Mudanças climáticas forçam Jogos de Inverno a recorrerem a 85 % de neve artificial em Milão-Cortina 2026

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Os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 escancararam, ainda antes da cerimônia de abertura, o peso das mudanças climáticas sobre os esportes de neve. A organização confirmou que 85 % da neve utilizada nas provas será neve artificial, produzida em escala industrial para compensar a diminuição da precipitação natural e as temperaturas mais altas que vêm encurtando os invernos em todo o planeta.
- Por que a neve artificial tornou-se regra nos Jogos de Inverno
- Logística de 2,4 milhões de metros cúbicos: água, energia e infraestrutura
- Evolução do uso de neve artificial desde Sochi 2014
- Onde a neve natural já não basta: retração das sedes climaticamente confiáveis
- Consequências além das pistas: água, ecossistemas e economia regional
- Do pioneirismo em 1924 à redefinição contemporânea dos Jogos de Inverno
Por que a neve artificial tornou-se regra nos Jogos de Inverno
O uso de neve artificial em eventos olímpicos não é novidade, mas a dependência atingiu um patamar sem volta. O modelo de competição exige pistas homogêneas, camadas estáveis e cronograma sem interrupções — condições cada vez mais raras na natureza. O aquecimento global alterou o regime de frio nas montanhas europeias, reduzindo tanto a quantidade quanto a confiabilidade da neve natural. Sem cobertura consistente, esportes como esqui alpino, snowboard e biatlo ficariam comprometidos.
Em Milão-Cortina, a resposta foi apostar na produção mecânica. Mais de 125 canhões foram instalados em áreas como Bormio e Livigno, localidades que abrigarão provas tradicionais. Esses equipamentos atomizam água em microgotas e as lançam no ar a temperaturas inferiores ao ponto de congelamento, gerando o manto branco exigido pelas regras internacionais. Grandes reservatórios em altitude fornecem o volume hídrico necessário e garantem pressão constante, mesmo em períodos de seca.
Logística de 2,4 milhões de metros cúbicos: água, energia e infraestrutura
O esforço de engenharia para manter pistas olímpicas operacionais em 2026 inclui a produção de 2,4 milhões de metros cúbicos de neve artificial. A operação consome 946 milhões de litros de água — o bastante para encher um terço do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, se transformado em reservatório. O processo exige, além de volume hídrico, energia elétrica para bombear água e acionar compressores de ar, elevando o custo ambiental e financeiro do evento.
Reservatórios localizados em altitudes superiores às áreas de prova minimizam o gasto energético com bombeamento, já que aproveitam a gravidade. Ainda assim, a grande escala impõe desafios de abastecimento em caso de invernos ainda mais secos. Caso a temperatura suba acima dos níveis ideais, a eficiência dos canhões cai, obrigando reforços mecânicos ou interrupções na produção.
Evolução do uso de neve artificial desde Sochi 2014
O cenário de 2026 faz parte de uma curva ascendente. Em Sochi 2014, aproximadamente 80 % da neve das pistas foi produzida por máquinas. Quatro anos depois, em PyeongChang 2018, o índice saltou para 98 %. Em Pequim 2022, o limite foi superado: 100 % das competições ocorreram sobre neve artificial, sem qualquer contribuição natural significativa. Já em Milão-Cortina, apesar de haver 15 % de esperança de neve espontânea, a organização assegurou o calendário com a mesma estratégia tecnológica.
Esse histórico indica que a adoção de neve artificial não é um recurso de emergência, mas um componente estrutural dos Jogos de Inverno contemporâneos. A tendência acompanha modelos projetados por entidades esportivas e climáticas, que identificam uma relação direta entre o aumento da temperatura média global e a dependência de produção mecânica de neve para competições ao ar livre.
Onde a neve natural já não basta: retração das sedes climaticamente confiáveis
Entre 1981 e 2010, 87 locais em todo o mundo eram classificados como climaticamente confiáveis para receber os Jogos de Inverno. Projeções para a década de 2050 reduzem o número para 52. Para 2080, mesmo em cenário intermediário de mitigação de emissões, apenas 46 localidades manteriam condições adequadas. A conclusão deriva de análises do Instituto Talanoa, que cruzou dados de temperatura, precipitação e altitude.
A retração limita o leque de candidatas a sedes e pressiona o Comitê Olímpico Internacional a rever critérios. Ainda que tecnologias de neve artificial permitam manter o evento, custos tendem a subir e impactos ambientais tornam-se parte do cálculo de viabilidade. A incerteza climática ameaça, inclusive, esportes não olímpicos que dependem de neve e gelo, como circuitos internacionais de esqui recreativo e temporadas de turismo de inverno.
Consequências além das pistas: água, ecossistemas e economia regional
A escassez de neve natural reflete alterações mais amplas no sistema climático. Satélites mostram que a extensão do gelo marinho do Ártico permanece abaixo da média histórica. O recorde negativo foi alcançado em setembro de 2012, com 3,8 milhões de quilômetros quadrados. Em 31 de dezembro de 2025, a área somava 12,45 milhões de quilômetros quadrados, número ainda inferior ao padrão de 1991-2020.
A neve cumpre função vital como reservatório temporário de água, liberando-a gradualmente na primavera e no verão. Quando esse ciclo é encurtado, rios recebem menor vazão, reservatórios de abastecimento humano sofrem pressão adicional e ecossistemas adaptados ao frio enfrentam desequilíbrios. O turismo de montanha, importante fonte de renda em regiões alpinas, perde dias úteis de operação, afetando hotéis, escolas de esqui e comércio local. Assim, o investimento em neve artificial soluciona a competição esportiva, mas não substitui os benefícios hidrológicos e ecológicos da neve natural.
Do pioneirismo em 1924 à redefinição contemporânea dos Jogos de Inverno
Inaugurados em 1924 nos Alpes franceses, os Jogos Olímpicos de Inverno nasceram em plena abundância de neve natural, em latitudes e altitudes onde os invernos eram rigorosos. Ao longo do século XX, sedes tradicionais incluíram cadeias montanhosas da Europa, da América do Norte e da Ásia, todas historicamente associadas a temperaturas negativas prolongadas.
Cem anos depois, o retrato é distinto. Sem canhões de neve, reservatórios e logística de milhões de metros cúbicos de água, o evento não alcançaria o padrão exigido para provas cronometradas e de alta performance. O panorama expõe como as mudanças climáticas remodelam práticas consolidadas e impõem novos parâmetros de planejamento para megacompetições esportivas.
Com a cerimônia de abertura marcada para fevereiro de 2026, Milão-Cortina avança na instalação final dos sistemas de produção, enquanto monitoramentos climáticos permanecem diários para ajustar o cronograma de geração de neve e assegurar a entrega de 2,4 milhões de metros cúbicos até o início das provas.

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