Homenagem do Salgueiro a Rosa Magalhães promete encerrar o Carnaval 2026 com enredo repleto de símbolos históricos

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Homenagem do Salgueiro a Rosa Magalhães é o mote do desfile que, pela primeira vez em quatro décadas de Sambódromo, caberá ao Acadêmicos do Salgueiro para encerrar a última noite de apresentações do Grupo Especial em 2026.
- Por que a homenagem do Salgueiro a Rosa Magalhães encerra a folia de 2026?
- A trajetória vitoriosa de Rosa Magalhães e a raiz salgueirense
- Construção do enredo: da biblioteca pessoal ao acervo digital
- Elementos simbólicos da homenagem do Salgueiro a Rosa Magalhães
- Comissão de frente: desafios para traduzir o legado de Rosa Magalhães
- Aprendizados de um “bom aluno” e a presença feminina na folia
- Calendário do Grupo Especial e expectativa para a noite de encerramento
Por que a homenagem do Salgueiro a Rosa Magalhães encerra a folia de 2026?
O sorteio oficial que define a ordem dos desfiles colocou a vermelho-e-branca como a derradeira agremiação da terça-feira, 17 de fevereiro. A posição de fechamento nunca havia sido ocupada pela escola desde a inauguração da Marquês de Sapucaí, em 1984. De imediato, a diretoria e o carnavalesco Jorge Silveira avaliaram que o horário simbolicamente nobre reforçaria a intenção de exaltar a professora, artista e pesquisadora visual que faleceu em julho de 2024. Assim, o Salgueiro transformou o momento inédito em palco para agradecer meio século de criações que marcaram a estética do carnaval carioca.
No calendário oficial, o desfile ocorrerá após as apresentações de Paraíso do Tuiuti, Vila Isabel e Grande Rio, fechando a programação de 12 escolas distribuídas em três noites.
A trajetória vitoriosa de Rosa Magalhães e a raiz salgueirense
Rosa Lúcia Benedetti Magalhães, carioca formada em pintura pela Escola de Belas Artes, construiu carreira de 50 anos, período em que assinou carnavais para 12 agremiações. Iniciou-se justamente no Salgueiro, na década de 1960, quando a escola protagonizou a chamada “revolução salgueirense”. O movimento, liderado por Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, introduziu narrativa histórica, pesquisa iconográfica rigorosa e cenografia monumental na avenida. Dentro desse ambiente, Rosa foi orientada por Pamplona, Arlindo e nomes como Maria Augusta e Joãosinho Trinta, absorvendo a combinação de criatividade, brasilidade e inovação que passaria a distinguir seu trabalho.
Entre 1984 e 2019, a carnavalesca conquistou seis títulos no Sambódromo: cinco pela Imperatriz Leopoldinense e um pela Vila Isabel. Ela se tornou a única artista a vencer em cinco décadas consecutivas, da década de 1980 à de 2020, evidenciando relevância contínua e capacidade de dialogar com diferentes épocas. Passagens marcantes ainda incluem enredos na Portela, Tradição, Mangueira, União da Ilha, São Clemente e Tuiuti.
Construção do enredo: da biblioteca pessoal ao acervo digital
A homenagem do Salgueiro a Rosa Magalhães recebeu o título “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau nem do pirata da perna de pau”. Segundo Jorge Silveira, a proposta não segue formato biográfico tradicional. A opção foi criar um mosaico de memórias coletivas, usando signos visuais consagrados pela mestra — anjinhos, coroas, jegues, entre outros — para conduzir o público por diferentes momentos de sua produção.
O ponto de partida da concepção partiu do método que a homenageada adotava: a pesquisa literária. Conhecida por iniciar cada carnaval pela leitura, Rosa mantinha vasto repertório bibliográfico. Por isso, o desfile será apresentado como visita a uma biblioteca imaginária, onde personagens saltam das páginas para encontrar a escola. Para desenhar esse roteiro, a equipe mergulhou no acervo que a artista deixou catalogado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). São mais de quatro mil desenhos digitalizados, disponibilizados on-line, que registram croquis, estudos de alegorias e anotações.
A pesquisa detectou lacuna: os materiais de 1990 e 1991, anos em que Rosa assinou o próprio Salgueiro, não estavam nos arquivos. A ausência foi resolvida quando, durante evento em memória da carnavalesca, as pastas originais desses dois carnavais foram entregues à comissão de pesquisa. O reencontro com os esboços completou a cronologia visual e permitiu alinhar o novo enredo às ideias desenvolvidas três décadas antes.
Elementos simbólicos da homenagem do Salgueiro a Rosa Magalhães
Jorge Silveira explica que o desfile reutilizará ícones recorrentes na obra da professora. Anjinhos que coroaram alas da Imperatriz Leopoldinense, além de figuras como a jumenta carregada de fitas coloridas, reaparecem ressignificados. O objetivo é provocar reconhecimento imediato nos foliões que acompanharam os desfiles originais, ao mesmo tempo em que apresenta essas imagens a gerações mais jovens.
O carnavalesco destaca que a diversidade do repertório de Rosa — temas que vão de lendas amazônicas a referências medievais — exigiu organizar a narrativa em blocos temáticos. Cada setor do cortejo representará um grupo de histórias, unido por cores, materiais e ritmo de alegorias. Dessa forma, o público visualizará um panorama amplo sem perder a unidade dramática.
Comissão de frente: desafios para traduzir o legado de Rosa Magalhães
A comissão de frente do Salgueiro, comandada pelo coreógrafo Paulo Pinna, iniciou os ensaios ainda em outubro de 2025. Serão 19 integrantes, dos quais 15 permanecerão visíveis durante toda a apresentação. O grupo pratica quatro horas por noite, rotina que se estenderá até poucos dias antes do desfile. A responsabilidade é elevada porque Rosa valorizava particularmente esse quesito, usando-o como prólogo cenográfico de suas histórias.
Pinna adianta que a performance se baseará em irreverência e leveza, qualidades que a carnavalesca manejava com poucos elementos para sugerir cenários completos. O coreógrafo prefere manter surpresa sobre mecanismos de troca de figurinos e movimentação de alegorias, mas sugere que o público espere recursos que dialoguem com o estilo engenhoso da homenageada.
Aprendizados de um “bom aluno” e a presença feminina na folia
Jorge Silveira conviveu com Rosa durante projetos simultâneos no Rio de Janeiro e em São Paulo, atuando como assistente. Ele relata que a professora combinava humildade no trato com equipe e rigor no processo criativo. Dentro de um ambiente historicamente dominado por carnavalescos homens, a artista consolidou lugar de liderança, obtendo títulos que a colocaram à frente de muitos colegas. Para Silveira, essa trajetória confirma a importância de destacar a voz feminina na cadeia produtiva do carnaval.
O carnavalesco do Salgueiro observa que a despedida física de Rosa não encerra seu impacto na cultura popular. Ao revisitar a obra da mestra, a escola pretende reforçar a ideia de que soluções cênicas inovadoras podem — e devem — dialogar com pesquisa histórica e literária. Esse princípio norteou a revolução salgueirense dos anos 1960 e segue atual em 2026.
Calendário do Grupo Especial e expectativa para a noite de encerramento
O desfile em que a homenagem do Salgueiro a Rosa Magalhães será apresentada compõe a terceira noite do Grupo Especial. Antes do Salgueiro, passarão pela avenida Paraíso do Tuiuti com “Lonã Ifá Lukumi”, Vila Isabel com “Macumbembê, Samborembá” e Grande Rio com “A Nação do Mangue”. A expectativa da Liga Independente das Escolas de Samba é que o cronograma termine por volta do amanhecer de quarta-feira, guiado pelo ritmo de 75 minutos destinado a cada agremiação.
Com o encerramento dos desfiles, as atenções se voltam à apuração, marcada para a quarta-feira de Cinzas no mesmo Sambódromo. Será nesse momento que se conhecerá o resultado do tributo a Rosa Magalhães e de todas as demais escolas que compõem o espetáculo de 2026.

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