práticas discriminatórias.
3. Redação do TAC: O documento previa ajustes como treinamento de pessoal, criação de núcleo de atendimento social interno e revisão dos procedimentos de vigilância.
Apesar de acordado verbalmente, o TAC não foi ratificado formalmente pelo Shopping Higienópolis dentro do prazo. Segundo a promotoria, essa omissão inviabilizou a via conciliatória e tornou necessária a propositura da ação.
Medidas solicitadas contra o Shopping Higienópolis
Na ação civil pública, o Ministério Público lista providências que considera essenciais para extinguir práticas discriminatórias e proteger crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade dentro do centro comercial:
Ampliação do núcleo social: O órgão requer que o shopping mantenha, durante todo o horário de funcionamento, equipe formada por assistente social e psicólogo disponível para atendimento presencial.
Abordagem exclusiva por profissionais qualificados: Segundo o pedido, apenas integrantes desse núcleo social poderão intervir junto a menores em situação de risco ou vulnerabilidade. Seguranças e vigilantes ficariam restritos a casos de perigo iminente à integridade física ou a flagrante de ato infracional equiparado a crime.
Contratação de consultoria: O Ministério Público demanda que o estabelecimento recorra a especialistas em enfrentamento ao racismo em espaços públicos, com objetivo de rever políticas internas, treinar funcionários e monitorar resultados.
Pedido de indenização de R$ 10 milhões e combate estrutural ao racismo
Além das medidas administrativas, a promotoria requer que o Shopping Higienópolis seja condenado ao pagamento de R$ 10 milhões a título de danos morais coletivos. O valor seria destinado a fundos públicos ligados à promoção de direitos de crianças e adolescentes ou a iniciativas de combate à discriminação. Segundo a peça inicial, a indenização visa reparar não apenas o sofrimento dos estudantes envolvidos, mas também a coletividade, na medida em que condutas racistas atingem toda a sociedade.
O Ministério Público também argumenta que a contratação de consultoria especializada é indispensável para modificar estruturas internas, uma vez que treinamentos pontuais não bastariam para prevenir reincidências. Dessa forma, pretende-se assegurar que políticas antirracistas façam parte da rotina do shopping, alcançando desde a seleção de terceirizados até a abordagem do público.
Próximos passos no processo judicial
Procurado após o ajuizamento da ação, o Shopping Higienópolis informou que desconhece os termos apresentados pela promotoria e que só se manifestará nos autos quando for formalmente citado. A partir da citação, o empreendimento terá prazo legal para contestar as acusações, apresentar provas e propor eventuais acordos. Caso não haja conciliação, o processo seguirá para fases de instrução e julgamento, podendo resultar em condenação, acordo homologado judicialmente ou improcedência do pedido.
O Ministério Público, por sua vez, aguarda a citação do réu e a designação da primeira audiência, etapa em que poderá insistir na assinatura de compromisso ou prosseguir com a demanda. Até que o Judiciário decida, permanecem válidos os pedidos de criação do núcleo social, restrição de abordagens por seguranças e indenização pelos danos morais coletivos.
Nos termos apresentados, a próxima data relevante para acompanhamento será a formalização da citação, que abrirá o prazo processual de defesa do Shopping Higienópolis.

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