Malecón de Saemangeum: o dique sul-coreano de 33,9 km que bateu recorde mundial e mudou o mapa da costa

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No extremo sudoeste da Coreia do Sul, o Malecón de Saemangeum ergue-se como um cinturão de concreto, rocha e aço que percorre 33,9 quilômetros entre as cidades de Gunsan, Buan e Gimje. Com essa extensão contínua, a obra tornou-se o dique marítimo mais longo já certificado internacionalmente, título registrado em 2011 e sustentado por imagens de satélite que mostram a estrutura visível do espaço. Iniciado no começo da década de 1990 e oficialmente inaugurado em abril de 2010, o projeto ilustra a capacidade humana de remodelar estuários inteiros ao mesmo tempo em que levanta discussões sobre meio ambiente, economia e planejamento urbano.
- Dimensões que colocam o Malecón de Saemangeum no livro dos recordes
- Do debate político à primeira pedra: como o dique saiu do papel
- Engenharia do Malecón de Saemangeum: desafios e soluções à prova de marés
- Transformação territorial: 400 km² destinados a agricultura, logística e cidade planejada
- Impactos ambientais: perda de zonas úmidas e mudança na dinâmica ecológica
- Reconhecimento global e visibilidade espacial do Malecón de Saemangeum
- Lições em curso: monitoramento constante e ajustes operacionais
Dimensões que colocam o Malecón de Saemangeum no livro dos recordes
Quem observa mapas recentes da província de Jeolla do Norte encontra um contorno costeiro bastante distinto do desenho que existia antes de 1991. O Malecón de Saemangeum isolou a antiga baía onde os rios Dongjin e Mangyeong se encontravam com o Mar Amarelo, criando um paredão de quase 34 km. Essa marca superou intervenções similares em tamanho e levou, em 2011, à certificação oficial de “maior dique marítimo contínuo do mundo”. Além da extensão, o empreendimento acumula números expressivos: mais de 22 trilhões de wons sul-coreanos em investimentos e a incorporação de aproximadamente 400 km² de território à península.
Do debate político à primeira pedra: como o dique saiu do papel
A concepção do projeto remonta a estudos governamentais voltados a ampliar áreas agrícolas e industriais durante o rápido crescimento econômico sul-coreano do final do século XX. Ainda no planejamento, partidos políticos, ambientalistas e especialistas travaram discussões intensas sobre custos, viabilidade e riscos ecológicos. Mesmo diante das controvérsias, as obras começaram nos primeiros anos da década de 1990, respaldadas por relatórios que apontavam benefícios logísticos e de segurança contra inundações.
O cronograma avançou por quase duas décadas. Em abril de 2010, autoridades sul-coreanas anunciaram a conclusão do dique principal, etapa que selou definitivamente a comunicação direta da água do mar com os estuários. A partir dali, a circulação hídrica passou a depender de comportas dimensionadas para balancear maré, salinidade e necessidades de irrigação nas terras ganhas ao mar.
Engenharia do Malecón de Saemangeum: desafios e soluções à prova de marés
Construir uma barreira tão extensa exigiu combinação de dragagem, aterro e estruturas hidráulicas capazes de suportar marés vigorosas do Mar Amarelo. A região apresenta correntes fortes, fundos marinhos irregulares e variações de profundidade que chegam a dezenas de metros. Para enfrentar esse cenário, equipes de engenharia aplicaram técnicas de estabilização de solo, instalaram enrocamentos maciços e implementaram fundações em múltiplas camadas para dissipar a energia das ondas.
No coração do sistema, grandes comportas metálicas regulam o fluxo de água entre o oceano aberto e a área interna. Esses portões hidráulicos funcionam de acordo com tabelas de maré e medições de salinidade, mantendo níveis adequados tanto para plantio de arroz quanto para futuros usos industriais e urbanos. Com isso, o dique atua não apenas como barreira física, mas como componente de um moderno plano de gestão costeira.
Transformação territorial: 400 km² destinados a agricultura, logística e cidade planejada
A porção de 400 quilômetros quadrados resgatada do fundo da baía foi dividida em zonas de uso específico. Parte do solo passou por processos de dessalinização e compactação para viabilizar lavouras, principalmente de arroz, cultura estratégica na Coreia do Sul. Outros setores foram reservados a parques industriais, depósitos logísticos e até mesmo à construção de um núcleo urbano planejado, idealizado para abrigar população residente, serviços e infraestrutura de transporte.
Esse arranjo visa reduzir a pressão sobre centros urbanos próximos e criar um polo econômico integrado ao porto de Gunsan. Para atrair investidores, o governo oferece incentivos fiscais e projeta conexões rodoviárias e ferroviárias ao restante da província, reforçando o potencial do Malecón de Saemangeum como elemento de desenvolvimento regional.
Impactos ambientais: perda de zonas úmidas e mudança na dinâmica ecológica
Antes do fechamento do dique, a confluência de água doce dos rios e água salgada do Mar Amarelo formava um ecossistema de marismas e lamaçais extremamente produtivos. A área servia de ponto de descanso e alimentação para aves migratórias que percorrem rotas entre a Ásia e regiões setentrionais do planeta. Com a construção, parte significativa dessas zonas úmidas desapareceu, comprometendo habitats críticos para várias espécies.
Além da fauna, pesquisadores observam alterações na distribuição de sedimentos, na qualidade da água e na pescaria artesanal que dependia da mistura natural de salinidade. A necessidade de bombear água e operar comportas para controlar cheias tornou-se rotina, gerando custos permanentes de manutenção. Organizações civis e centros de pesquisa acompanham indicadores biológicos e hidrológicos, emitindo relatórios periódicos sobre a evolução dos impactos a longo prazo.
Reconhecimento global e visibilidade espacial do Malecón de Saemangeum
Satélites operados por agências como a NASA registram o contorno retilíneo do dique, fato que contribuiu para a fama de “obra visível do espaço”. Essa visibilidade simboliza a escala monumental do projeto e reforça sua presença em congressos internacionais de engenharia costeira. Ao mesmo tempo, a notoriedade coloca o Malecón no centro de debates sobre a fronteira entre avanço tecnológico e limites ecológicos.
Os 33,9 km ininterruptos também se tornaram referência para países que planejam grandes polders ou ampliações portuárias, sobretudo no leste asiático. Estudos de caso utilizam dados de Saemangeum para calibrar modelos hidrodinâmicos e estimar custos socioambientais de empreendimentos semelhantes.
Lições em curso: monitoramento constante e ajustes operacionais
Mais de uma década após a inauguração, o Malecón de Saemangeum permanece em fase de acompanhamento técnico. Engenheiros analisam recalques do solo novato, enquanto biólogos conferem índices de biodiversidade e qualidade da água. Quando necessários, ajustes na abertura das comportas ajudam a mitigar a salinização excessiva ou a liberação de nutrientes aprisionados na área interior.
Também se avaliam os resultados econômicos das zonas industriais e agrícolas. Projetos-piloto de energia renovável, como instalações solares flutuantes, ocupam reservatórios criados pelo dique, sugerindo rotas adicionais de aproveitamento da infraestrutura já existente. Assim, Saemangeum converte-se em laboratório vivo para políticas de equilíbrio entre produção, urbanização e conservação.
A próxima etapa relevante para o empreendimento é a consolidação completa dos distritos urbanos planejados, cujo cronograma segue condicionando o ritmo de investimentos públicos e privados na região interna ao dique.

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