Indústria brasileira encerra 2025 com avanço tímido de 0,6% em meio à Selic elevada

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Indústria brasileira terminou 2025 com expansão de 0,6%, registro que confirma o terceiro ano consecutivo de crescimento, mas reflete a perda de fôlego causada pela manutenção da Selic em patamar elevado, segundo a Pesquisa Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
- Retrato geral: a performance da indústria brasileira em 2025
- Impacto da Selic sobre a indústria brasileira
- Desempenho semestral: dividindo o ano em duas metades
- Análise por grandes categorias econômicas da indústria brasileira
- Atividades com maior destaque: avanços e retrações
- Consumo das famílias, inadimplência e bens duráveis
- Contexto macroeconômico: inflação, meta oficial e ação do Banco Central
- Comparação com patamares pré-pandemia: onde está a indústria brasileira hoje
- Próximos indicadores a observar
Retrato geral: a performance da indústria brasileira em 2025
Ao longo de 2025, a produção industrial nacional oscilou entre avanços pontuais e quedas expressivas, cenário que resultou em um saldo positivo, porém modesto, de 0,6%. O indicador representa:
• Um nível 0,6% acima do observado em fevereiro de 2020, período imediatamente anterior à declaração de pandemia de covid-19;
• Uma distância de 16,3% em relação ao pico histórico anotado em maio de 2011.
Dessa forma, a série estatística reforça que a trajetória de recuperação iniciada em 2023 (0,1%) e fortalecida em 2024 (3,1%) continuou, mas em ritmo claramente mais lento.
Impacto da Selic sobre a indústria brasileira
O gerente da pesquisa, André Macedo, vincula a desaceleração à política monetária restritiva adotada pelo Banco Central. Entre setembro de 2024 e junho de 2025, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa básica de 10,5% para 15% ao ano, movimento iniciado para conter pressões inflacionárias que persistiam fora do intervalo de tolerância da meta oficial de 3%.
As consequências diretas desse ambiente de juros elevados foram:
• Crédito mais caro para empresas, levando ao adiamento de projetos de expansão e compra de máquinas;
• Custo maior dos financiamentos às famílias, limitando o consumo, sobretudo de bens duráveis dependentes de parcelamento;
• Pressão adicional sobre a inadimplência, fator que diminui a disposição de bancos e consumidores em assumir novos compromissos financeiros.
No setor fabril, essa combinação freou pedidos, reduziu turnos de produção e contribuiu para paralisações em determinadas plantas, notadamente no segmento de veículos automotores.
Desempenho semestral: dividindo o ano em duas metades
A leitura detalhada dos dados evidencia a perda de ritmo ao longo do calendário:
• Primeira metade de 2025 (janeiro a junho): alta acumulada de 1,2% sobre igual período de 2024;
• Segunda metade de 2025 (julho a dezembro): variação zero na mesma base de comparação.
Entre setembro e dezembro, a produção caiu 1,9%, intervalo que concentrou três resultados negativos e apenas um mês de estabilidade. O pior desempenho ocorreu em dezembro, com retração de 1,2%, maior queda desde julho de 2024 (-1,5%).
Análise por grandes categorias econômicas da indústria brasileira
Os números consolidados do IBGE separam as linhas de produção em quatro grandes grupos de bens. Em 2025, o desempenho foi heterogêneo:
Bens de consumo duráveis
• Cresceram 2,5%, sustentados por eletrodomésticos e parte da indústria automobilística, ainda que o segmento tenha desacelerado no final do ano.
Bens intermediários
• Avanço de 1,5%. Produtos químicos básicos, derivados do petróleo e metalurgia figuraram entre os componentes de maior peso nesse resultado.
Bens de consumo semi e não duráveis
• Recuo de 1,7%. Alimentos processados e vestuário sentiram a redução do poder de compra das famílias, pressionadas pelo encarecimento do crédito.
Bens de capital
• Queda de 1,5%. Máquinas e equipamentos, intensivos em investimento, refletem de maneira mais imediata a cautela empresarial diante de juros altos.
Atividades com maior destaque: avanços e retrações
Das 25 atividades monitoradas pelo IBGE, 15 registraram crescimento. O levantamento lista como maiores contribuições positivas:
• Indústrias extrativas: aumento de 4,9%, impulsionado pela produção de minério de ferro e petróleo;
• Produtos alimentícios: acréscimo de 1,5%, com manutenção da demanda interna e externa por processados.
Ao analisar o conjunto de 789 produtos pesquisados, a produção subiu em 49,6% deles. No sentido oposto, o principal freio veio de veículos automotores, cuja fabricação recuou 8,7% entre novembro e dezembro por conta de férias coletivas e paralisações programadas em diversas montadoras.
Consumo das famílias, inadimplência e bens duráveis
A política monetária restritiva afeta as compras de longo prazo, pois itens como automóveis, eletroeletrônicos e móveis dependem de financiamento. Quando as taxas sobem:
• O valor das parcelas aumenta, reduzindo a acessibilidade;
• A inadimplência cresce, elevando a cautela dos agentes financeiros;
• Os fabricantes ajustam estoques, cortam turnos e concedem férias coletivas para adequar a oferta à demanda menor.
No último quadrimestre de 2025, o segmento de bens de consumo duráveis refletiu exatamente essa dinâmica, explicando parte relevante da contração mensal registrada em dezembro.
Contexto macroeconômico: inflação, meta oficial e ação do Banco Central
O aumento da Selic foi resposta à inflação que, por 13 meses consecutivos, ultrapassou o teto de 4,5% (meta de 3% com tolerância de 1,5 ponto percentual). A autoridade monetária manteve o juro em 15% por cinco reuniões seguidas até o fim de 2025, na tentativa de:
• Reduzir a velocidade do reajuste de preços;
• Reancorar expectativas de mercado para 2026;
• Conduzir o IPCA de volta ao intervalo de tolerância.
A estratégia trouxe efeitos colaterais perceptíveis na atividade industrial, mas não impediu que a taxa de desemprego permanecesse na mínima histórica medida pelo IBGE, indicando um mercado de trabalho ainda resiliente.
Comparação com patamares pré-pandemia: onde está a indústria brasileira hoje
O nível de produção de 2025 superou marginalmente o volume de fevereiro de 2020, referência pré-covid, mas segue expressivamente abaixo do auge de 2011. Esse hiato de 16,3% reflete transformações estruturais, como:
• Mudanças tecnológicas que aumentam a produtividade, porém reduzem a necessidade de capacidade instalada;
• Maior competição internacional e substituição de manufaturados locais por importados;
• Sensibilidade elevada da indústria a ciclos de aperto monetário, como o vivenciado entre 2024 e 2025.
Próximos indicadores a observar
A Pesquisa Industrial Mensal de janeiro de 2026, que trará os primeiros dados do novo ano, será o próximo termômetro sobre a velocidade de reação do parque fabril, especialmente se o Copom mantiver a Selic em 15% ou sinalizar mudanças na condução da política monetária.

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