Kim Jong-un acelera preparação da filha como sucessora, indica agência sul-coreana

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Kim Jong-un parece ter iniciado uma fase decisiva para assegurar a continuidade de sua linha de comando, levando observadores externos a avaliarem que a filha, Kim Ju Ae, passou do estágio de possibilidade para o de sucessão praticamente confirmada, conforme informações compartilhadas por parlamentares sul-coreanos com base em um relatório da Agência Nacional de Inteligência da Coreia do Sul (NIS).
- Kim Jong-un e a sucessão familiar: do rumor à formalização
- A crescente presença pública de Kim Ju Ae ao lado do pai
- O olhar da inteligência sul-coreana: como a NIS monitora os passos da sucessora
- Partido dos Trabalhadores: reunião de fevereiro pode oficializar o novo papel
- Kim Jong-un e os projetos militares em paralelo à sucessão
- Próximos marcos a serem observados
Kim Jong-un e a sucessão familiar: do rumor à formalização
O debate sobre quem assumiria o controle do governo norte-coreano em um futuro ainda incerto ganhou novo fôlego quando, segundo o NIS, a caracterização anterior de Kim Ju Ae como alguém “em estudo para suceder” foi atualizada para a expressão “na fase de nomeação interna como sucessora”. O ajuste de linguagem foi relatado pelo deputado Lee Seong-kweun após uma reunião a portas fechadas com a agência de espionagem. A mudança semântica, embora sutil, indica um avanço na institucionalização do processo. Para o NIS, o simples fato de existir uma discussão interna sobre nomeação já sinaliza que o círculo de poder central se move para consolidar a quarta geração da dinastia iniciada por Kim Il-sung, perpetuada por Kim Jong-il e atualmente liderada por Kim Jong-un.
A informação obtida pelo parlamento sul-coreano não sugere que haja um anúncio imediato, mas demonstra que o sistema político norte-coreano, fortemente baseado no culto à personalidade e na hereditariedade, voltou a ativar mecanismos de transição que normalmente só se tornam visíveis sob forte controle estatal de imagem.
A crescente presença pública de Kim Ju Ae ao lado do pai
Kim Ju Ae, descrita como estando no início da adolescência, tem aparecido com frequência e destaque nos principais veículos estatais da Coreia do Norte. Entre os episódios noticiados, constam visitas de campo e inspeções de projetos de armamento em que ela surge caminhando lado a lado com o pai, inclusive durante sessões fotográficas formais. Imagens divulgadas pela KCNA, agência oficial de Pyongyang, mostram o líder e a filha posando na recepção de um hotel em 20 de dezembro de 2025 — uma composição rara no repertório visual do regime, tradicionalmente avesso a exibir familiares antes de definirem um papel oficial.
De acordo com a análise repassada pelos parlamentares Lee Seong-kweun e Park Sun-won, o NIS entende que esses posicionamentos em eventos públicos não são escolhas casuais de protocolo. A agência acredita que Ju Ae já contribui com sugestões sobre assuntos políticos e, dentro da estrutura interna, vem sendo tratada como “segunda líder de fato”. Se confirmada essa interpretação, a movimentação representaria uma mudança de fase para a sucessão, sugerindo que Kim Ju Ae começa a receber treinamento direto, tanto prático quanto simbólico, sobre a administração do Estado e sobre a mensagem que o regime deseja transmitir para a população norte-coreana e para a comunidade internacional.
O olhar da inteligência sul-coreana: como a NIS monitora os passos da sucessora
O Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul informou ao parlamento que seguirá observando atentamente dois pontos centrais. O primeiro é a eventual presença de Kim Ju Ae na próxima reunião do Partido dos Trabalhadores. O segundo, relacionado ao anterior, é a forma como ela poderá ser apresentada nesse encontro — seja mediante um simples assento cerimonial, seja ocupando algum posto ou título oficialmente designado.
Para a NIS, títulos oficiais funcionam como indicadores concretos das intenções do regime, pois deixam de ser apenas gestos simbólicos e passam a constar nos registros partidários. Caso ela receba uma denominação formal, o movimento poderá ser interpretado como a etapa final de legitimação interna. Outro fator observado pelos analistas é o conteúdo dos pronunciamentos durante eventos públicos: quaisquer referências a orientações de Kim Ju Ae sobre políticas específicas reforçariam a tese de participação ativa.
Partido dos Trabalhadores: reunião de fevereiro pode oficializar o novo papel
A Coreia do Norte divulgou que convocará, para o fim de fevereiro, a reunião inaugural do nono Congresso do Partido dos Trabalhadores. Tradicionalmente, esse tipo de encontro estabelece diretrizes plurianuais sobre economia, defesa e relações exteriores. Por ocorrer em um momento em que a sucessão ganha força nos bastidores, o evento é visto pelo NIS como palco potencial para uma aparição mais estruturada da herdeira.
Analistas ouvidos pelo parlamento sul-coreano projetam que a agenda pode incluir metas para programas militares e para iniciativas econômicas, além de apresentar, de forma direta ou indireta, o posicionamento de Kim Ju Ae dentro da hierarquia. Mesmo que não se anuncie oficialmente uma sucessora, mudanças na linguagem utilizada pelos porta-vozes ou na ordem protocolar dos participantes já serão parâmetros valiosos para a leitura de tendências.
Kim Jong-un e os projetos militares em paralelo à sucessão
Em meio ao debate sobre a continuidade do poder, Pyongyang mantém iniciativas na área de defesa que chamam a atenção da comunidade internacional. De acordo com a mesma apresentação do NIS ao parlamento, Kim Jong-un orienta o desenvolvimento de um submarino de grande porte, com deslocamento estimado em 8.700 toneladas e capacidade para carregar até dez mísseis balísticos lançados por submarino (SLBM). A documentação avaliada pelos legisladores Park Sun-won e Lee Seong-kweun sugere que o projeto pode ter sido concebido para operar com um reator nuclear, embora não haja confirmação sobre a conclusão desse sistema propulsor nem sobre a viabilidade operacional final da embarcação.
Além do submarino, duas referências constantes em manchetes recentes — também citadas no material apresentado ao parlamento — reforçam a postura militar norte-coreana: o anúncio de um sistema capaz de disparar vários foguetes em sequência, com a promessa de ampliar a capacidade nuclear, e as acusações feitas por Coreia do Sul e Japão de que Pyongyang lançou mísseis em direção ao mar. Esses episódios, mesmo que não detalhados no relatório específico de sucessão, compõem o pano de fundo no qual a figura de Kim Ju Ae surge, indicando que as prioridades de defesa seguem no centro da estratégia estatal.
Próximos marcos a serem observados
O avanço de Kim Ju Ae como sucessora será medido, em primeiro lugar, por sua eventual participação na reunião partidária prevista para o fim de fevereiro. Qualquer designação de título oficial, menção nominal em documentos internos ou alteração na posição de destaque durante cerimônias públicas integrará o radar da inteligência sul-coreana. Paralelamente, a evolução do projeto de submarino de 8.700 toneladas funcionará como termômetro do direcionamento estratégico liderado por Kim Jong-un.
Com esses dois movimentos — a possível formalização da herdeira e o prosseguimento de programas de armamentos —, a Coreia do Norte delineia os contornos de sua agenda imediata, combinando gestão de poder dinástico com demonstrações de capacidade militar, elementos que deverão ser examinados com atenção pelos países vizinhos e por observadores internacionais até a realização do nono Congresso do Partido dos Trabalhadores.

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