Joias de artista: como joalherias transformam obras consagradas em acessórios de luxo

Joias de artista: como joalherias transformam obras consagradas em acessórios de luxo
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As joias de artista ganham novo protagonismo no mercado brasileiro de luxo. Grandes joalherias estão recorrendo a escultores, arquitetos e pintores para converter criações consagradas em brincos, colares e pulseiras que carregam, no corpo, o mesmo discurso estético das obras originais. De Rio de Janeiro a Recife, ateliês e oficinas de ourivesaria unem forças para lançar coleções que devem chegar às vitrines já nas próximas semanas, reforçando a tendência de parcerias entre arte e design.

Índice

Joias de artista consolidam aliança entre ateliês e joalherias

O movimento atual reúne três blocos de interesses. Para as consumidoras, surgem acessórios menos previsíveis; para os artistas, a oportunidade de ver seu pensamento adaptado a uma escala vestível; e para as empresas de joias, a associação imediata com a sofisticação do universo artístico. A prática não é inédita — Salvador Dalí criou peças na década de 1940 —, mas ganha novo fôlego com coleções que tratam materiais não convencionais como elementos de alta joalheria.

HStern e Iole de Freitas: aço retorcido vira joia de luxo

Nas criações que a HStern lança em breve, o foco recai sobre a escultora Iole de Freitas, referência nacional que molda grandes placas de aço industrial há mais de meio século. Para transpor essa linguagem para anéis, colares e brincos, designers da marca passaram temporadas no ateliê da artista, no Rio de Janeiro, observando as torções que ela imprime ao metal. O resultado são sete peças que contrastam o aspecto bruto do aço com o brilho do ouro 18 quilates e de diamantes.

Um anel de aço acetinado, adornado por um filete dourado cravejado de pedras, e um par de brincos em que a chapa retorcida envolve uma fita reluzente exemplificam o diálogo entre materialidade industrial e lapidação tradicional. A iniciativa marca ainda a primeira incursão da empresa carioca na combinação de aço e ouro, algo que a própria Iole descreve como um “amálgama estético inusitado”. Roberto Stern, diretor criativo e presidente da marca, confirma que o experimento expande os limites técnicos já testados anteriormente em colaborações como a realizada com a artista Anna Bella Geiger.

Sauer e Oficina Francisco Brennand: cerâmica elevada a joia

Enquanto a HStern domina o metal, a Sauer voltou-se à cerâmica, material que consagrou o recifense Francisco Brennand. Em parceria com a Oficina que hoje preserva o legado do artista, a joalheria carioca precisou descobrir como atribuir valor de alta joalheria ao barro queimado comum em canecas e pratos. Artesãos da Oficina testaram protótipos até alcançar o tempo exato de queima necessário para peças em escala reduzida, adequadas ao uso no corpo.

O esforço resultou em brincos nos quais “ovinhos” de cerâmica pendem de uma base igualmente cerâmica, pontuada por diamantes, e em colares que evocam o universo fantástico criado por Brennand. Segundo a diretora criativa Stephanie Wenk, o maior desafio foi alterar a percepção do público sobre o valor do material. “A visão utilitária da cerâmica precisa ceder lugar à compreensão de que ela pode, sim, ser joia”, explica a executiva.

Paola Vilas revisita Lina Bo Bardi em joias de artista modernistas

A arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, responsável por marcos como o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Sesc Pompeia, inspira a coleção desenvolvida pela designer Paola Vilas em parceria com o Instituto Bardi. Vilas recorreu ao vidrotil — minúsculas pastilhas de vidro que compõem o piso da Casa de Vidro — para criar anéis, pendentes e brincos que transformam o material cotidiano em gema preciosa.

Entre os destaques está um anel em que a jaspe vermelha emula o vão livre do MASP, bem como um colar cujos elos vazados repetem as janelas amebóides do centro cultural paulistano. Reconhecida por desenhos de acento surrealista, a designer ressalta que “as joias ficam no tempo”, função que reforça a ideia de marcar momentos históricos por meio de elementos arquitetônicos transformados em adornos.

Tomie Ohtake inspira Talento Joias enquanto Bvlgari celebra Frida Kahlo

A Talento Joias, por sua vez, buscou referência na cúpula sinuosa do Theatro Pedro 2º, projetada por Tomie Ohtake em Ribeirão Preto. O resultado são dois braceletes que reproduzem, em ouro e gemas, a curva característica da artista plástica nipo-brasileira, adicionando uma camada de identidade regional às vitrines da marca.

Fora do país, a italiana Bvlgari apresentou, em outubro passado, edição especial de relógios no México para homenagear o muralista Diego Rivera e a pintora Frida Kahlo. O modelo dedicado a Kahlo traz duas pulseiras que contornam o braço e gravuras em ouro com trechos de uma carta de amor escrita pela artista a seu marido, reforçando a componente narrativa que permeia a tendência global de joias de artista.

Mercado de luxo valoriza a narrativa por trás das joias de artista

Especialistas observam que, no segmento de alto padrão, o adorno transcende a função decorativa e passa a operar como objeto de discurso cultural. Para Mariana Cerone, professora do núcleo de luxo da ESPM, a fronteira tênue entre ornamento e escultura se estreita ainda mais quando artistas assinam peças destinadas ao uso pessoal. O fenômeno remonta às criações de Salvador Dalí nos anos 1940 e reaparece agora com intensidade, impulsionado pelo desejo do consumidor de “contar histórias” por meio daquilo que veste.

No cenário de colecionismo, o joalheiro e antiquário Rafael Moraes percebe demanda crescente por itens raros, como o bracelete em ouro e águas-marinhas concebido nos anos 1950 pelos irmãos Roberto e Haroldo Burle Marx. Segundo ele, diferenças nas escalas de produção separam joalherias de maior porte, que podem repetir modelos, de iniciativas baseadas em tiragens mínimas ou peças únicas. Artistas contemporâneos de peso — Laura Lima, Fernanda Gomes e Paulo Bruscky — já recorreram ao seu conhecimento para converter esboços em joias viabilizadas por ourives especializados, e seu arquivo abriga inclusive o projeto inédito de um colar idealizado por Antonio Dias.

Ao adquirir uma dessas joias de artista, o comprador leva para casa — e para o próprio corpo — uma obra de arte portável. “O corpo torna-se o meio de exibição”, resume Moraes, ressaltando o aspecto de preciosidade e exclusividade que distingue tais criações dos acessórios disponíveis em massa nas lojas convencionais.

Nas próximas semanas, a chegada às lojas das linhas assinadas por Iole de Freitas para a HStern e pela Oficina Francisco Brennand para a Sauer deve ampliar a oferta de joias de artista no Brasil, consolidando uma temporada em que arte e ourivesaria dividem, cada vez mais, o mesmo pedestal de valor cultural e material.

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