John Malkovich volta ao Brasil e revisita o extremismo humano em “The Infamous Ramírez Hoffman”
John Malkovich, ator consagrado por transitar com naturalidade entre o cinema de autor e grandes produções de Hollywood, retorna ao Brasil no fim do mês com o espetáculo “The Infamous Ramírez Hoffman”. A montagem, inspirada em texto de Roberto Bolaño, funde teatro e música clássica para retratar um escritor fictício que defende ideais de extrema-direita. O projeto reafirma a inclinação de Malkovich por personagens que expõem conflitos humanos profundos e o coloca, mais uma vez, diante do público brasileiro, desta vez no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e na Sala São Paulo.
- John Malkovich e a gênese de “The Infamous Ramírez Hoffman”
- Do cinema ao teatro: a trajetória multifacetada de John Malkovich
- Personagens extremos e conflitos humanos na arte de John Malkovich
- Explorações latino-americanas de John Malkovich e o diálogo com o autoritarismo
- Datas, locais e equipe que acompanha John Malkovich no Brasil
John Malkovich e a gênese de “The Infamous Ramírez Hoffman”
A obra que Malkovich traz ao país baseia-se em um capítulo de “A Literatura Nazista nas Américas”, livro em que o chileno Roberto Bolaño satiriza a manipulação ideológica na arte. No palco, o ator narra a trajetória de Ramírez Hoffman, autor fictício que transforma o golpe que depôs Salvador Allende, em 1973, em plataforma para justificar perseguições políticas. A encenação combina texto falado e acompanhamento musical executado pela pianista Anastasya Terenkova, pelo violinista Andrej Bielow e pelo bandoneonista Fabrizio Colombo, formação que sublinha o caráter híbrido defendido por Malkovich em seus trabalhos mais recentes.
Ao optar por uma figura que encarna o extremismo, o artista norte-americano retoma temas que já explorou em outras montagens, como “Just Call Me God”, na qual interpretou um ditador prestes a ser deposto. A preferência por histórias que investigam o autoritarismo, especialmente em países da América do Sul, demonstra o interesse de Malkovich por realidades que ele mesmo admite não ter vivenciado, mas que considera parte essencial do chamado “novo mundo”.
Do cinema ao teatro: a trajetória multifacetada de John Malkovich
A carreira de John Malkovich começou no teatro, ainda na década de 1970, quando ingressou no coletivo Steppenwolf. Em 1982, ele estreou na Broadway com “A Morte de um Caixeiro-Viajante”, montagem que questionava o sonho americano. Pouco depois, migrou para o cinema e recebeu a primeira indicação ao Oscar interpretando um veterano de guerra cego. Desde então, trabalhou com diretores de renome, como Steven Spielberg, que o escalou como um marinheiro oportunista em “Império do Sol”, e Bernardo Bertolucci, sob cuja direção encarnou um poeta assombrado pela Segunda Guerra vagando pelo Saara.
Malkovich jamais impôs barreiras entre produções autorais e blockbusters. No currículo figuram colaborações com cineastas cultuados, como Manoel de Oliveira, e participações em sucessos comerciais, a exemplo de “Transformers” e do fenômeno de streaming “Bird Box”. A disposição para aceitar projetos diversos deriva, segundo o próprio ator, da convicção de que cada trabalho exige empenho equivalente, independentemente do orçamento ou da bilheteria prevista.
Personagens extremos e conflitos humanos na arte de John Malkovich
Ao longo de quatro décadas, Malkovich tornou-se referência na interpretação de figuras moralmente ambíguas. No cinema, viveu desde assassinos em série até papas fictícios, como na segunda temporada da série “The New Pope”. No teatro, protagonizou “The Infernal Comedy”, espetáculo que marcou sua primeira vinda ao Brasil e o colocou na pele de um criminoso confesso. Em outra montagem, encarnou um magnata inspirado no produtor Harvey Weinstein, sublinhando o abuso de poder no universo do entretenimento.
A inclinação por papéis extremos contrasta com a personalidade que ele descreve como pouco voltada a atitudes radicais. Malkovich não vota em eleições desde 1972, ano em que o democrata George McGovern foi derrotado por Richard Nixon, e prefere discutir questões sociais por meio da arte, acreditando que a criação artística pode se expressar de qualquer forma que julgue necessária.
Explorações latino-americanas de John Malkovich e o diálogo com o autoritarismo
A atração de Malkovich pela América do Sul extrapola “The Infamous Ramírez Hoffman”. Em 2002, ele dirigiu “Guerrilha Sem Face”, suspense ambientado no Peru durante um período de instabilidade política, no qual um policial é obrigado a caçar terroristas. Mais recentemente, participou do filme “Wild Horse Nine”, previsto para novembro, que se passa em Santiago em meio às tensões de 1973 – mesmo contexto histórico mencionado na peça agora em cartaz.
Esse interesse recorrente pela região latino-americana conecta-se ao desejo do ator de compreender sociedades muitas vezes separadas da Norte-América. Para ele, autores sul-americanos criaram “outro planeta” literário, percepção que parece reforçar a escolha de um texto de Bolaño como base para seu novo espetáculo. A peça, que combina narração e orquestra, também dialoga com os projetos “The Music Critic” e “Their Master’s Voice”, nos quais Malkovich mescla performance dramática e repertório clássico a fim de ressaltar o talento humano diante do avanço tecnológico.
Datas, locais e equipe que acompanha John Malkovich no Brasil
O público brasileiro poderá assistir a “The Infamous Ramírez Hoffman” em três apresentações. No dia 29, às 17 h, o espetáculo ocupa o palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Já em São Paulo, as sessões estão programadas para 31 e 1.º, às 20h30, na Sala São Paulo. Os ingressos variam de R$ 200 a R$ 800 na capital fluminense e de R$ 350 a R$ 550 na capital paulista. A classificação etária é de 10 anos.
A direção é assinada pelo próprio John Malkovich, que contracena com a pianista russa Anastasya Terenkova, o violinista ucraniano Andrej Bielow e o bandoneonista argentino Fabrizio Colombo. O formato sublinha a intenção de reunir talentos de diferentes origens em uma mesma experiência cênica, alinhado ao histórico do ator de reunir gêneros, profissões, países e filosofias distintas – prática evidenciada também no ensaio fotográfico “Malkovich, Malkovich, Malkovich”, de Sandro Miller, em que ele reencenou imagens icônicas de Salvador Dalí, Marilyn Monroe, Albert Einstein e Che Guevara.
Os ingressos estão disponíveis em plataformas online associadas à Dellarte e à Tucca, responsáveis pela produção local. Com essas apresentações, John Malkovich confirma mais um encontro com o público brasileiro e reforça a trajetória que o fez transformar múltiplas identidades em matéria-prima para discutir, no palco e na tela, as sombras e contradições da condição humana.

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