Karim Aïnouz surpreende a Berlinale com Rosebush Pruning e um retrato cortante do patriarcado

Karim Aïnouz surpreende a Berlinale com Rosebush Pruning e um retrato cortante do patriarcado
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O cineasta brasileiro Karim Aïnouz voltou a ocupar o centro das atenções na 76ª edição do Festival de Berlim ao exibir, na competição oficial, seu segundo longa-metragem falado em inglês, Rosebush Pruning. A sessão, realizada no sábado, 14 de fevereiro, convidou o público a acompanhar a rotina de uma família americana autoexilada na Catalunha e serviu como ponto de partida para uma investigação direta sobre o patriarcado contemporâneo.

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Karim Aïnouz leva Rosebush Pruning à competição da Berlinale

Menos de um mês antes da estreia mundial, o diretor já alertara que o roteiro escrito pelo grego Efthymis Filippou era “ousado”. A palavra mostrou-se modesta diante da recepção em Berlim. Rosebush Pruning concorre ao Urso de Ouro, repetindo a presença de Aïnouz entre os destaques da Berlinale e consolidando a fase internacional do realizador cearense, que investe novamente em diálogos em inglês para alcançar plateias mais amplas.

Filmado integralmente na Espanha durante a pandemia, o projeto foi pensado para uma locação única, recurso que dialoga com a origem da história. Aïnouz apresentou o resultado ao lado de parte do elenco e comentou que, se a mesma narrativa fosse conduzida por um cineasta norte-americano, “seria muito, muito diferente”, sublinhando o olhar externo – brasileiro – sobre uma família dos Estados Unidos.

Enredo expõe a dinâmica de uma família americana e o patriarcado, segundo Karim Aïnouz

No centro da trama está um pai cego, autoritário e herdeiro de grande fortuna que vive isolado com os quatro filhos adultos. Nenhum deles trabalha ou estuda; todos se definem por relógios, bolsas, roupas e sapatos de grife. A aparente estabilidade começa a ruir quando Jack, o primogênito e pilar emocional após a morte da mãe, apresenta à família a nova namorada, Martha. Esse contato externo desencadeia uma sucessão de gatilhos que expõem taras, fetiches e tensões abafadas.

O título Rosebush Pruning – “poda de roseira” – é explicado logo no início: para que rosas floresçam, os galhos precisam ser aparados. No filme, as “rosas” são as pessoas; a “roseira”, a família. O que deve ser cortado, portanto, são os ramos que impedem o florescimento individual. O conceito permeia cenas nas quais a irmã, única mulher da casa, revela conhecer os desejos que excitam cada homem, inclusive o pai, escancarando a dimensão opressiva do ambiente masculino.

Uma das sequências que compõem o trailer ilustra o desconforto. Durante o almoço de apresentação, Martha – interpretada por Elle Fanning – é descrita em detalhes para o patriarca cego. A descrição avança dos olhos azuis à carteira Balenciaga, passa por um relógio Swatch quebrado e culmina na avaliação constrangedora do tamanho de seus seios, mostrando a objetificação a que a convidada é submetida.

Processo criativo: da inspiração em Bellocchio à parceria com Efthymis Filippou

A gênese de Rosebush Pruning remonta a Punhos Cerrados, estreia do italiano Marco Bellocchio em 1965. A versão original trazia o peso e a cegueira personificados na mãe, não no pai. Aïnouz propôs ao roteirista Filippou – colaborador habitual de Yorgos Lanthimos e indicado ao Oscar por O Lagosta – que, quase seis décadas depois, a discussão deveria escancarar o patriarcado.

Filippou acatou a ideia e manteve o sarcasmo característico ao falar sobre consumo e hierarquias. Na coletiva, explicou que a violência frequente em seus textos surge da tentativa de retratar a vida sem filtros, não de provocar choque gratuito. A visão se harmonizou com o entusiasmo de primeiro filme que Aïnouz identificou em Bellocchio e quis replicar: liberdade para experimentar linguagem e forma.

Elenco multinacional e método de filmagem comandado por Karim Aïnouz

O elenco reúne nomes de diferentes nacionalidades. Jamie Bell encarna Jack, o irmão mais velho; Callum Turner dá voz ao narrador Ed; Lukas Gage, Riley Keough e Tracy Letts completam o núcleo familiar. Fanning responde pela força externa que abala a estrutura da casa, enquanto a presença de Pamela Anderson foi registrada em Berlim na ocasião da foto oficial.

Antes das filmagens, o grupo passou por duas semanas de ensaio na locação espanhola. Bell relatou que, no primeiro dia de set, o diretor pediu ao elenco que esquecesse tudo o que havia sido preparado, abrindo espaço para a espontaneidade. A abordagem dialoga com a busca de Aïnouz por capturar reações genuínas a interações abafadas pela convivência forçada entre personagens.

Além do método, o realizador incluiu um detalhe brasileiro na longa sequência de marcas de luxo exibidas pelos protagonistas, inserindo uma referência nacional no desfile de grifes majoritariamente vintage.

Debate sobre riqueza, poder e fascismo ecoa na coletiva de imprensa

Na conversa com jornalistas, Tracy Letts associou a narrativa à disparidade extrema de riqueza que, em suas palavras, “gera mau comportamento e provavelmente fascismo”. Perguntado sobre o impacto da política norte-americana durante o governo Donald Trump, o ator e dramaturgo afirmou não enxergar como artistas poderiam ignorar o tema.

O ambiente descontraído também abriu espaço para brincadeiras. Especulações da mídia britânica apontam Callum Turner como possível futuro intérprete de James Bond, mas ele evitou comentários. Letts, em tom irônico, disse ter sido escalado para o papel e arrancou risos ao acrescentar que Karim estaria dirigindo seu 007. O diretor aproveitou para registrar que dirigir um filme da franquia é um de seus maiores sonhos.

Próximos passos de Rosebush Pruning após a estreia em Berlim

Com a primeira projeção realizada e a reação inicial captada, Rosebush Pruning aguarda agora a decisão do júri da Berlinale. A participação na principal mostra abre caminho para exibições em outros festivais e para a definição de calendário comercial, etapas que serão confirmadas após o anúncio dos vencedores do Urso de Ouro e das demais categorias.

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