Uma linha do BRT planejada para ligar Mesquita, na Baixada Fluminense, ao Terminal Pedro Fernandes, em Irajá, Zona Norte do Rio, durou apenas algumas horas em operação e acabou se tornando o centro de uma disputa aberta entre o prefeito Eduardo Paes (PSD) e o governador Cláudio Castro (PL). A apreensão de dois ônibus pelo Departamento de Transportes Rodoviários (Detro) na segunda-feira, 16, transformou um serviço experimental em mais um capítulo da tensão política que opõe Palácio da Cidade e Palácio Guanabara.
Como surgiu a linha do BRT entre Mesquita e Irajá
A proposta da Prefeitura do Rio previa que quinze ônibus convencionais, sob administração da empresa municipal Mobi-Rio, fizessem o trajeto identificado como Linha 77. O percurso conectaria a linha do BRT Transbrasil, no Terminal Pedro Fernandes, à Praça João Luiz Nascimento, área central de Mesquita. Segundo a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), o objetivo era oferecer aos moradores da Baixada uma alternativa mais rápida e mais barata: intervalo de cerca de 15 minutos, operação de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h, e integração tarifária no terminal.
A operação começou na manhã de segunda, mas poucas horas depois fiscais do Detro pararam dois veículos e determinaram o reboque ao pátio do órgão. Diante da fiscalização e da ameaça de voz de prisão ao secretário municipal de Transportes, Jorge Arraes, a Prefeitura suspendeu o serviço em caráter temporário, alegando necessidade de entendimento com o governo estadual.
Competência legal e atuação do Detro na linha do BRT
O ponto central da controvérsia é a definição de quem deve autorizar serviços que cruzam limites municipais. O Detro sustenta que a Constituição do Estado do Rio de Janeiro, em seu artigo 242, atribui ao governo estadual a responsabilidade de organizar e fiscalizar o transporte coletivo entre municípios. Além disso, uma lei complementar de 2018 criou a Autoridade Executiva da Região Metropolitana, conselho presidido pelo governador e composto por representantes municipais, ao qual cabe aprovar ou alterar rotas de sistemas de grande capacidade, incluindo BRTs.
Com base nesses dispositivos, o presidente do Detro, Raphael Salgado, considerou a circulação da Linha 77 irregular. Ele declarou que qualquer ônibus flagrado operando o itinerário seria rebocado e multado, argumentando que esse procedimento é padrão em todo o Brasil para linhas intermunicipais sem aval estadual.
Argumentos da Prefeitura do Rio para viabilizar a linha do BRT
Em sentido oposto, Eduardo Paes e o secretário Jorge Arraes afirmam que a linha do BRT criada não configura serviço intermunicipal tradicional, mas sim uma “conexão” ao sistema já existente na capital. Em nota, a SMTR informou que não vê irregularidade na iniciativa e que recorrerá das autuações. A Prefeitura disse ainda que pretende reenviar ofício ao Detro para tentar restabelecer a operação, enfatizando que o serviço atenderia a uma demanda antiga dos moradores de Mesquita por integração direta com a rede BRT carioca.
Paes foi às redes sociais criticar a apreensão, acusando o governo estadual de proteger interesses do modelo atual de transporte intermunicipal — chamado por ele de “máfia dos ônibus”. A administração municipal acrescentou que, no fim do mesmo dia, alcançou um acordo preliminar para lançar quinze “ônibus experimentais” ligando Mesquita ao Terminal Margaridas, em Irajá, também conectado ao corredor Transbrasil. A solução, embora provisória, indica que a discussão jurídica permanece sem definição.
Escalada política entre Eduardo Paes e Cláudio Castro
O impasse em torno da linha do BRT ocorre em meio a um ambiente político já inflamado. Nas semanas anteriores, Paes e Castro trocaram acusações após a prisão do vereador Salvino Oliveira (PSD) numa operação da Polícia Civil relacionada ao Comando Vermelho. O governador comentou em rede social que a polícia havia detido “o braço direito” da facção dentro da Prefeitura do Rio; Paes respondeu declarando apoio às investigações, mas acusou o estado de explorar o caso politicamente.
A tensão é potencializada pelo cenário eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral analisa possível cassação do mandato de Cláudio Castro, e o placar parcial é de dois votos contra o governador. Caso ocorra a perda do cargo ou a saída para disputar o Senado, pode haver eleição indireta na Assembleia Legislativa. Ao mesmo tempo, Eduardo Paes se apresenta como pré-candidato ao governo fluminense, buscando apoio especialmente na Baixada, polo com cerca de quatro milhões de habitantes e peso decisivo nas urnas.
Baixada Fluminense no centro da estratégia de mobilidade
Ampliar a integração da Baixada com a capital é peça-chave do plano de mobilidade da Prefeitura do Rio. A Linha 77 integraria passageiros de Mesquita a Irajá e, de lá, ao Terminal Gentileza, no Centro, utilizando os corredores Transbrasil e Transcarioca. Na avaliação de técnicos ouvidos pela Coppe/UFRJ, a região metropolitana carece de governança comum para traçar corredores que atravessem mais de um município, evitando sobreposições e lacunas na oferta de transporte.
O professor Marcelino Aurélio Vieira, da Coppe, lembrou que, embora a decisão legal pertença ao governo estadual, os municípios não conseguem, sozinhos, resolver deslocamentos que ultrapassam suas fronteiras administrativas. Ele defende uma coordenação metropolitana capaz de dialogar com todas as prefeituras e garantir que novas linhas atendam às necessidades reais de deslocamento.
Repercussão em Mesquita e posicionamento local
A Prefeitura de Mesquita negou ter sido formalmente consultada pela capital sobre a implantação da Linha 77. Em nota, o município informou que notificará o Rio sobre o uso de sua logomarca em pontos de ônibus e reiterou que o serviço não recebeu autorização local. Mesquita reconhece, entretanto, que a conexão com o BRT é demanda prevista em seu Plano de Mobilidade Urbana Sustentável, salientando que qualquer implementação deve seguir trâmites oficiais.
Próximos passos e expectativa para retomada da linha do BRT
Enquanto a discussão jurídica prossegue, prefeitura e governo estadual concordaram em manter suspensa a linha do BRT original até que haja entendimento sobre autorização intermunicipal. O Detro não fixou prazo para avaliação de eventual novo pedido de operação, e a SMTR aguarda resposta a ofício encaminhado. Caso a solução dos “ônibus experimentais” se mostre viável, quinze veículos devem iniciar viagens ligando Mesquita ao Terminal Margaridas, mas ainda sem a identidade visual do BRT.
A próxima etapa concreta mencionada pelas partes é a reabertura do diálogo no conselho deliberativo da Região Metropolitana, instância prevista na lei complementar de 2018. Até lá, os usuários da Baixada seguem sem a promessa de encurtar o trajeto até Irajá e dependem do sistema intermunicipal convencional, cenário que motivou todo o embate.
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