Mercado de trabalho no Brasil exibe desemprego mínimo histórico, mas desigualdades regionais persistem

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O mercado de trabalho no Brasil encerrou 2025 com a mais baixa taxa de desemprego já registrada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde o início da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, em 2012. Embora o resultado represente um avanço expressivo, a análise detalhada dos dados mostra que o cenário é heterogêneo: metade dos estados opera com índices de desocupação superiores à média nacional e seis unidades federativas convivem com informalidade majoritária. Esse contraste revela que, por trás da melhora geral, permanecem barreiras históricas ligadas à estrutura produtiva, à qualificação da mão de obra e à distribuição setorial das atividades econômicas.
- Panorama nacional do mercado de trabalho no Brasil em 2025
- Desigualdades regionais na taxa de desemprego
- Informalidade: o outro lado do mercado de trabalho no Brasil
- Fatores estruturais que explicam a concentração de oportunidades
- Políticas públicas para um mercado de trabalho no Brasil mais equilibrado
- Histórias que ilustram a estatística
Panorama nacional do mercado de trabalho no Brasil em 2025
Segundo o IBGE, o país alcançou o menor percentual de pessoas desocupadas desde 2012. A combinação entre expansão dos serviços, retomada de setores interrompidos pela pandemia e crescimento da agropecuária no Centro-Oeste contribuiu para essa queda. Ainda assim, 15 das 27 unidades federativas registraram taxas de desemprego acima da média nacional, evidenciando que a recuperação não se distribui de maneira uniforme. A heterogeneidade reflete disparidades de infraestrutura, especialização produtiva e acesso a políticas públicas voltadas à qualificação profissional.
O IBGE, como principal órgão de estatística oficial do país, serve como base para o planejamento governamental e para decisões do setor privado. Já a Fundação Getulio Vargas, por meio do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), monitora a conjuntura e produz estudos que ajudam a compreender a dinâmica regional do emprego. O economista e pesquisador Rodolpho Tobler, referência em mercado de trabalho, destaca que o avanço recente tem raízes distintas em cada região, exigindo leituras específicas antes da formulação de políticas de geração de vagas formais.
Desigualdades regionais na taxa de desemprego
A leitura por estado revela extremos. Enquanto Mato Grosso, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul apresentam os menores índices de desocupação, Piauí, Bahia e Pernambuco enfrentam as maiores dificuldades para inserir trabalhadores em ocupações formais ou informais. Os estados do Sul e do Sudeste, tradicionalmente industrializados, contam com cadeias produtivas diversificadas e infraestruturas consolidadas, capazes de absorver mão de obra em setores de maior valor agregado. Já no Nordeste, a dependência de atividades menos produtivas potencializa a vulnerabilidade do emprego quando as condições macroeconômicas oscilam.
No Centro-Oeste, o desempenho favorável decorre principalmente da expansão do agronegócio. A região tornou-se polo de tecnologia aplicada à produção agrícola, impulsionando serviços de logística, comércio e manutenção que orbitam em torno das lavouras. Essa multiplicação de postos, porém, não necessariamente se reflete em empregos formais em todas as localidades; parte das vagas permanece sujeita à sazonalidade das colheitas e à informalidade.
Informalidade: o outro lado do mercado de trabalho no Brasil
Seis estados — Maranhão, Pará, Bahia, Piauí, Ceará e Amazonas — registram maior participação de trabalhadores sem carteira assinada do que de empregados formais. No Maranhão, a cada dez pessoas ocupadas, seis atuam sem vínculo formal, o que limita acesso a previdência, férias remuneradas e outros direitos. Esse padrão repete-se em parte da Região Norte, onde a economia se baseia em atividades extrativistas e no comércio de rua.
Nas regiões onde a informalidade é menor, como Santa Catarina, Distrito Federal e São Paulo, a presença de indústrias de transformação, serviços empresariais e administração pública pesa a favor da formalização. A diferença comprova que cadeias produtivas de maior complexidade geram empregos com carteira assinada em proporção maior, pois demandam profissionais qualificados e precisam de segurança jurídica para atrair investimentos de longo prazo.
Fatores estruturais que explicam a concentração de oportunidades
A produtividade setorial aparece como eixo central das desigualdades. Nos estados do Sul e Sudeste, indústrias de automóveis, metalurgia, alimentos processados e tecnologia da informação respondem pela criação de valor. Além disso, a densidade de serviços avançados — como finanças, design e pesquisa — estimula contratações com salários superiores. Em contraposição, boa parte do Norte e Nordeste depende de segmentos primários, que agregam menos valor e contratam predominantemente mão de obra de baixa escolaridade.
Especialistas da FGV Ibre observam que a formação do trabalhador é determinante para atrair empresas mais produtivas. Qualificação insuficiente desencoraja investimentos que exigem competências técnicas, perpetuando ciclos de baixa renda e informalidade. Ao mesmo tempo, deficiências de infraestrutura — estradas precárias, restrições de saneamento e conectividade limitada — elevam custos logísticos e afastam iniciativas de maior intensidade tecnológica, reforçando a disparidade regional.
Políticas públicas para um mercado de trabalho no Brasil mais equilibrado
Reduzir as assimetrias requer ações integradas que combinem formação profissional, incentivo à diversificação da matriz econômica e melhoria da infraestrutura. Programas de qualificação alinhados às necessidades de cada arranjo produtivo local podem elevar a empregabilidade. Para além da educação técnica, políticas de crédito direcionado e apoio à inovação contribuem para que micro e pequenas empresas saiam da informalidade e ampliem contratações regulares.
Governos estaduais e municipais têm papel decisivo no planejamento territorial, atraindo investimentos através de zonas industriais, parques tecnológicos e incentivos fiscais condicionados à geração de empregos formais. Experiências bem-sucedidas no Sul e no Centro-Oeste mostram que a articulação entre setor público, universidades e iniciativa privada aumenta a efetividade das políticas, gerando cadeias de suprimentos que dinamizam a economia local.
Histórias que ilustram a estatística
O cotidiano de trabalhadores autônomos ajuda a compreender o impacto concreto dos números divulgados. Migrante do Maranhão para o Rio de Janeiro, um vendedor de amendoim encontrou na rua a alternativa de renda após não conseguir vaga formal. Embora a atividade garanta sustento, o retorno financeiro costuma ser reduzido e sem proteção social. Em Salvador, um ambulante que perdeu o emprego na pandemia diversificou os produtos que oferece para manter o fluxo de clientes, mas não dispõe de férias regulares nem seguro-desemprego.
Enquanto isso, em São Paulo e em Santa Catarina, empregados formais desfrutam de maior estabilidade, plano de saúde e previdência. O contraste mostra que, apesar da recuperação geral do emprego, as condições de trabalho permanecem díspares. Projetos que facilitem a transição de informais para microempreendedores individuais podem mitigar parte dessas vulnerabilidades, mas dependem de apoio contínuo, acesso a crédito e simplificação tributária.
Com o cenário atual, o próximo conjunto de dados trimestrais do IBGE será aguardado para verificar se o ritmo de criação de vagas formais se consolida e se os estados com taxas elevadas de desemprego começam a convergir para a média nacional.

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