Lasar Segall: como o artista converteu sofrimento social em arte moderna de impacto global

Lasar Segall, pintor de origem lituana que se fixou no Brasil em 1923, dedicou sua produção a expor a fragilidade humana diante de guerras, deslocamentos e desigualdades. A nova mostra “Lasar Segall: Sempre a Mesma Lua”, em cartaz no Museu Judaico, apresenta um recorte amplo dessa trajetória e devolve ao público telas recentemente restauradas, como “Interior de Pobres II”.
- Lasar Segall e os caminhos entre Europa e Brasil
- “Interior de Pobres II”: a Alemanha pós-Primeira Guerra sob o pincel de Lasar Segall
- Eternos Caminhantes: arte degenerada e a perseguição nazista a Lasar Segall
- Lasar Segall no Brasil: Mangue carioca, críticas e a descoberta da luz tropical
- Guerra, judaísmo e memória: temas constantes na obra de Lasar Segall
- Modelos recorrentes e paisagens tardias: últimas fases de criação
- Serviço: exposição “Lasar Segall: Sempre a Mesma Lua”
Lasar Segall e os caminhos entre Europa e Brasil
Nascido em Vilnius, cidade que passou do domínio do Império Russo para a ocupação alemã na primeira metade do século 20, Lasar Segall cresceu em ambiente judaico ortodoxo. Ainda jovem, conviveu com a tensão dos pogroms, ataques violentos a comunidades judaicas citados em registros históricos da região. O clima de hostilidade marcou seu olhar artístico e o conduziu, mais tarde, a temas como êxodo, miséria urbana e perseguição política.
Em 1923, o pintor desembarcou no Brasil e se tornou referência do modernismo local. Mesmo radicado em São Paulo, manteve laços com a Europa, onde suas obras foram alvo da censura nazista. Entre elogios de aficionados pelas vanguardas e críticas severas de setores conservadores, Segall construiu um repertório que hoje sustenta seu reconhecimento internacional.
“Interior de Pobres II”: a Alemanha pós-Primeira Guerra sob o pincel de Lasar Segall
Produzida em 1921, quando o artista ainda morava na Alemanha, “Interior de Pobres II” sintetiza a condição dos desassistidos num país devastado pelo conflito de 1914-1918. Quatro personagens preenchem uma sala exígua, sem diálogo entre si: dois homens e uma mulher dividem cantos opostos, enquanto uma quarta figura, de gênero indefinido, repousa num sofá com marcas de exaustão no rosto. Tons de marrom e cinza reforçam o peso melancólico da cena.
A tela sofreu rasgos após anos de manuseio e ficou fora de exibição no Museu Lasar Segall. Um esforço conjunto com o Museu Judaico possibilitou a restauração e a reestreia da obra na presente mostra. O processo reaproxima o público de um momento crucial da carreira do pintor, quando ele consolidou a prática de alongar rostos e simplificar traços para maximizar a expressividade das figuras.
Eternos Caminhantes: arte degenerada e a perseguição nazista a Lasar Segall
Pintado antes da ascensão do regime nazista, “Eternos Caminhantes” traz cinco figuras angulosas, sombrias e em constante deslocamento. O quadro foi classificado como “arte degenerada” pelos agentes de Adolf Hitler, confiscado do acervo do Museu da Cidade de Dresden em 1933 e, anos depois, localizado por um marchand francês em 1954, no sótão de um ex-oficial alemão. A peça, agora exposta no Museu Judaico, conserva a denúncia do autor sobre o drama dos refugiados que fogem por guerras ou discriminação.
O episódio ilustra o cerco imposto aos modernistas e reforça a vulnerabilidade de artistas judeus na Europa dos anos 30. Para Segall, o rótulo de degenerado somou-se ao antissemitismo latente que já o acompanhava desde a juventude, alimentando ainda mais sua escolha por retratar minorias e deslocados.
Lasar Segall no Brasil: Mangue carioca, críticas e a descoberta da luz tropical
Logo após fixar residência no país, Lasar Segall voltou seu interesse às zonas periféricas, notadamente o Mangue, no Rio de Janeiro, composto por cortiços e prostíbulos. Obras como “Rua de Erradias” e “Figura com Reposteiro”, incluídas na exibição, mostram mulheres de seios à mostra circulando por vielas estreitas ou observando o exterior através de janelas precárias. A curadora Patricia Wagner ressalta que o propósito do artista era preservar a dignidade dessas personagens, tratadas sem estigma moral, mas com ênfase em condições de vida adversas.
Seus trabalhos nacionais provocaram reação imediata. Durante mostra no então Museu Nacional de Belas Artes, em 1943, críticos conservadores o acusaram de promover arte estrangeira e “degenerada”. Vinicius de Moraes, ainda pouco conhecido como poeta, saiu em defesa do pintor e escreveu o “Soneto a Lasar Segall” como apoio público. A controvérsia não impediu que o artista prosseguisse em sua pesquisa cromática; fascinado pela luz tropical, ele intensificou a paleta. “Morro Vermelho”, peça raramente emprestada por se encontrar em coleção particular, comprova o impacto das cores vívidas: no centro da composição, uma mulher negra segura um bebê, rodeada por vegetação de tons intensos.
Guerra, judaísmo e memória: temas constantes na obra de Lasar Segall
Mesmo distante fisicamente dos campos de batalha europeus na Segunda Guerra Mundial, Segall traduziu os horrores do conflito em uma série de desenhos feitos em cadernos pessoais. O exemplo mais contundente, “Pogrom”, de 1937, apresenta corpos empilhados sobre ruínas. A obra funciona como um diário visual, revelando indignação e luto à distância.
Esse diálogo entre violência histórica e recordações íntimas atravessa toda a produção do pintor. Sua infância em meio a tradições judaicas serenas contrasta com o cenário de ameaça constante na Europa Oriental. A dualidade aparece em retratos de cenas familiares pacíficas, contrapostos à brutalidade de guerras e perseguições.
Modelos recorrentes e paisagens tardias: últimas fases de criação
A vida pessoal também permeia o ateliê. A escritora Jenny Klabin Segall, com quem o artista se casou em 1925 e viveu até a morte em 1954, surge repetidamente em seus quadros. Após o falecimento do marido, Jenny se dedicou a catalogar o legado e idealizou o Museu Lasar Segall em São Paulo, hoje depositário de boa parte do acervo.
Outra presença constante é Lucy Ferreira, aluna que posou para estudos sobre o olhar por mais de uma década, além de Mira Perlov, também modelo frequente. Já nos últimos anos, Segall desviou da ênfase nas feições humanas e voltou-se a cenários rurais. “Floresta com Galhos Entrelaçados” e “Gado ao Luar” registram vacas que repousam sem rosto explícito, sob claridade noturna. Numa carta a Vinicius de Moraes, o artista comentou que, apesar das mudanças no mundo, a Lua permanecia idêntica, ideia que inspira o título da atual exposição.
Serviço: exposição “Lasar Segall: Sempre a Mesma Lua”
A mostra, organizada pelo Museu Judaico em parceria com o Museu Lasar Segall, permanece aberta até 5 de abril. O endereço é rua Martinho Prado, 128, em São Paulo. As visitas podem ser feitas de terça a domingo, das 10h às 18h, com ingressos a R$ 24. A classificação é livre.

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