Luzes da Cidade: bastidores, cena final e legado do filme que Chaplin considerava seu preferido

Luzes da Cidade: bastidores, cena final e legado do filme que Chaplin considerava seu preferido
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Luzes da Cidade” estreou em 30 de janeiro de 1931, atravessou quase um século de transformações tecnológicas no cinema e, ainda assim, permanece no topo de incontáveis listas de melhores filmes. A comédia romântica muda concebida, dirigida e protagonizada por Charlie Chaplin reúne o Vagabundo e uma florista cega em uma narrativa de compaixão, sacrifício e ambiguidade afetiva que o próprio cineasta classificou, em 1966, como seu trabalho “consistente e bem-feito”.

Índice

Luzes da Cidade: por que o próprio Chaplin escolheu o filme como favorito

Quando a revista Life perguntou a Chaplin qual produção ele mais estimava, o artista, nascido em 1889 e já consagrado por títulos anteriores como “Em Busca do Ouro” (1925), apontou imediatamente para “Luzes da Cidade”. À época da declaração, Chaplin minimizou a importância do feito, mas a escolha ecoou a percepção de críticos e cineastas que, desde a estreia, enxergavam na obra um exemplo de domínio formal e emocional. O Instituto Britânico de Cinema (BFI) reforçou tal visão em 1952, quando posicionou o longa em segundo lugar em sua lista inaugural dos maiores filmes de todos os tempos, empatado justamente com “Em Busca do Ouro” e atrás apenas de “Ladrões de Bicicleta” (1948), de Vittorio De Sica.

Nomes que definiram rumos artísticos do século XX endossaram a predileção de Chaplin. Orson Welles, Stanley Kubrick e Andrei Tarkovsky declararam o romance mudo como obra favorita, enquanto o roteirista James Agee sentenciou que a produção traz “a maior cena de interpretação e o momento mais alto do cinema”. Esse elogio aponta diretamente para a sequência final, peça central da reputação do filme.

Da estreia em 1931 ao reconhecimento crítico mundial

O lançamento ocorreu no Teatro de Los Angeles, numa Hollywood que começava a abandonar definitivamente o cinema silencioso após o impacto de “O Cantor de Jazz” (1927). Mesmo com a euforia em torno do som sincronizado, Chaplin bancou a continuidade do formato mudo: considerava que o Vagabundo, personagem que o tornou o homem mais famoso do planeta, existia somente nesse registro. A decisão contrariou tendências de mercado, mas não comprometeu a recepção. Com orçamento aproximado de US$ 1,5 milhão — convertido para valores atuais em torno de US$ 30 milhões —, “Luzes da Cidade” recuperou três vezes esse investimento e consolidou um ciclo de aclamação pública e crítica.

Análises posteriores enumeram dois motivos essenciais para tamanha adesão. Primeiro, a combinação de humor visual e melancolia social, sintetizada nas profissões transitórias de Carlitos, que varre ruas, enfrenta o ringue como boxeador e convive com um milionário inconstante. Segundo, a estrutura narrativa que culmina num final aberto, capaz de provocar interpretações distintas sem trair a coerência interna do enredo.

A construção da cena final de Luzes da Cidade

Chaplin perseguiu a perfeição dessa sequência com anos de lapidação. O clímax ocorre depois que o Vagabundo, recém-libertado da prisão, reencontra a florista anteriormente cega, agora proprietária de uma floricultura e curada graças ao dinheiro que ele lhe entregara. Em poucos segundos de tela, ela toca a mão dele, reconhece a textura familiar e compreende quem de fato a ajudou. O Vagabundo reage com um sorriso contido, e o fade out encerra a história.

Para chegar ao equilíbrio entre pudor e emoção, o diretor revisitou a filmagem repetidas vezes. O estudioso Charles Marland, autor de volume sobre a obra na coleção BFI Classics, destaca que Chaplin recorreu a planos médios para preparar a comoção e fechou em close apenas quando julgou que o impacto seria máximo. A trilha musical — composta também por ele — alterna motivos melódicos que reforçam a tensão e a ternura. Virginia Cherrill, estreante no cinema, respondeu à minúcia de direção com gestos mínimos, suficientes para traduzir o reconhecimento sem palavras.

O grau de exigência do cineasta se expressa na informação de que a produção registrou 342 tomadas apenas para o primeiro encontro entre Carlitos e a florista, recorde reconhecido pelo Guinness World Records. Essa obsessão manteve-se até a última cena, quando, segundo depoimento posterior de Cherrill, a palma da mão de Chaplin ficou úmida — sinal de que o diretor-ator vivenciava a mesma vulnerabilidade de seu personagem.

Processo criativo, orçamento e filmagens extensas

As câmeras começaram a girar em 27 de dezembro de 1928. Antes disso, Chaplin dedicou um ano inteiro à pré-produção, tempo reservado para roteiro, testes de interpretação e composição da trilha. As filmagens avançaram até setembro de 1930, período prolongado em razão do detalhismo empregado em cada quadro. A insistência em manter o filme mudo exigiu atenção redobrada aos elementos visuais: expressão corporal, cenários, iluminação e montagem. Ainda assim, a escolha não comprometeu o alcance popular. Ao contrário, reforçou o encanto universal do Vagabundo, personagem sem nacionalidade definida e sem fala que dependesse de tradução.

Financeiramente, o investimento de US$ 1,5 milhão transformou-se em retorno triplo nas bilheterias. O desempenho ratificou a autonomia artística de Chaplin, que já tinha controle total sobre seus projetos desde a fundação da United Artists em 1919. Esse êxito permitiu ao diretor manter o padrão de liberdade em obras subsequentes, como “Tempos Modernos” (1936) e “O Grande Ditador” (1940).

Impacto de Luzes da Cidade em outras obras do cinema

A imagem final, na qual personagens encaram a câmera, tornou-se referência para gerações. Filmes de linguagens e épocas distintas assumem dívida com o desfecho de Chaplin. “Os Incompreendidos” (1959), “This Is England” (2006), “Garota Exemplar” (2014) e “Moonlight: Sob a Luz do Luar” (2016) encerram suas tramas com olhares diretos que convidam o espectador a completar o sentido da narrativa. Outras produções adotam homenagem explícita: “Manhattan” (1979) mostra o protagonista de Woody Allen sorrindo resignado para Tracy; “Caçada na Noite” (1980) exibe Bob Hoskins percorrendo emoções sucessivas diante de seu destino fatal; e “Monstros S.A.” (2001) converte a porta do quarto de Boo num portal de expectativa, até que Sulley sorri em reconhecimento a um simples “Gatinho!”.

A proliferação de citações não diminui o peso do original. Ao contrário, confirma a condição de matriz estética. Segundo especialistas como Jeffrey Vance, autor de “Chaplin: Genius of the Cinema”, a cena de 1931 mantém frescor justamente porque evita fechamento definitivo. Românticos podem supor que a florista aceite o Vagabundo, enquanto céticos imaginam a impossibilidade de conciliação. Essa irresolução sustenta debates e inspira revisitas críticas.

Desfecho aberto e recepção do público

Depois que a visão é restaurada, a florista se observa no espelho, ajusta o cabelo e revela breve desapontamento ao perceber que o benfeitor não corresponde à figura idealizada. Chaplin, então, trabalha uma escala de emoções — exultante, temeroso, envergonhado e, por fim, esperançoso. A multiplicidade de leituras reforça a universalidade da obra. Alguns espectadores enxergam ali a possibilidade de aceitação incondicional; outros reconhecem um abismo social e concluem que a ternura daquele instante talvez não prospere. A escolha de não prolongar a narrativa concede ao público o papel de coautor.

O equilíbrio técnico e emocional de “Luzes da Cidade” explica por que, quase cem anos e milhares de longas falados depois, o filme segue como paradigma de simplicidade expressiva. Críticos como Vance apontam que, tal qual os romances de Charles Dickens ou as peças de William Shakespeare, as comédias de Chaplin atravessam ciclos de popularidade, mas retornam inevitavelmente ao centro do debate cultural. No caso específico dessa produção, a imagem final do Vagabundo sorrindo ainda resume a capacidade do cinema de condensar esperança, vulnerabilidade e dignidade em segundos inesquecíveis.

O longa conserva, portanto, o estatuto de obra-prima não apenas pelo virtuosismo formal, mas pela precisão com que oferece múltiplos sentidos a um mesmo gesto. Essa característica continuará a alimentar estudos, exibições e homenagens sempre que a indústria cinematográfica buscar exemplos de como emoção, narrativa e concisão podem coexistir em harmonia.

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