María Corina Machado reage a Trump, confronta Delcy Rodríguez e anuncia retorno à Venezuela

María Corina Machado reage a Trump, confronta Delcy Rodríguez e anuncia retorno à Venezuela

María Corina Machado tornou-se novamente o centro do debate político venezuelano depois de ter sido descartada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como possível líder de transição no país. A dirigente, reconhecida como o rosto mais visível do segmento radical da oposição, rebateu a avaliação de Trump, atacou a presidente interina Delcy Rodríguez e assegurou que regressará à Venezuela “o mais breve possível”, declaração feita poucos dias depois do sequestro do presidente Nicolás Maduro, ocorrido no sábado, 3 de janeiro.

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María Corina Machado critica Delcy Rodríguez e exalta Trump

Em entrevista concedida à emissora norte-americana Fox News, María Corina Machado concentrou críticas diretas em Delcy Rodríguez, atual chefe do Executivo interino venezuelano. Segundo a opositora, Rodríguez figura entre as principais responsáveis pela repressão estatal e mantém relações estreitas com Rússia, China e Irã, circunstância que, na visão de Machado, afasta potenciais investidores internacionais. Durante o mesmo diálogo televisivo, a ex-deputada agradeceu a Trump pela operação que culminou na captura de Maduro, classificando o 3 de janeiro como “o dia em que a Justiça derrotou a tirania” e interpretando a ação como um passo decisivo rumo à liberdade do país.

Embora tenha valorizado a atuação norte-americana, Machado foi surpreendida pela resposta do próprio Trump. Questionado sobre a possibilidade de ela assumir a Presidência, o mandatário norte-americano avaliou que a opositora “não dispõe de apoio interno suficiente”, descrevendo-a como pessoa simpática, porém carente do respeito necessário para liderar o processo de transição. A declaração expôs uma divergência pública entre ambos e adicionou novo elemento de tensão ao já fraturado cenário oposicionista.

Sequestro de Nicolás Maduro intensifica disputas internas na Venezuela

A operação que removeu Nicolás Maduro do poder provocou reacomodações imediatas. Com a ausência do presidente, Delcy Rodríguez passou a chefiar um governo interino que tenta manter a estrutura estatal funcionando. Ao mesmo tempo, diferentes correntes oposicionistas buscam capitalizar o vácuo de autoridade. María Corina Machado, mesmo do exterior, afirmou que pretende regressar rapidamente para participar das definições políticas, sugerindo a convocação de novas eleições como caminho para legitimar um novo governo.

Já a ala moderada da oposição, composta por partidos que continuaram participando de processos eleitorais sob hegemonia chavista, manifestou preferência pelo diálogo com Rodríguez. Essa postura se reflete em demandas concretas, como a libertação de pessoas classificadas como presas políticas. O contraste entre pressões radicais e negociações institucionais torna mais complexa a construção de consensos sobre a transição.

Histórico político de María Corina Machado e a candidatura de Edmundo González

Impedida de disputar a eleição presidencial de 2024 devido a condenação por corrupção no período em que ocupou uma cadeira na Assembleia Nacional, María Corina Machado optou por indicar o diplomata Edmundo González como representante da coalizão opositora. O pleito, realizado em 28 de julho daquele ano, encerrou-se com anúncio oficial de vitória de Nicolás Maduro. Entretanto, a Justiça Eleitoral não divulgou resultados detalhados por urna, fator que motivou questionamentos de observadores internacionais e levou diversos países a não reconhecerem o desfecho.

A liderança oposicionista sustenta que González foi, de fato, o vencedor. Fora do país, o diplomata continua a reivindicar legitimidade presidencial e, após o sequestro de Maduro, considerou o episódio “importante, porém insuficiente” para uma transição efetiva. Dirigindo-se às Forças Armadas, ele pediu cumprimento do “mandato soberano” expresso em 2024, mas os militares não o reconhecem como chefe de Estado.

Oposição dividida: radicalismo de María Corina Machado versus ala moderada

O cientista político Rodolfo Magallanes, do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Central da Venezuela, descreve dois blocos oposicionistas distintos. De um lado, o segmento classificado como radical, encabeçado por María Corina Machado, que contesta os marcos institucionais vigentes e rejeita negociações com líderes ligados ao chavismo. De outro, a chamada ala moderada, que decide permanecer no espectro legal venezuelano, mesmo sob controle chavista, e defende acordos graduais como estratégia para ganhos políticos mensuráveis.

Essa dicotomia ficou evidente nas eleições legislativas de maio de 2025. Os partidos alinhados a Machado boicotaram o pleito, alegando ausência de condições para competir depois das denúncias relacionadas à disputa presidencial anterior. Já formações moderadas concorreram e conquistaram cadeiras, entre elas a legenda Um Novo Tempo, pela qual o deputado Stalin González assumiu mandato em janeiro de 2026. No discurso de posse, González criticou confrontos considerados estéreis e defendeu que a Assembleia Nacional seja palco de debates voltados a reconciliação nacional.

Pronunciamentos de Henrique Capriles e desafios da transição

Outro protagonista do campo opositor, Henrique Capriles — ex-candidato presidencial e ex-governador do estado de Miranda — discordou do boicote parlamentar promovido pelo grupo de María Corina Machado. Capriles disputou a eleição de 2025 e garantiu vaga de deputado federal para o período 2026-2031. Após a captura de Maduro, ele defendeu uma transição ordenada que inclua libertação de presos por motivação política, alertando para riscos de caos e improvisação. Em sua avaliação, erros cometidos em ciclos anteriores não podem prolongar o sofrimento da população.

Capriles enfatizou que a busca por mudanças deve ocorrer dentro de uma solução democrática com “garantias reais para todos”. A posição sinaliza tentativa de equilibrar a pressão por alteração de poder com a necessidade de estabilidade institucional, contrapondo-se a iniciativas que possam ser interpretadas como revanchismo ou ruptura abrupta.

Donald Trump indica preferência por diálogo com Delcy Rodríguez

Ao se referir à liderança venezuelana pós-Maduro, Donald Trump manifestou preferência pelo diálogo direto com Delcy Rodríguez. Na ótica do presidente norte-americano, Rodríguez possui condições de conduzir negociações e estabilizar o país. Ainda que tenha reconhecido a simpatia de María Corina Machado, Trump avaliou que ela carece de respaldo interno suficiente para assumir o comando. Essa sinalização da Casa Branca preserva canal institucional com o governo interino, ao mesmo tempo em que limita as expectativas do bloco radical oposicionista.

A postura de Washington repercute no cálculo político de diferentes atores locais. Enquanto o setor moderado pode ler o posicionamento como aval implícito para processos de negociação, os aliados de Machado interpretam a manifestação de Trump como obstáculo adicional à pretensão de vê-la à frente do Palácio de Miraflores.

María Corina Machado, por sua vez, mantém a promessa de retornar ao país após ter recebido, em outubro, o Prêmio Nobel da Paz por sua atuação contra administrações chavistas. Ela deixou a Venezuela em dezembro para comparecer à cerimônia na Europa e, segundo declarações recentes, pretende desembarcar em Caracas assim que avaliar existirem condições de segurança. Ao confirmar o plano, reforçou metas de transformar a nação em “centro energético das Américas”, restaurar o Estado de Direito, abrir mercados e promover o retorno de milhões de venezuelanos que emigraram.

Até o momento, as Forças Armadas venezuelanas não sinalizaram apoio formal a qualquer figura de oposição. Com a captura de Nicolás Maduro, a chefia interina de Delcy Rodríguez segue buscando legitimação interna e externa, enquanto correntes oposicionistas delineiam estratégias distintas para influenciar o rumo político. O próximo marco do calendário nacional é a continuidade das sessões da Assembleia Nacional comandada por Delcy Rodríguez, onde se esperam novos debates sobre anistia, reformas e eventuais calendários eleitorais.

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