Carnaval em Teresina: linha do tempo completa dos clubes sociais aos bloquinhos que dominam as ruas

Carnaval em Teresina: linha do tempo completa dos clubes sociais aos bloquinhos que dominam as ruas
Getting your Trinity Audio player ready...

O Carnaval em Teresina nasce todos os anos antes da Quaresma, mas sua história começou ainda no século XIX, no coração da capital piauiense. Ao longo de mais de cem anos, a festa passou de pequenos encontros de cavalheiros na antiga Praça Saraiva a um cenário plural de bloquinhos que ocupam bairros inteiros. A seguir, um percurso cronológico mostra como clubes sociais, corso, escolas de samba e blocos populares moldaram a principal manifestação cultural da cidade.

Índice

Origem do Carnaval em Teresina: dos primeiros encontros à Praça Saraiva

O ponto de partida documentado para o Carnaval em Teresina situa-se na segunda metade do século XIX. Naquela época, a capital do Piauí ainda se concentrava no Centro, e a então recém-organizada Praça Saraiva servia de cenário para que pequenos grupos de foliões se reunissem de maneira informal. Relatos publicados em jornais indicam que alguns cavalheiros se encontravam ali, sem constituir agremiações estruturadas ou trajarem fantasias padronizadas. A participação popular era limitada: a folia não passava de um divertimento restrito a círculos que tinham acesso à praça, o que evidencia, desde o começo, a distinção social na festividade.

Ascensão dos clubes sociais no Carnaval em Teresina e o fenômeno dos assaltos

A formalização da festa chega com o surgimento dos clubes sociais. Em 1922, o Clube dos Diários é fundado e, três anos depois, inaugura a própria sede. Intelectuais e juristas, entre eles Higino Cunha e Jônatas Batista, organizam blocos que saem das dependências do clube para percorrer as ruas do Centro. Esses grupos visitam residências previamente selecionadas no que se convencionou chamar de “assalto carnavalesco”. O dono da casa prepara licores, salgados e petiscos para recepcionar os foliões, que se apresentam das 15h às 19h antes de retornarem, à noite, ao Clube dos Diários ou ao então popular Clube do Botafogo.

Enquanto a elite usufrui de bailes luxuosos, uma plateia curiosa forma o chamado Sereno, moradores que assistem às entradas e saídas dos foliões a partir das calçadas. Também ganham prestígio agremiações como Clube dos Fanfarrões, Bloco das Turunas, Bloco da Itália e Terpyscore Clube. Essas iniciativas reforçam a divisão entre quem festeja dentro dos salões e quem observa do lado de fora, desenhando dois públicos distintos, mas igualmente atraídos pela novidade carnavalesca.

Corso motorizado: tradição que moldou o Carnaval em Teresina

Paralelamente aos assaltos, o corso torna-se um espetáculo à parte no Carnaval em Teresina. Inicialmente composto por carroças enfeitadas, o desfile ganha impulso na década de 1920 com a introdução de automóveis decorados que lançam confetes e jatos de lança-perfume sobre a multidão. O trajeto começa na Praça Rio Branco, segue pelas ruas Coelho Rodrigues, 7 de Setembro e Eliseu Martins até a Praça João Luís Ferreira. Entre as atrações mais aguardadas encontra-se o “Caminhão das Raparigas”, veículo que leva prostitutas da Rua Paissandu e, por alguns instantes, fornece a essas mulheres visibilidade pública incomum para a época.

Enquanto a maioria das capitais brasileiras abandona o corso itinerante na década de 1950, Teresina preserva a tradição até os anos 1960. Quando o formato perde força, outra manifestação ganha projeção: as escolas de samba.

Consolidação das escolas de samba e personagens marcantes

O auge das escolas de samba acontece entre o fim da década de 1960 e meados dos anos 1970. Em 1975, os desfiles atingem o recorde de treze agremiações concorrentes. Entre as figuras que se destacam estão Bernardo Cruz — reconhecido por ter sido o primeiro homem a desfilar fantasiado de baiana — e Nicinha, eternizada como “Rainha dos Carnavais” pela presença constante e entusiasmo nos desfiles. A convivência entre blocos de rua e escolas de samba mantém a festa diversificada, permitindo que públicos com preferências variadas encontrem seu espaço.

Anos 80 e 90: a migração para blocos de sociedade e blocos de sujo

No início da década de 1980, o repasse financeiro da prefeitura às escolas de samba é interrompido, e muitas agremiações deixam de desfilar. Para preencher o vazio, despontam dois modelos de blocos. Os chamados blocos de sociedade mantêm fantasias elaboradas, diretoria organizada e cronograma de ensaios, reproduzindo, em parte, o esmero dos antigos clubes sociais. Já os blocos de sujo resgatam o espírito do entrudo — considerada a forma mais primitiva do Carnaval brasileiro — com fantasias improvisadas e brincadeiras que remetem ao mela-mela.

Exemplos notáveis que surgem como sujo e, posteriormente, migram para o status de sociedade incluem Dou-lhe Três, Em Cima da Hora, Banda Bandida, Tabaco Roxo, Barão de Itararé, La Boate, Vaca Atolada e Paçoca. Esses grupos consolidam a participação popular, pois exigem menor investimento individual para aderir à folia, ao mesmo tempo em que mantêm algum grau de organização interna.

Folia contemporânea: bloquinhos, diversidade e desafios atuais

Nas últimas duas décadas, o cenário carnavalesco teresinense equilibra-se entre a memória das antigas escolas de samba, tentativas de revitalizar o corso e o fortalecimento definitivo dos blocos de rua. O desfile motorizado não ocorre pelo segundo ano consecutivo em 2026, mas os foliões seguem ocupando avenidas com grupos como Capote da Madrugada, Pinto na Morada, Piauí Samba de Um Lado, Sanatório Geral, As Fuleiras, As Curicas e Stouradas. Essa geração de blocos combina sátira política, irreverência e celebração da diversidade, oferecendo ao público tanto crítica social quanto entretenimento.

O historiador Bernardo Sá, professor da Universidade Federal do Piauí e pesquisador dedicado ao samba e à cultura popular, descreve o Carnaval como resultado da sobreposição de múltiplas manifestações que evoluíram simultaneamente. A convivência de modelos distintos — clubes, corso, escolas de samba e blocos — constrói um mosaico que atrai o folião disposto a dançar na rua e o espectador que prefere observar ao longe.

Para 2026, a ausência do corso coloca em evidência a relevância dos bloquinhos, que continuam sustentando a tradição sem apoio formal comparável ao que as escolas de samba recebiam no passado. Mesmo assim, a expectativa dos organizadores é manter viva a essência da festa por meio de trajetos curtos, temas irreverentes e uso de redes sociais para mobilizar participantes.

Do primeiro encontro de cavalheiros na Praça Saraiva, ainda no século XIX, aos blocos que hoje ocupam bairros inteiros, o Carnaval em Teresina revela um percurso de adaptação constante. Clubes sociais abriram espaço para o corso motorizado; este, por sua vez, cedeu protagonismo às escolas de samba, que mais tarde viram os blocos de rua tomarem o centro da cena. Em plena década de 2020, é nos bloquinhos que a folia encontra energia renovada e resistência cultural, garantindo que, mesmo sem o desfile de carros decorados, a cidade continue celebrando antes do início da Quaresma.

zairasilva

Olá! Eu sou a Zaira Silva — apaixonada por marketing digital, criação de conteúdo e tudo que envolve compartilhar conhecimento de forma simples e acessível. Gosto de transformar temas complexos em conteúdos claros, úteis e bem organizados. Se você também acredita no poder da informação bem feita, estamos no mesmo caminho. ✨📚No tempo livre, Zaira gosta de viajar e fotografar paisagens urbanas e naturais, combinando sua curiosidade tecnológica com um olhar artístico. Acompanhe suas publicações para se manter atualizado com insights práticos e interessantes sobre o mundo da tecnologia.

Conteúdo Relacionado

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Go up

Usamos cookies para garantir que oferecemos a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você está satisfeito com ele. OK