Jurados do carnaval do Rio: confinamento, rotinas rígidas e 26 subquesitos que definem o campeão

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Jurados do carnaval do Rio que analisam o Grupo Especial permanecem três dias em total isolamento, entregam aparelhos eletrônicos e se orientam por um manual detalhado para atribuir notas que podem consagrar uma escola de samba ou jogá-la para as últimas posições na classificação.
- Quem são os jurados do carnaval do Rio e como acontece a seleção
- Confinamento: rotina de isolamento dos jurados do carnaval do Rio
- Logística de transporte e posicionamento dos jurados do carnaval do Rio na Sapucaí
- Novo modelo de avaliação: 26 subquesitos aumentam o rigor técnico
- Procedimentos de segurança, saúde e sigilo das notas
- Etapas da apuração: sorteio de notas e definição da campeã
O corpo de avaliação reúne 54 especialistas, seis para cada um dos nove quesitos oficiais do regulamento. Todo o processo começa meses antes dos desfiles, quando a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) abre um canal de recebimento de currículos. Profissionais com histórico em música, dança, artes cênicas, cenografia ou história do carnaval se candidatam enviando suas qualificações por e-mail.
Após a triagem curricular, os candidatos participam de um processo seletivo que inclui análise de experiência específica para o quesito pretendido. Em 2024, metade do grupo foi renovada — mudança considerada estratégica pela Liesa para equilibrar atualização de critérios com a manutenção de profissionais experientes. Antes de receberem a função oficialmente, todos comparecem a dois simpósios e dois cursos preparatórios nos quais revisam conceitos técnicos, metodologia de pontuação e regras éticas.
A distribuição final coloca seis avaliadores em cada quesito: Alegorias, Bateria, Comissão de Frente, Enredo, Evolução, Fantasias, Harmonia, Mestre-Sala e Porta-Bandeira e Samba-Enredo. Entre os nomes escalados estão coreógrafos, regentes de banda, cenógrafos, historiadores e pesquisadores, todos considerados aptos a julgar de maneira técnica e imparcial.
O isolamento é uma das chaves para impedir influências externas. No dia do check-in em hotel escolhido pela Liesa, cada jurado entrega celular, notebook, smart-watch e qualquer dispositivo com acesso à internet. Todos ficam guardados pela coordenação de jurados e só são devolvidos depois da entrega oficial das notas, na Quarta-Feira de Cinzas.
Durante o período de confinamento, o único equipamento liberado é um tablet bloqueado, que contém exclusivamente o “Abre-Alas” — documento fornecido por cada escola com um roteiro minucioso das alas, alegorias e destaques. Não há conexão de rede; o uso limita-se à consulta de informações necessárias ao julgamento.
A comunicação externa é restrita. Telefones do hotel ficam sob supervisão e visitas não são permitidas. Qualquer tentativa de contato fora dos canais oficiais pode resultar no afastamento imediato do jurado, conforme previsto no manual entregue a todos.
O deslocamento entre o hotel e o Sambódromo da Marquês de Sapucaí ocorre exclusivamente em ônibus fretados pela Liesa, sem paradas extras. Já dentro da Passarela do Samba, a distribuição nos módulos — definida por sorteio — garante visão abrangente de toda a avenida.
São quatro módulos com seis cabines no total: duas no início do desfile, uma dupla espelhada no meio da pista e mais duas entre os setores 10 e 12, próximo ao fim. Essa configuração obriga as escolas a exibir todos os quesitos, inclusive comissão de frente e casal de mestre-sala e porta-bandeira, em 360 graus, pois avaliadores de lados opostos observam simultaneamente.
Cada cabine recebe nove julgadores, mas nunca dois especialistas do mesmo quesito dividem o espaço. A separação física evita troca de impressões que possam homogenizar notas. Dentro das cabines, a orientação é permanecer do início ao fim de cada apresentação. Há pequenos intervalos para alimentação e ida ao banheiro, realizados sempre entre uma escola e outra, sem saída do módulo.
Novo modelo de avaliação: 26 subquesitos aumentam o rigor técnico
Até o ano passado os nove quesitos tradicionais já exigiam atenção a detalhes como cadência, fluência musical, criatividade cenográfica ou sincronismo de evolução. A temporada atual introduziu 26 subquesitos, que fracionam ainda mais o olhar do avaliador. Por exemplo, em Bateria de Samba agora se pontuam separadamente cadência, divisão rítmica e criatividade; em Harmonia, a análise distingue afinação, projeção vocal e equilíbrio entre naipes.
A ampliação obriga jurados a registrar percepções específicas em formulários digitais, item a item, antes de atribuirem a nota final de cada quesito. O objetivo da Liesa é elevar a precisão e reduzir eventuais empates. Para acompanhar essa mudança, o treinamento pré-carnaval enfatizou demonstrações práticas de como reconhecer cada novo parâmetro durante o fluxo do desfile.
A pontuação continua em escala de nove a dez, podendo haver décimos de desconto a partir de falhas observadas nos subquesitos. Para o público, a mudança permanece invisível até a apuração, quando as justificativas escritas dos jurados são divulgadas.
Procedimentos de segurança, saúde e sigilo das notas
O manual de 2024 detalha etapas de segurança que vão da integridade física à confidencialidade das informações. Durante os desfiles, uma equipe médica permanece de plantão nos bastidores do Setor 11. Caso um jurado passe mal e precise ser retirado, o regulamento determina que nenhuma substituição é feita. Nesse cenário, as notas que ele já tenha computado deixam de valer e, na apuração, a maior nota da escola naquele quesito é repetida, evitando prejuízos causados pela interrupção.
Ao final da terceira noite, cada avaliador preenche o formulário definitivo, assina eletronicamente e entrega o equipamento lacrado à coordenação. O material é armazenado em envelopes de segurança, mantidos em cofre até a tarde de Quarta-Feira de Cinzas, quando ocorre a leitura pública no centro de convenções da Cidade do Samba.
Etapas da apuração: sorteio de notas e definição da campeã
Apesar de 54 avaliadores participarem, somente 36 notas chegam a ser lidas em plenário. Antes de abrir os envelopes, a Liesa realiza um sorteio que descarta dois jurados por quesito — um alocado no Módulo 1 e outro no Módulo 4. A medida visa reduzir qualquer influência que a posição na avenida possa gerar.
Já durante a leitura, existe mais um filtro: a menor nota atribuída em cada quesito é automaticamente eliminada. Restam 27 valores por escola, que formam a soma final. Esse sistema de cortes múltiplos serve para atenuar discrepâncias individuais e premiar a consistência geral das agremiações.
Quando as últimas notas são anunciadas, a escola com maior pontuação recebe o título de campeã do carnaval carioca e conquista o direito de abrir o Desfile das Campeãs no sábado seguinte, ao lado das outras cinco primeiras colocadas.
Após a leitura definitiva, as justificativas completas dos jurados, contendo observações para cada subquesito, são disponibilizadas pela Liesa. É somente a partir desse momento que avaliadores recuperam celulares e retornam à rotina normal, encerrando um ciclo de isolamento que começou três dias antes do primeiro toque de bateria.
A próxima etapa no calendário oficial é o Desfile das Campeãs, no sábado pós-Carnaval, quando as escolas mais bem colocadas retornam à Sapucaí em clima de celebração, já sob a luz dos resultados construídos pelo rígido trabalho dos jurados do carnaval do Rio.

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